Deixai que descansem a auxiliar de enfermagem,
os balconistas de ressaca,
o policial na praia
e a modelo que não come.
Protegei os cavalos do jóquei e o jóquei.
Protegei os falsos heróis.
Protegei o tio rejeitado.
Tende dó dos atores em final de temporada,
dos taxistas sem corrida,
dos times desclassificados a cumprir tabela e mais nada.
Amparai as prostitutas que não completaram a cota,
amansai os gigolôs e os traficantes,
abrandai a dor dos guardas noturnos
e a vergonha dos cornudos.
Afagai os porteiros de gafieira
e as garotas sem programa.
Aos repórteres sem notícia, dai um lead.
Aos advogados sem causa, um cliente.
Aos guardadores de carro, uma moeda.
Protegei vossos padres e pastores
que se exaltam na palavra,
e os doentes de angústia
estertorando à sombra
e à mansarda.
Cuidai dos garçons de rodízio
no martírio das mesas vazias
e dos leões-de-chácara
que não têm em quem bater.
Aos cães da tarde, dai abrigo.
Aos filhos da mãe, verdade.
E aos domingos, dai descanso.
Dai descanso, amor e sono
– mas antes que seja tarde.
Publicado em 02 de maio de 2004 às 23:13 por briguet