Não me dou bem com guarda-chuvas. Sempre os esqueço. Sempre. Não há uma só ocasião na minha vida em que eu não tenha esquecido um guarda-chuva. A não ser que esteja chovendo, é claro. Ao mínimo sol, ficam eles perdidos para toda a eternidade.
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A cada guarda-chuva esquecido, eu perdi alguma coisa: o gosto pela política; a fé comunista; a vontade de comer massas com molho branco; o interesse por Glauber Rocha; a paciência com Caetano Veloso; a vontade de ouvir rock e MPB; o ódio; a arte de falar mal; a habilidade no Atari; o rumo; a empáfia. Só não perdi a inteligência porque essa eu nunca tive. (Inteligência não é a capacidade de resolver problemas? Pois eu nunca resolvi um só deles em minha vida. Aliás, criei outros.)
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Os guarda-chuvas levaram tantas coisas. Um dia, eu serei levado.
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Não gosto de guarda-chuvas porque eles pesam; molham tudo; quebram com facilidade à menor rajada de vento; e, principalmente, porque eles não nos guardam da chuva. Por maior ou mais engenhoso, um guarda-chuva nunca nos entregará secos ao destino.
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Hoje mesmo, eu, Janaína Ávila e Francismar Lemes percorremos os 500 metros que nos separavam do almoço, cada um com seu umbrella. E voltamos mais molhados que o Mar Mediterrâneo.
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Eu tenho uma teoria pessoal: chove mais dentro dos guarda-chuvas do que fora deles. Mas os importadores chineses e paraguaios impedem que essa verdade seja dita ao público.
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Os guarda-chuvas esquecidos estão tramando algo contra a humanidade. Impedidos de guardar a chuva, passaram a guardar mágoa da espécie bípede. Vindos de todos os cantos, reuniram-se. Já fizeram uma tempestade cerebral, e outra em copo d´água, para bolar a vingança.
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Não pára de chover há quatro dias. Sabe por quê? Os guarda-chuvas esquecidos querem ser lembrados – por toda a eternidade.
Publicado em 24 de maio de 2004 às 17:03 por briguet