Acordei com os latidos do meu cachorro Ace e uma sensação de abismo na boca. Assim que chego à casa dos meus pais em Araçatuba, sinto vontade de procurar o cachorro, mesmo sabendo que ele morreu há sete anos. Algo parecido acontece quando procuro a caixa de Neosaldina depois da Quinta Sem-Lei (sabendo que a Neosaldina acabou) ou quando me dá vontade de ir ao Bar do Paulinho (sabendo que o Bar do Paulinho fechou as portas em 1995, antes mesmo de Ace morrer).
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O abismo na boca é uma sensação difícil de explicar, porque o abismo é um lugar em que se pode cair – e como poderíamos cair tão perto de nós mesmos? Minha boca é o mais perto de mim que eu posso imaginar.
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Se escrevo agora – e estou na casa dos meus pais em Araçatuba – sinto que Ace está ao meu lado, com seu pêlo branco e o rabo que parecia um espanador. Quando o pegamos para criar, em 1983, ele era um filhote, igual a uma bola branca. Depois, por minha culpa, nos afastamos. Eu fui para Londrina, onde vivo até hoje, e ele continuou em Araçatuba, sob os cuidados de meus pais.
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Hoje é Páscoa. Dia do ressurgimento. Não consigo deixar de pensar numa coisa: quando os mortos levantarem, no dia do julgamento, meu cachorro Ace também voltará à vida? A resposta é sim.
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À noite, como é característico da espécie, o cachorro latia muito, para toda pessoa que passasse pela frente da casa, de modo que precisamos aprender a dormir com seu escarcéu. Eu não sabia que esse aprendizado seria tão forte, que sobreviveria ao próprio Ace. Agora mesmo eu escuto e identifico a voz do meu cachorro; se vou ao quintal, à área de serviço ou à despensa (lugares em que Ace costumava ficar), tenho a clara impressão de que ele vai surgir a qualquer momento, cheirando-me os pés – e latindo, latindo para ninguém. As latas em que colocávamos sua comida e sua água continuam na estante, junto aos cascos de cerveja inúteis (porque eu e meu pai não compramos mais garrafas, mas apenas latas de cerveja).
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Não posso fugir à impressão de que eu e meu cachorro temos muitas coisas em comum, fortalecendo a teoria de que cães e donos se influenciam mutuamente. Uma delas é esta voz, não a voz que meus amigos ou colegas escutam no dia-a-dia, nem mesmo a voz traduzida pelas letras do computador ou do caderninho de notas; falo da voz interna que fala comigo mesmo, e que sou eu mesmo, e que provém do abismo. A voz do meu pensamento. Dentro dele, os latidos de Ace e as palavras de Paulo se confundem numa sonata arcaica, expressão mais confusa que uma banda indie tocando violoncelos roucos.
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Scott Fitzgerald dizia que na noite escura da alma são sempre duas da madrugada. O ditado popular ensina que não se deve chutar cachorro morto. Eu não tenho a mínima intenção de chutar ninguém, muito menos o meu cachorro morto. E lembro que Fitzgerald compôs uma canção picaresca, em parceria com o crítico Edmund Wilson, e que a cantava sempre quando estava bêbado.
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Eu estou sóbrio. Para escrever, necessito de lucidez (a lucidez possível nas condições da realidade). Mas não importa que seja dia claro, ou que a tarde ainda não tenha terminado: quando recaio no abismo das palavras, são duas da manhã. E o cachorro está latindo, lá no fundo do quintal.
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Alguém aí tem uma Neosaldina?
Publicado em 11 de abril de 2004 às 17:14 por briguet
É engraçado, foi lá em Ouro Preto que peguei medo de cachorro.
Em casa, a cachorrada tinha dois nomes, geralmente: Lassie e Laika. Muito original.
O Ace vem de Ace Frehley, guitarrista do Kiss. Banda que chegamos a ouvir naquele toca-discos da república. Junto tinha um disco do Talking Heads e outro do Robertão. Ouvia-se muito Police e Mozart, às vezes ao mesmo tempo. E o velho dizzy gillespie, duplo.
Lembra da cachorra boemia da Gica? E da Xuxa, aquela que chegava depois da gente no Paulinho e por lá ficava, esperando que os estudantes durangos pedissem qualquer porção? E da Preta, da Valéria, que fugiu e procuramos pela cidade inteira?
E o Osmani ainda tinha um pastor alemão sem uma pata. E teve aquela vez que vc se assustou com a estátua de cachorro no quintal do mesmo Osmani. He!