obrigado chuva
por trazer a chuva
por molhar a rua
por molhar os panos
sobre o meu corpo
por molhar meu rosto
por molhar meus braços
por molhar meus ossos
obrigado chuva
e pare por favor
chove na ferida
da garota plena
chove sobre a fêmea
chove sobre o macho
chove no remendo
deste cobertor
chove até no choro
do bebê secreto
chove até no sol
que hoje se apagou
sobre o céu não chove
mas a chuva imensa
que o cachorro um dia
imaginou ter fim
estará chovendo
de maneira intensa
exatamente como
chove sobre mim
obrigado chuva
por achar que a vida
não é coisa séria
como o bem e o mal
obrigado chuva
por matar-me aos poucos
na terra dos loucos
no raio que a parta
deste temporal
obrigado chuva
que embebeda as plantas
que dos presos tira
o banho de sol
obrigado chuva
que pára os relógios
que o caos instaura
em meio à confusão
obrigado chuva
que destrói os prédios
que arremessa as pedras
sobre a construção
obrigado chuva
que emudece os fones
que causa terrores
com voz de trovão
obrigado chuva
obrigado vento
obrigados a todos
pela atenção
quando o sol voltar
avisem que saí
que fui ao relento
sem itinerário
rumo direção
obrigado chuva
pelos meus sapatos
pois se estão molhados
molhados serão
e os meus passos tontos
sumirão na chuva
até que um dia desses
não chova mais não
Publicado em 25 de maio de 2004 às 18:50 por briguet
li uma vez uma crônica do Mário Prata em que ele falava sobre os guarda chuvas como antenas para que habitantes de outros planetas soubessem o que os terráqueos pensam.
Era mais ou menos assim, eles mandavam as chuvas, aí nós abríamos os guarda chuvas e o que a gente pensasse era captado. A graça de toda essa história era pensar no que os extraterrestres tomariam então como pensamento humano.
legal a referência à Noé, que a pomba venha logo com seu ramo verde.... dizer que o que é escuro e frio já passou.