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Archive for May of 2004

May 29, 2004
noite fria, quinta sem-lei,
já não ficou claro que te amo?
já não está certo nosso pacto?
que medida terá teu encanto
na incerteza da mesma fúria,
noite fria, quinta sem-lei?

de onde se vê teu segredo
no frio, consciência do osso,
de onde vem teu momento,
quinta sem-lei, que se perde na sombra?

noite fria, quinta sem-lei,
jamais te esquecer na curva
que traçam as coisas do tempo,
jamais te esquecer às moscas
que guardam o sentido do medo.
cão das formas, barco dos ventos,
música do telefone mudo,
coisa que some na semana,
duas Neosaldinas com água,
noite fria, quinta sem-lei.

ora, as leis!

May 27, 2004
Nesta semana falo de uma lei que nasceu para ser desrespeitada: os mandamentos da crônica.

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Perceberam a mensagem subliminar, hein? hein?
Então, QSL.

cantiga da incompetência

May 26, 2004
no dia em que acordei
antes
não esperei

no dia em que acordei
depois
perdi a hora

no dia em que acordei
durante
atrapalhei

no dia em acordei
rico
fui seqüestrado

no dia em que acordei
morto,
ressuscitado

no dia em que acordei
atacante
perdi o pênalti

no dia em que acordei
jogador
marcaram cartas

no dia em que acordei
gourmet
lavei os pratos

no dia em que acordei
político
fiquei honesto

no dia em que acordei
diplomata
fiquei sincero

no dia em que acordei
jornalista
advogado
publicitário
disse a verdade


no dia em que acordei
professor,
ignorância

no dia em que acordei
estudante
tomei a bomba

no dia em que acordei
computador
dei pau

no dia em que acordei
ator
esqueci a fala

no dia em que acordei
cantor
esqueci a letra

no dia em que acordei
músico
desafinei

no dia em que acordei
engenheiro
o prédio caiu

no dia em que acordei
dentista
o dente caiu

no dia em que acordei
médico
o paciente morreu

no dia em que acordei
matemático
errei nas contas

no dia em que acordei
administrador
fali

no dia em que acordei
cozinheiro
adocei a feijoada

no dia em acordei
farmacêutico
errei a veia

no dia em que acordei
junkie
idem
(e quando acertei
tive overdose)

no dia em que acordei
galão
não ouvi rock

no dia em que acordei
adri
não fiz poemas
(e assim também
não fiz
quando acordei
ygor)

no dia em acordei
karlinha
não fiz mais festa

no dia em que acordei
jana
não vi a noite

no dia em que acordei
bastardo
claudinho
paula
vidal
não fui à quarta rock

no dia em que acordei
marcelo rocha
lúcio flávio
guilherme mendes da costa
ester falaschi
não fui à QSL

no dia em que acordei
Neosaldina
era o Briguet

no dia em que acordei
bola
era o Corinthians

no dia em que acordei
dinheiro,
um candidato

no dia em que acordei
astronauta
era da Challenger
e se não era Challenger
era Columbia
e se não era Columbia
era Alcântara
(lá não tinha
astronautas
mas mesmo assim
acordei)

no dia em que acordei
substantivo
qualifiquei

no dia em que acordei
adjetivo
dei nome

no dia em que acordei
verbo
fiquei parado

no dia em que acordei
artigo,
indefinido

no dia em que acordei
pergunta
afirmei

no dia em que acordei
resposta
enrolei

no dia em que acordei
exclamação
não me empolguei

no dia em que acordei
cobra
foi sem veneno

no dia em que acordei
leão
foi só de chácara

no dia em que acordei
macaco
involuí

no dia em que acordei
espanhol
¿que se pasa?

no dia em que acordei
inglês
what´s up?

no dia em que acordei
caingangue
mauê ganhãin?

no dia em acordei
marceneiro
me estrepei

no dia em que acordei
ferreiro
foi uma brasa

no dia em que acordei
senhor,
abolição

no dia em que acordei
escravo,
abolição

no dia em que acordei
eu mesmo
só escrevi.

canto de noé

May 25, 2004

obrigado chuva
por trazer a chuva
por molhar a rua
por molhar os panos
sobre o meu corpo
por molhar meu rosto
por molhar meus braços
por molhar meus ossos

obrigado chuva
e pare por favor

chove na ferida
da garota plena
chove sobre a fêmea
chove sobre o macho
chove no remendo
deste cobertor
chove até no choro
do bebê secreto
chove até no sol
que hoje se apagou

sobre o céu não chove
mas a chuva imensa
que o cachorro um dia
imaginou ter fim
estará chovendo
de maneira intensa
exatamente como
chove sobre mim

obrigado chuva
por achar que a vida
não é coisa séria
como o bem e o mal
obrigado chuva
por matar-me aos poucos
na terra dos loucos
no raio que a parta
deste temporal

obrigado chuva
que embebeda as plantas
que dos presos tira
o banho de sol
obrigado chuva
que pára os relógios
que o caos instaura
em meio à confusão

obrigado chuva
que destrói os prédios
que arremessa as pedras
sobre a construção
obrigado chuva
que emudece os fones
que causa terrores
com voz de trovão

obrigado chuva
obrigado vento
obrigados a todos
pela atenção
quando o sol voltar
avisem que saí
que fui ao relento
sem itinerário
rumo direção

obrigado chuva
pelos meus sapatos
pois se estão molhados
molhados serão
e os meus passos tontos
sumirão na chuva
até que um dia desses
não chova mais não

A vingança dos guarda-chuvas

May 24, 2004


Não me dou bem com guarda-chuvas. Sempre os esqueço. Sempre. Não há uma só ocasião na minha vida em que eu não tenha esquecido um guarda-chuva. A não ser que esteja chovendo, é claro. Ao mínimo sol, ficam eles perdidos para toda a eternidade.

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A cada guarda-chuva esquecido, eu perdi alguma coisa: o gosto pela política; a fé comunista; a vontade de comer massas com molho branco; o interesse por Glauber Rocha; a paciência com Caetano Veloso; a vontade de ouvir rock e MPB; o ódio; a arte de falar mal; a habilidade no Atari; o rumo; a empáfia. Só não perdi a inteligência porque essa eu nunca tive. (Inteligência não é a capacidade de resolver problemas? Pois eu nunca resolvi um só deles em minha vida. Aliás, criei outros.)


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Os guarda-chuvas levaram tantas coisas. Um dia, eu serei levado.

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Não gosto de guarda-chuvas porque eles pesam; molham tudo; quebram com facilidade à menor rajada de vento; e, principalmente, porque eles não nos guardam da chuva. Por maior ou mais engenhoso, um guarda-chuva nunca nos entregará secos ao destino.


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Hoje mesmo, eu, Janaína Ávila e Francismar Lemes percorremos os 500 metros que nos separavam do almoço, cada um com seu umbrella. E voltamos mais molhados que o Mar Mediterrâneo.

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Eu tenho uma teoria pessoal: chove mais dentro dos guarda-chuvas do que fora deles. Mas os importadores chineses e paraguaios impedem que essa verdade seja dita ao público.

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Os guarda-chuvas esquecidos estão tramando algo contra a humanidade. Impedidos de guardar a chuva, passaram a guardar mágoa da espécie bípede. Vindos de todos os cantos, reuniram-se. Já fizeram uma tempestade cerebral, e outra em copo d´água, para bolar a vingança.


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Não pára de chover há quatro dias. Sabe por quê? Os guarda-chuvas esquecidos querem ser lembrados – por toda a eternidade.

FASE DO POR QUÊ

May 24, 2004

Pai, por que você trabalha?
Para ganhar dinheiro.
E por que ganhar dinheiro?
Para pagar as contas, meu filho.
E depois de pagar as contas?
Se sobrar alguma coisa, eu guardo.
Onde?
Ué, no banco.
E até quando você vai trabalhar?
Até me aposentar.
E depois que se aposentar?
Não sei, ainda falta muito tempo, filho.
Quanto tempo?
É tanto tempo que você já vai ser adulto.
E o que eu vou fazer quando for adulto?
Vai trabalhar.
E trabalhar por quê?

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May 21, 2004

Vendo uma palavra.
Uma palavra e um cachorro.
Primeiro dono, quase nova, quase novo.
Seminovos.
A palavra não morde.
O cachorro não fala.
Palavra modelo 70.
Cão quase zero.
Vendo uma palavra
pra comprar comida
antes de furar os olhos.
Mas aí vou precisar do cão.

peregrino dos bares

May 20, 2004

Na crônica desta semana, um encontro no Bar Brasil. Dê uma olhada - e boa QSL para todos nós.

todos os dias deveriam ser quinta-feira

May 20, 2004
Ontem, na peça do Mário Bortolotto, tinha um personagem chamado Groo.

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Antes de sair, olhei para o lado, e vi a sombra da minha barriga refletida na parede. Ela – a barriga – começa a ter vida própria.

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Lúcio Flávio é o melhor comentarista de assuntos gerais dubrasil.

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“Homem que é homem não dança.” (Norman Mailer. Foi ele que disse.)

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Tardarei, mas não falharei na QSL. A gente se fala por lá.

Por onde andaram os Tipos

May 18, 2004

Por onde andaram os Tipos? Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe. Só falo na presença de um advogado. Tudo que eu disser pode ser usado contra o Guilherme Mendes da Costa no tribunal. Não falo nem sob tortura. Não falo nem que a vac... Aaaaaaaaai. Aaaaaaai. Tá bom, eu falo, eu falo, eu falo tudo, mas me liberem pra Quinta Sem-Lei, fechado? E dois X-quecas, que eu tô com fome.
Andaram em Andaraí. Andaram em Andorra. Andaram em Andirá. Andaram na Andaluzia. Andaram em Andaró. Este último lugar não existe.
Está provado: os Tipos são andarilhos. Foram até o 13º andar de um hotel americano, mas como os hotéis americanos não têm 13º andar, vê aí qualquer quarto que eu tô com sono.
Foram vistos em cassinos de Pedro Juan Caballero. Na seção de revistas eróticas dos melhores supermercados da Patagônia. Tomando saquê em Lisboa, tomando vinho do Porto em Osaka, tomando banho na Groenlândia. Foram vistos caçando ursos em um seriado dos anos 70, paquerando uma sósia da Farrah Fawcett. Foram vistos no banheiro com privada de tchibum em mercearia de Santo Antônio do Aracanguá. Foram vistos em Tlön e Uqbar. Foram vistos no bar. Foram vistos na sarjeta. Foram vistos no albergue. Foram vistos trabalhando como lanterninhas no FILO. Foram vistos como garçons fantasiados de avestruzes em uma leiteria de renome.
Tipo assim, leite tipo B, tipo sangüíneo, tipografia, linotipo, biótipo, tipóia, típico – palavras assim me perseguiram, xamãs gaiatos, durante estes longos dias em que ficamos fora do ar.
“Malditos peles-vermelhas!”, diria John Wayne, em filme dublado na Sessão Coruja. “Merrrrda!”, diria um ator brasileiro, dublado pelo Paulo César Pereio, com sotaque carioca, num daqueles filmes que passam no Canal Brasil às três da manhã.
Tipos é assim como luz e água – sabendo usar não vai faltar. Acabou o romantismo? Nada entendo de servidores. Vocês que manjam, por favor e caridade, resolvam! Tem gente passando fome, cortando os pulsos, esfacelando a própria língua, chamando PM da Rone de boneca assanhada, fazendo as refeições no banheiro do Valentino às três da matina! Tem crianças chorando! Mulheres inconsoláveis! Adolescentes tomando quebra-queixo! Cachorros uivando em sol menor! Dentaduras matraqueando pelos ares sulfúricos do inverno, digo, do Inferno! MUTLEY, FAÇA ALGUMA COISAAAA!
Dizem que os Tipos andaram participando do primeiro grupo indie axé dubrasil; dizem que é coisa da Mara Tara; dizem que o Raul Plassmann vai assumir a diretoria de futebol; dizem que o Lula expulsou a gente no mesmo pacote do Larry Rohter; a esquerda diz que foi conspiração da direita; a esquerda diz que foi conspiração da direita; dizem que as mulheres tinham marcado mão e pé, sabe como é, não dá pra desmarcar.
Meus dedos, com vontade própria, insistiam em digitar o endereço dos Tipos lá em cima. Uma, duas, cinco, 129 vezes por dia. A solidão é uma página em branco com uma frase do Moraes. Salvem-me da crise de abstinência. Não me deixem só! Eu pago mensalidade, faço rifa, animo festinhas, improviso um número de merengue, toco xilofone, qualquer coisa. Só não me deixem acontecer outra vez. Combinado, combinado? Tudo beleza, tudo certo? Sem mais para o momento, subscrevo-me,

Paulo Briguet, seu criado.


Elogio da besteira

May 11, 2004

Agora vou escrever
sobre as besteiras que já escrevi.
Sobre aquelas que todos os dias
eu multiplico sem dó.
Foram tantas que às vezes duvido
que eu seja mesmo um só.

Besteiras me nascem das mãos,
besteiras me nascem da boca.
Me nascem da tez, da barriga,
dos pés, do joelho, do esterno.
Somente não nascem do cérebro.

Cultivei-as como se planta
trigo no canavial.
Acendi-as como se ateia
fogo ao Mediterrâneo.
Besteiras me saem assim
– de um modo muito espontâneo.

Besteiras me fogem de casa,
escapam pelo ladrão.
Arma que só tem culatra,
soja que só tem ferrugem,
besteiras pra sempre serão.

E aqui mais algumas vieram
fazer companhia a vocês,
antes de voltar ao pó.
Por mais besteiras que diga,
um dia direi uma só.

salmo da garota oportunista

May 11, 2004
Logo se vê que ela carrega fantasmas no peito
e uma turba de demônios assedia o seu quarto.
Nestes olhos espertos, há uma carga de angústias
que nem 100 milhões de bênçãos poderiam dissipar.
Nota-se desde já que ela pertence à dor,
e que seus melhores amigos, se os há,
não lhe devotam confiança,
e que os homens só querem se aninhar
no vão das pernas – pernas que viram na TV.
Logo se vê que seu cigarro
é a ante-sala do Inferno,
e que os trajes sumários
são apenas os andrajos da discórdia.
Logo se vê que a solidão, um dia,
com a flecha dos ódios prensados
vai transformar seu nome
em sal dentro do mar.

monólogo

May 09, 2004
Acabou.
Acabou e foi ontem.
É duro crer, mas acabou.
O nome, não sei.
Não quero, com isso,
dizer que algo se chama Não Sei,
mas só dizer que só sei
que acabou.
É um fato.
Acabou e foi ontem.
Decerto nem tinha nome,
muito menos forma,
isso que acabou.
Nem sei quantas eram,
poderia até ser uma só,
mas já foram embora,
deixaram a cidade
(mas que cidade?),
deixaram o lugar
(lugar?),
mas é evidente
que foi ontem
(quando?).
Na verdade,
nem sei se acabou.
Acabou?

Convocatória geral da QSL

May 06, 2004

Os bandidos, convocados estão.
Os suspeitos, as gárgulas, os monomaníacos.
Os respectivos e as respectivas, sintam-se convidados.
Até você, venha se for homem. Ou mulher.
Leitores de Helder e Saramago. Leitores da Copel. Leitores de lábios. Leitores de entrelinhas. Leitores de porta de banheiro. Comediantes injustiçados. Trágicos sorridentes.
Convoque-se o Ludwig. Chame-se o João Sebastião.
Yes e jogue-se a corda. Forget lagartixa.
As jandiras e matildes. Os joões. As tiazinhas e os bons-de-conversa.
Convocados estão os cavalos loucos e as gentes. Os lusíadas e as marinas.
Os que detestam blogs e os que outra coisa fazem da vida.
Os são-jorges e os bipolares. Os cabras e as prendas.
Os conspiradores, convocados. Assim como os vigilantes.
As namoradas e os amigos. Mr. Pafúncio. A corja.
Convocados estão os maiores de idade e os que falsificaram a nota de 3.
Os que desrespeitam os símbolos nacionais e os generais de quarteirão.
Convocado está o Aurélio, embora ele vá de qualquer jeito.
Vagabundo, salafrário, sem-vergonha! Mão na parede! Tá todo mundo convocado!
Amigo, não fique triste: a Quinta Sem-Lei existe.

PS: Como é alguém pode nos deixar, sendo onipresente?

May 06, 2004
Dica de leitura: esta crônica no site do meu amigo Ranulfo Pedreiro, o Preto.
É a vida real, e nada romântica, de um repórter.

canção do cão vaidade

May 05, 2004

Minha vaidade é um cachorro bravo.
Prendam este animal – para o bem geral.
Bem? Todos sabem que um cachorro preso
fica muito mais feroz.

**********

Minha vaidade é um cão ridículo
na porta de saída.
Uma bola de veneno dentro da carne,
e pronto: está morta, está morto.

**********

Não posso soltar minha vaidade pelas ruas.
Ela me faz passar vergonha
– o responsável por um cão é seu dono.

**********

Cães só podem ser amestrados
quando pequenos.
Minha vaidade é um cachorro velho,
um caso perdido feito de vento.

*********

Um carro invisível atropelou minha vaidade.
Mas ela apenas se finge de morta.
Não chute.

piolhos de pombas: nada consta

May 03, 2004
Certas coisas irritam. Neste blog eu publico anotações mentais, impressões esparsas, relatos oníricos, crônicas, poemas de pé-quebrado, convites para beber, entrevistas comigo mesmo, frases do dia, textos antigos.
Mas não é que até hoje meu post mais comentado é aquele em que falo sobre PIOLHOS DE POMBAS?
De uma vez por todas: não há mais pombas na minha janela. Nunca houve piolhos em meu apartamento, e espero que eles nunca apareçam. Não sei o que fazer para evitá-los, além de borrifar talco veterinário nas imediações.
Então, por favor, senhores usuários do Google: não me falem mais em piolhos de pombas!

Apologizes 1994

May 03, 2004

Garota,
eu prometo que nunca mais vou ligar de madrugada,
perturbando o sono de seus pais e de seu cachorro.
Prometo que nunca mais vou tentar arrancar sua blusa
ou morder seu braço no escuro.
Garanto que hoje, pela última vez, eu defendi Lev Trótski,
e justifiquei um governo operário-camponês.
Fica registrada minha garantia de que não vou confundir você
com nenhuma de suas irmãs,
enxergando uma garota na forma das outras.
Tenha certeza de que abandonarei as cantadas baratas
e não olharei para as morenas na sua presença.
Garota,
se for preciso deixarei de ser eu mesmo
para corresponder às suas expectativas
e viver no mundo real.

Nova oração de domingo

May 02, 2004

Deixai que descansem a auxiliar de enfermagem,
os balconistas de ressaca,
o policial na praia
e a modelo que não come.

Protegei os cavalos do jóquei e o jóquei.
Protegei os falsos heróis.
Protegei o tio rejeitado.

Tende dó dos atores em final de temporada,
dos taxistas sem corrida,
dos times desclassificados a cumprir tabela e mais nada.

Amparai as prostitutas que não completaram a cota,
amansai os gigolôs e os traficantes,
abrandai a dor dos guardas noturnos
e a vergonha dos cornudos.
Afagai os porteiros de gafieira
e as garotas sem programa.

Aos repórteres sem notícia, dai um lead.
Aos advogados sem causa, um cliente.
Aos guardadores de carro, uma moeda.

Protegei vossos padres e pastores
que se exaltam na palavra,
e os doentes de angústia
estertorando à sombra
e à mansarda.

Cuidai dos garçons de rodízio
no martírio das mesas vazias
e dos leões-de-chácara
que não têm em quem bater.

Aos cães da tarde, dai abrigo.
Aos filhos da mãe, verdade.
E aos domingos, dai descanso.
Dai descanso, amor e sono
– mas antes que seja tarde.

mistério

May 02, 2004

Acordo às três da madrugada, com um fortíssimo barulho de vidro quebrado. O som veio da cozinha. Acendo a luz e vou ver o que aconteceu. Nenhuma porta arrombada. Nenhuma janela aberta. Mas a tampa de vidro do fogão, sabe-se lá por quê, se espatifou em um milhão de pedaços. Tudo parece um sonho: a física é insana.