Repórter das Coisas

Minha força é minha fraqueza

Para França



Minha força é minha fraqueza.

Quando pensares em mim,

lembra que nada aqui é poder.

Lembra que meus braços não são fortes,

que meu olho se engana

e que a idéia, Deus meu, a idéia me foge.


Lembra que a carne me escraviza,

lembra que o escravo sobrevive

exaltando o senhor,

e que o refém se afeiçoa pelo seqüestrador.

Lembra-te da síndrome de Estocolmo

quando eu disser: minha força é minha fraqueza,

nada em mim é poder.


Refém de minha fraqueza, dela me tornei senhor.

Quando pensares que vou dizer-te palavras sábias,

nota que minha ciência é dos medíocres,

que meu talento é não saber.

(Não sou do ramo de viver.)


Como os chorões desabam sua fúria

delicada e verde contra a gravidade,

minha fraqueza expande seu poder de sobressalto.

A ela pertencem todos os fantasmas

que choram sob a árvore,

cegados pela sarça,

esteréis na figueira,

perdidos nas glicínias,

nas ervas e raízes que nascem pelo chão.

Ligada à sonda venal,

que faz do hospital, procissão,

minha fraqueza mora no ar

– mas sua força está no chão.


Minha fraqueza é minha força,

nada me faltará.

Assim irei libertar

a todas palavras primeiras.


Minha fortuna é minha pobreza

– meu saber, ignorância.

Minha beleza é feiúra,

– o meu sucesso, fracasso.

Minha vitória é derrota

– minha presença, ausência.

E assim, das águas, os vinhos.

Assim, das luzes, as trevas.

Assim também tua força

se move na procissão.

Tua força é tua fraqueza,

meu amigo, meu irmão.

Publicado em 05 de abril de 2004 às 21:22 por briguet

Comentários

    • você sempre me comove, de verdade.
    • por audrey hepburn
    • 06.Abr.2004 às 12:08 - Permalink - Reportar
    audrey hepburn
    • este é um dos posts mais bonitos de todos os tempos de todos os tipos!
    • por zero
    • 08.Dez.2005 às 00:23 - Permalink - Reportar
    zero
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(Milton Friedman with lasers)

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