Archive for June of 2004
Portugal, Holanda, Marcela, Bar Brasil
June 30, 2004No caminho do Centro para casa, encontrei vários grupos ligados na semifinal da Eurocopa – Portugal x Holanda.
*****
Como você já deve saber, os lusos venceram por 2 a 1, sob o comando do “nosso” Felipão.
*****
Consegui chegar a tempo de ver meia hora do jogo. Confesso que torci para Portugal – e, pelo que notei, muita gente fez o mesmo.
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Agora só falta o Galvão Bueno dizer: “Portugal é o Brasiiiil na Eurocopa!”
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Nada é impossível no mundo da mídia.
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Por falar em mídia, aquela moça de Londrina saiu na Sexy. Sem brincadeira, não consigo ver maiores atrativos na garota. Novinha, lá no Bar Brasil, ela era bem mais bonita. Mas nunca me aproximei.
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Sou tímido.
*****
Amanhã quero escrever uma crônica explicando por que gostamos do Bar Brasil.
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Quando eu era criança, o dia que eu mais esperava era sábado. Depois, jovem, passei a esperar a sexta. Hoje, não vejo a hora de chegar a quinta. Lá com uns 90 anos, acho que estarei aguardando a segunda.
June 26, 2004
Não sei falar inglês, espanhol, italiano, francês.
Nunca li um livro de filosofia até o fim.
Sou um completo alienado político. Quem está no poder?
As coisas do jornalismo me entediam profundamente.
Adoro o livro “Como ser cult e agarrar as garotas no Valentino”, de Rodrigo Grota e Júlio Tanga. Acho que o livro não tem nenhum significado social, graças a Deus.
Não acredito em conspirações.
Nunca li um livro de filosofia até o fim.
Sou um completo alienado político. Quem está no poder?
As coisas do jornalismo me entediam profundamente.
Adoro o livro “Como ser cult e agarrar as garotas no Valentino”, de Rodrigo Grota e Júlio Tanga. Acho que o livro não tem nenhum significado social, graças a Deus.
Não acredito em conspirações.
Depois dos 30
June 25, 2004Na minha adolescência, ô palavra feia, The Cure era uma banda nova. E eu acreditava que não teria mais espinhas depois dos 30 anos.
Tenho.
Depois dos 30 anos, eu não teria medo.
Tenho. Mais que antes.
Depois dos 30, eu teria barba.
Não tenho. Mesmo assim, preciso me barbear todas as manhãs.
Quando eu tinha 18 anos, minha mãe vivia dizendo que era jovem demais para beber tanto.
Hoje ela diz que um homem com mais de 30 anos não deve beber assim.
Eu saberia falar três línguas aos 33 anos.
Mal falo o português.
Teria conhecido o mundo inteiro.
Só fui a Paris. Dez dias.
Teria lido as obras completas do Balzac.
Li “O Pai Goriot”. E uma parte de “Ilusões Perdidas”.
Depois dos 30 anos, só aprendi uma coisa: não vou pensar mais em como seria depois dos 60.
Mas sei que restará a sensação de absurdo – esta banalidade temporal dentro de cada coisa.
Bota um João Sebastião na vitrola, Mané!
O verbo da QSL
June 24, 2004
Ir.
Apesar de amanhã, apesar do mundo, apesar de tudo.
Ir.
Mesmo sem toalha no banheiro, mesmo sem comida, mesmo sem espaço, mesmo sem conforto, mesmo sem dinheiro, mesmo sem vergonha.
Ir.
Não precisa de justificativa racional. Não carece de argumentos. Não demanda coerência.
Ir.
A despeito da ressaca, a despeito do sono, a despeito da sexta.
Ir.
Como o ponteiro da bússola indica o Norte; como a água gira para um lado e não para o outro; como os pássaros migram para a mesma árvore.
Ir.
Pois essa é a única lei da quinta.
Apesar de amanhã, apesar do mundo, apesar de tudo.
Ir.
Mesmo sem toalha no banheiro, mesmo sem comida, mesmo sem espaço, mesmo sem conforto, mesmo sem dinheiro, mesmo sem vergonha.
Ir.
Não precisa de justificativa racional. Não carece de argumentos. Não demanda coerência.
Ir.
A despeito da ressaca, a despeito do sono, a despeito da sexta.
Ir.
Como o ponteiro da bússola indica o Norte; como a água gira para um lado e não para o outro; como os pássaros migram para a mesma árvore.
Ir.
Pois essa é a única lei da quinta.
June 24, 2004
A pastilha da caridade e o cachorro de Buñuel
June 23, 2004
Lembro sempre uma cena que meu pai descreveu, do filme “Viridiana”, de Buñuel:
Um homem está à beira da estrada, quando vê um cachorro passar com a língua de fora, amarrado a uma carroça. Com pena do animal, o homem pára o carroceiro e diz:
– Por que o senhor não coloca o cachorro em cima da carroça?
– Porque aqui em cima só vai gente.
O homem fica revoltado e decide comprar o cachorro, para acabar com aquela cena.
Depois de comprar o cachorro, o homem vê uma outra carroça e um outro cachorro amarrado, correndo atrás dela.
Mas comprar dois cães já seria demais.
*****
Agora mesmo, ocorreu uma cena parecida, quando o ônibus parou no terminal urbano.
Primeiro, subiu uma senhora dizendo que estava desempregada e vendendo umas pastilhas de menta por R$ 1.
Fiquei com pena da mulher e comprei as pastilhas.
Assim que ela saiu do ônibus, entrou um garoto vendendo umas canetinhas por R$ 1, em prol de uma clínica para dependentes de drogas.
Mas comprar as canetas já seria demais.
*****
Antes que alguém venha dizer que eu comparo cães a homens (ou ainda: “Não dê esmolas”; ou ainda: “Não dê o peixe, ensine a pescar”; ou ainda: “O importante são as mudanças estruturais na sociedade”; ou ainda: “Vá se foder, Briguet!”), um esclarecimento: o que aproxima as duas histórias são os limites da compaixão.
*****
Até que ponto um indivíduo pratica o bem só para espantar os seus demônios?
*****
A pastilha de menta tem gosto de caridade minúscula.
Pessoas que eu não sei se morreram ou estão vivas (parte 3 - a dúvida persiste)
June 22, 2004
Graças ao Cláudio Yuge e ao Preto, volto com a série. Responda se estão vivas ou mortas as seguintes personalidades:
- Luiz Caldas
- Kátia (a cantora cega)
- Chiclete com Banana (grupo baiano)
- Cláudia Egyto (que posou na Playboy)
- Diviê (também posou na Playboy)
- Uri Geller (que entortava colheres)
- Lilian Ramos (sósia da Fafá de Belém, que ficou pelada no camarote do Itamar)
- Lengruber (o Uri Geller brasileiro)
- Narizinho
- Jair Soares (ex-governador do RS)
- Magri
- Ibrahim Abi-Ackel (ex-ministro do Figueiredo)
- Marronzinho (candidato presidencial em 1989)
- Araken, o show man
- A fogueteira (que detonou o caso Rojas e depois posou na Playboy)
- Quiroga (o goleiro peruano de 78)
- A judoca Edivanis (ou seria Edivanci?)
- Dino Zoff
- Luiz Caldas
- Kátia (a cantora cega)
- Chiclete com Banana (grupo baiano)
- Cláudia Egyto (que posou na Playboy)
- Diviê (também posou na Playboy)
- Uri Geller (que entortava colheres)
- Lilian Ramos (sósia da Fafá de Belém, que ficou pelada no camarote do Itamar)
- Lengruber (o Uri Geller brasileiro)
- Narizinho
- Jair Soares (ex-governador do RS)
- Magri
- Ibrahim Abi-Ackel (ex-ministro do Figueiredo)
- Marronzinho (candidato presidencial em 1989)
- Araken, o show man
- A fogueteira (que detonou o caso Rojas e depois posou na Playboy)
- Quiroga (o goleiro peruano de 78)
- A judoca Edivanis (ou seria Edivanci?)
- Dino Zoff
Não São Paulo
June 22, 2004
Leia minha crônica sobre a cidade de São Paulo.
Anotações paulistanas
June 21, 2004
Prólogo
Se todos os habitantes desta cidade
escrevessem uma palavra no papel
e a gritassem, agora,
o poema resultante
seria, no primeiro momento,
absorvido pelas massas de concreto armado,
mas depois, devagar,
provocaria uma fissura
no engenho das coisas,
a queda de todas as bastilhas,
a ruptura de todos os leões de pedra,
o primeiro dia do império do silêncio soturno.
Refrão
A música repetitiva
tocada por todos os tempos
conflui, como um fogo de essência,
no câncer e na benção
da cidade de São Paulo.
Vista
Os óculos que nunca tive
espreitam
num bairro desconhecido
da zona oeste
– onde ontem mesmo morreu um cão.
Profecia
Os ratos – com asas ou não –
debaixo de nossos pés
prenunciam a discórdia
e o reinado da entropia.
(Ouça: é a voz dos ratos.)
Dúvida
No caso de nada ser realidade,
se São Paulo for só
o ardil de um demônio hilariante,
como fica
o nosso amor pela angústia?
Audição (depois de Fraga e Tom Zé)
Tocam as campainhas
não só hoje,
não só nesta cidade,
mas as campainhas inesperadas
de toda a humanidade sobreposta.
Quem será
que bate à porta?
Apocalipse (depois de McNamara)
Se Kruschev não tivesse retirado
os mísseis de Cuba,
quem seríamos nós?
Tóquio 1945
Uma cidade inteira
a arder.
O quarto das crianças,
o telhado,
a sala de jantar,
a rua
pegando fogo.
Há o gerúndio da morte
– e a morte
é um gerúndio de fogo.
RG 19.182.286
Quem sou eu
diante da aniquilação?
Quem sou eu
diante do termo,
do ocaso,
da palavra
enterrada sem nome para sempre
no meio da floresta negra?
Quem sou eu
diante da cegueira de Homero
e da surdez de Beethoven?
Quem sou eu
diante da loucura de Maupassant
e da maldição de Spinoza?
Quem bate à porta?
Sou eu.
Estilo
Copiar a si mesmo
até o cansaço absoluto.
Copiar, obsessivo,
por dogma, por fé,
como se fosse
a ordem dos deuses.
Imitar a si mesmo,
olhar para o umbigo
até reinventar
a gravidez e o parto.
Nascer de novo
copiando a si mesmo
e copiar a cópia
até o original.
E só então dormir.
(Cidade de São Paulo, 18-19-20 de junho de 2004)
Se todos os habitantes desta cidade
escrevessem uma palavra no papel
e a gritassem, agora,
o poema resultante
seria, no primeiro momento,
absorvido pelas massas de concreto armado,
mas depois, devagar,
provocaria uma fissura
no engenho das coisas,
a queda de todas as bastilhas,
a ruptura de todos os leões de pedra,
o primeiro dia do império do silêncio soturno.
Refrão
A música repetitiva
tocada por todos os tempos
conflui, como um fogo de essência,
no câncer e na benção
da cidade de São Paulo.
Vista
Os óculos que nunca tive
espreitam
num bairro desconhecido
da zona oeste
– onde ontem mesmo morreu um cão.
Profecia
Os ratos – com asas ou não –
debaixo de nossos pés
prenunciam a discórdia
e o reinado da entropia.
(Ouça: é a voz dos ratos.)
Dúvida
No caso de nada ser realidade,
se São Paulo for só
o ardil de um demônio hilariante,
como fica
o nosso amor pela angústia?
Audição (depois de Fraga e Tom Zé)
Tocam as campainhas
não só hoje,
não só nesta cidade,
mas as campainhas inesperadas
de toda a humanidade sobreposta.
Quem será
que bate à porta?
Apocalipse (depois de McNamara)
Se Kruschev não tivesse retirado
os mísseis de Cuba,
quem seríamos nós?
Tóquio 1945
Uma cidade inteira
a arder.
O quarto das crianças,
o telhado,
a sala de jantar,
a rua
pegando fogo.
Há o gerúndio da morte
– e a morte
é um gerúndio de fogo.
RG 19.182.286
Quem sou eu
diante da aniquilação?
Quem sou eu
diante do termo,
do ocaso,
da palavra
enterrada sem nome para sempre
no meio da floresta negra?
Quem sou eu
diante da cegueira de Homero
e da surdez de Beethoven?
Quem sou eu
diante da loucura de Maupassant
e da maldição de Spinoza?
Quem bate à porta?
Sou eu.
Estilo
Copiar a si mesmo
até o cansaço absoluto.
Copiar, obsessivo,
por dogma, por fé,
como se fosse
a ordem dos deuses.
Imitar a si mesmo,
olhar para o umbigo
até reinventar
a gravidez e o parto.
Nascer de novo
copiando a si mesmo
e copiar a cópia
até o original.
E só então dormir.
(Cidade de São Paulo, 18-19-20 de junho de 2004)
June 17, 2004
E então... como dizem os taxistas...
QSL, QSL.
E que providencial este feriado na sexta.
QSL, QSL.
E que providencial este feriado na sexta.
Pessoas que eu não sei se morreram ou estão vivas (parte 2 - a dúvida continua)
June 16, 2004- Olavo Setúbal
- Abreu Sodré (ex-governador de SP)
- Zilka Salaberry (Dona Benta)
- Cardeal Ratzinger
- Jordi (o cantorzinho francês)
- Reynaldo de Barros (ex-prefeito de SP)
- Giba Um
- Consuelo Badra
- Bellini (capitão de 58)
- Kareen Abdul Jabar
- Ednardo (aquele do pavão misterioso)
- Rosana (como uma deusa você me mantém)
- Claude Lévi-Strauss
- Nelson Mascarenhas (não é o Eduardo, este morreu)
- Robertinho do Recife
- Badalhoca (do vôlei)
- Tiola
- Keke Rosberg (Fórmula 1)
- Didier Pironi (idem)
- Ítalo Rossi
- Rei Fahd (da Arábia Saudita)
- Sebastião Lazaroni
- Edu irmão do Zico
Previsão do tempo
June 16, 2004A mulher do tempo é um fantasma,
e você sabe: fantasmas não existem.
Fantasmas, irreais, nada podem fazer,
então prevêem o tempo.
O tempo, não existindo,
se apega à realidade do fantasma da mulher.
A mulher, como não perde tempo,
torna-se um fantasma da própria inexistência.
A previsão do tempo da mulher, apegada
à condição de não existir, real,
sabe que não há mais tempo para nada.
E a mulher se torna mulher,
e o tempo prevê o tempo
que os fantasmas já sabem: você.
June 15, 2004
Pessoas que eu nunca sei se morreram ou estão vivas:
- João Havelange
- Sarah Vaughan
- Johnny Rotten
- Josué Montello
- Jaime Canet
- Ministro Reis Velloso
- General Leônidas (ministro do Exército no governo Sarney)
- Sambistas dos anos 70 (Luiz Ayrão, p. e.)
- Cantores dos anos 80 (Biafra, p.e.)
- Rainhas do pornô (Ashlyn Gere, p. e.)
**********
Macho que é macho nem fica em São Paulo em dia de Parada Gay.
**********
- E macho que é macho faz poema?
- Claro. Olha só o Bukowski.
- João Havelange
- Sarah Vaughan
- Johnny Rotten
- Josué Montello
- Jaime Canet
- Ministro Reis Velloso
- General Leônidas (ministro do Exército no governo Sarney)
- Sambistas dos anos 70 (Luiz Ayrão, p. e.)
- Cantores dos anos 80 (Biafra, p.e.)
- Rainhas do pornô (Ashlyn Gere, p. e.)
**********
Macho que é macho nem fica em São Paulo em dia de Parada Gay.
**********
- E macho que é macho faz poema?
- Claro. Olha só o Bukowski.
Idéia para uma crônica
June 14, 2004
Fui ao Kotovelo´s, pedi cerveja e sentei sozinho. Um bando de estudantes sentou na mesa ao lado. Acho que eram de Filosofia, Ciências Sociais, sei lá. Um deles, de gorro e camiseta de protesto, falava muito. O interessante é que ele pontuava cada frase com um TÁ LIGADO. Então eu tive uma idéia, TÁ LIGADO? Escrever uma crônica, TÁ LIGADO? Com um personagem, TÁ LIGADO? Que só fale desse jeito, TÁ LIGADO? E o nome, é claro, seria esse mesmo, TÁ LIGADO? Com interrogação e tudo.
TÁ LIGADO?
*******
Janaína, não se desaponte. Precisamos aprender, com os budistas, ou sei lá quem, a ignorar esta realidade. A alienação é o supremo engajamento, a descoberta. TÁ LIGADA?
********
Ô, seu Google, eu também quero anunciar: Vendo Maverick 86. Primeiro dono. (E nem sei dirigir.)
*********
- Mas o Maverick já tinha saído de linha em 86.
- Parabéns, Mr. Óbvio. Você também TÁ LIGADO.
TÁ LIGADO?
*******
Janaína, não se desaponte. Precisamos aprender, com os budistas, ou sei lá quem, a ignorar esta realidade. A alienação é o supremo engajamento, a descoberta. TÁ LIGADA?
********
Ô, seu Google, eu também quero anunciar: Vendo Maverick 86. Primeiro dono. (E nem sei dirigir.)
*********
- Mas o Maverick já tinha saído de linha em 86.
- Parabéns, Mr. Óbvio. Você também TÁ LIGADO.
o último cliente do bar
June 11, 2004
fico triste
se sou o último cliente do bar
cadeiras sobre as mesas
o garçom em roupa civil
jogando um balde d’água no piso
olhando para o relógio
sonhando com as cobertas
e eu bebendo a última
sozinho
todos já foram pra casa
todos já foram dormir
mas antes que eu garçom me diga
amigo já estamos fechando
eu digo
a conta
por favor
eu gostaria de viver
pra sempre
a hora exata
do amargo da cerveja
deslizando na garganta
eu gostaria de tomar
o primeiro gole
pra sempre
que todos os goles
sejam o primeiro
mas este é o último
e eu sou este gole
o último cliente do bar.
se sou o último cliente do bar
cadeiras sobre as mesas
o garçom em roupa civil
jogando um balde d’água no piso
olhando para o relógio
sonhando com as cobertas
e eu bebendo a última
sozinho
todos já foram pra casa
todos já foram dormir
mas antes que eu garçom me diga
amigo já estamos fechando
eu digo
a conta
por favor
eu gostaria de viver
pra sempre
a hora exata
do amargo da cerveja
deslizando na garganta
eu gostaria de tomar
o primeiro gole
pra sempre
que todos os goles
sejam o primeiro
mas este é o último
e eu sou este gole
o último cliente do bar.
Eu poderia amar
June 10, 2004A crônica desta semana é um manuscrito das possibilidades amorosas. Leia aqui. (Buahahahaha, vocês nunca vão entender por que eu escrevo em um site de advocacia!)
Óbvio ululante
June 10, 2004Hoje tem quinta sem-lei - é claro!
E por que não haveria?
Feriado? Ora, ora, não me diga bobagens! Deixe de amadorismos!
Aguardo todo mundo vocês-sabem-onde e vocês-sabem-quando.
Gato gatuno, cachorro chorro
June 09, 2004
Daqui a pouco vou ao República tomar cerveja e ouvir os DJs Kid Vinil e Fábio Galão. O primeiro tem idade para ser pai do segundo. Mas conhecem quase o mesmo tanto de rock (pelo menos na minha opinião de bachiano).
*****
Meia hora atrás fui à farmácia comprar Neosaldina, medida profilática essencial. Em cima da prateleira, uma televisão estava ligada na MTV. Aquela moça do Pato Fu cantava: “Eu bebo pinga... e não sei se isso é bom pra mim...” Na folha de cheque estava escrito, embaixo do meu nome: cliente desde fevereiro de 1989. Quantos anos tinha o Fábio Galão em 1989?
*****
Com 19 anos, eu não passava de um mala que vivia citando Freud. Pseudo-intelectual. Pelo menos hoje eu assumo a ignorância, antes que venham comprová-la.
*****
Hoje um cara que trabalha comigo fez 33 anos. Meu Deus, ele é um ano mais novo do que eu. Um ano. E eu o considerava pelo menos uns cinco anos mais velho. Não que ele seja envelhecido, acabado, caquético, ranzinza ou qualquer coisa assim. É que eu quase nunca me olho no espelho. Me imagino com a cara do RG, da folha de cheque. Cliente desde fevereiro de 1989. Dos 19 anos, ganhei a barriga e perdi a empáfia. Nenhuma evolução. Por isso o tempo me causa tanto medo.
*****
Agora eu estava abrindo a porta de casa, quando um gato preto me olhou durante alguns instantes. O tempo é o gato gatuno, eu sou o cachorro chorro.
*****
Meia hora atrás fui à farmácia comprar Neosaldina, medida profilática essencial. Em cima da prateleira, uma televisão estava ligada na MTV. Aquela moça do Pato Fu cantava: “Eu bebo pinga... e não sei se isso é bom pra mim...” Na folha de cheque estava escrito, embaixo do meu nome: cliente desde fevereiro de 1989. Quantos anos tinha o Fábio Galão em 1989?
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Com 19 anos, eu não passava de um mala que vivia citando Freud. Pseudo-intelectual. Pelo menos hoje eu assumo a ignorância, antes que venham comprová-la.
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Hoje um cara que trabalha comigo fez 33 anos. Meu Deus, ele é um ano mais novo do que eu. Um ano. E eu o considerava pelo menos uns cinco anos mais velho. Não que ele seja envelhecido, acabado, caquético, ranzinza ou qualquer coisa assim. É que eu quase nunca me olho no espelho. Me imagino com a cara do RG, da folha de cheque. Cliente desde fevereiro de 1989. Dos 19 anos, ganhei a barriga e perdi a empáfia. Nenhuma evolução. Por isso o tempo me causa tanto medo.
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Agora eu estava abrindo a porta de casa, quando um gato preto me olhou durante alguns instantes. O tempo é o gato gatuno, eu sou o cachorro chorro.
Elegia dos cães
June 07, 2004
Nunca vou saber por que comecei a amar os cães,
assim, de uma hora pra outra.
Por que comecei a escrever poemas,
ou aquilo que considero poemas,
isso também ficará sem explicação.
Por que levanto no meio da noite
e ligo o computador
para despejar palavras
como quem foge da morte
ou quer um segundo nascimento;
por que falo tanto sozinho
a este irmão que não existe,
esse duplo que sou eu
– nada disso tem motivo razoável.
Eu tinha tanto medo dos cães.
Durante uma época, lá pelos meus 16 anos,
achei que eles me matariam se chegassem perto.
Hoje eu gostaria de encher este apartamento
com cães, além de livros
e um carregamento de bebida.
Eu tinha tanto medo dos cães,
hoje gosto deles.
E ouço os ganidos da matilha
antes de dormir
o abençoado sonho negro
de todos os cães como eu.
Abençoados todos os cães
que morrem dentro da noite,
no rumo da quinta sem-lei.
assim, de uma hora pra outra.
Por que comecei a escrever poemas,
ou aquilo que considero poemas,
isso também ficará sem explicação.
Por que levanto no meio da noite
e ligo o computador
para despejar palavras
como quem foge da morte
ou quer um segundo nascimento;
por que falo tanto sozinho
a este irmão que não existe,
esse duplo que sou eu
– nada disso tem motivo razoável.
Eu tinha tanto medo dos cães.
Durante uma época, lá pelos meus 16 anos,
achei que eles me matariam se chegassem perto.
Hoje eu gostaria de encher este apartamento
com cães, além de livros
e um carregamento de bebida.
Eu tinha tanto medo dos cães,
hoje gosto deles.
E ouço os ganidos da matilha
antes de dormir
o abençoado sonho negro
de todos os cães como eu.
Abençoados todos os cães
que morrem dentro da noite,
no rumo da quinta sem-lei.
Gripe de segunda-feira
June 07, 2004
No momento, a única parte funcional de meu corpo é a mão que escreve estas palavras. Esqueçam o cérebro; ele foi dormir. Há algo parecido com uma pulsação, mas deve ser apenas um daqueles misteriosos barulhos do computador.
*****
Escrever também é um termo inadequado. Digito. É como Truman Capote esnobou Jack Kerouac: “That´s not writing, that´s type-writing”. (Sei que vocês vão perdoar a minha fluência jamaicana).
*****
A gripe de segunda-feira é uma das mais perversas invenções da Natureza para provar sua superioridade sobre nós outros. Se o chá de infusão não fizer efeito, daqui a pouco estarei como aquele cientista que só mexe um dedinho da mão esquerda. Mas – é claro, e trágico – sem a inteligência.
*****
Gripe, como pegas?
Por que logo eu?
De onde esta manada
que em meu nariz correu?
Gripe, como passas?
De tosse e de garganta,
por que este naufrágio
que em mim se alevanta?
Gripe, como és?
Por que este calvário
pregando-me uma peça
do espírito aos pés?
Gripe na segunda?
Posso até trabalhar,
mas deste apartamento
não tirarei a bunda.
*****
Escrever também é um termo inadequado. Digito. É como Truman Capote esnobou Jack Kerouac: “That´s not writing, that´s type-writing”. (Sei que vocês vão perdoar a minha fluência jamaicana).
*****
A gripe de segunda-feira é uma das mais perversas invenções da Natureza para provar sua superioridade sobre nós outros. Se o chá de infusão não fizer efeito, daqui a pouco estarei como aquele cientista que só mexe um dedinho da mão esquerda. Mas – é claro, e trágico – sem a inteligência.
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Gripe, como pegas?
Por que logo eu?
De onde esta manada
que em meu nariz correu?
Gripe, como passas?
De tosse e de garganta,
por que este naufrágio
que em mim se alevanta?
Gripe, como és?
Por que este calvário
pregando-me uma peça
do espírito aos pés?
Gripe na segunda?
Posso até trabalhar,
mas deste apartamento
não tirarei a bunda.
Alguém chamado Caim
June 05, 2004Se você não sabe se Caim matou Abel ou Abel matou Caim, pergunte a si mesmo se conhece alguém chamado Caim,
Caim como eu,
Caim como eu,
Caim como eu.
Leia a crônica.
