Prólogo
Se todos os habitantes desta cidade
escrevessem uma palavra no papel
e a gritassem, agora,
o poema resultante
seria, no primeiro momento,
absorvido pelas massas de concreto armado,
mas depois, devagar,
provocaria uma fissura
no engenho das coisas,
a queda de todas as bastilhas,
a ruptura de todos os leões de pedra,
o primeiro dia do império do silêncio soturno.
Refrão
A música repetitiva
tocada por todos os tempos
conflui, como um fogo de essência,
no câncer e na benção
da cidade de São Paulo.
Vista
Os óculos que nunca tive
espreitam
num bairro desconhecido
da zona oeste
– onde ontem mesmo morreu um cão.
Profecia
Os ratos – com asas ou não –
debaixo de nossos pés
prenunciam a discórdia
e o reinado da entropia.
(Ouça: é a voz dos ratos.)
Dúvida
No caso de nada ser realidade,
se São Paulo for só
o ardil de um demônio hilariante,
como fica
o nosso amor pela angústia?
Audição (depois de Fraga e Tom Zé)
Tocam as campainhas
não só hoje,
não só nesta cidade,
mas as campainhas inesperadas
de toda a humanidade sobreposta.
Quem será
que bate à porta?
Apocalipse (depois de McNamara)
Se Kruschev não tivesse retirado
os mísseis de Cuba,
quem seríamos nós?
Tóquio 1945
Uma cidade inteira
a arder.
O quarto das crianças,
o telhado,
a sala de jantar,
a rua
pegando fogo.
Há o gerúndio da morte
– e a morte
é um gerúndio de fogo.
RG 19.182.286
Quem sou eu
diante da aniquilação?
Quem sou eu
diante do termo,
do ocaso,
da palavra
enterrada sem nome para sempre
no meio da floresta negra?
Quem sou eu
diante da cegueira de Homero
e da surdez de Beethoven?
Quem sou eu
diante da loucura de Maupassant
e da maldição de Spinoza?
Quem bate à porta?
Sou eu.
Estilo
Copiar a si mesmo
até o cansaço absoluto.
Copiar, obsessivo,
por dogma, por fé,
como se fosse
a ordem dos deuses.
Imitar a si mesmo,
olhar para o umbigo
até reinventar
a gravidez e o parto.
Nascer de novo
copiando a si mesmo
e copiar a cópia
até o original.
E só então dormir.
(Cidade de São Paulo, 18-19-20 de junho de 2004)
Publicado em 21 de junho de 2004 às 07:37 por briguet