Para França
Minha força é minha fraqueza.
Quando pensares em mim,
lembra que nada aqui é poder.
Lembra que meus braços não são fortes,
que meu olho se engana
e que a idéia, Deus meu, a idéia me foge.
Lembra que a carne me escraviza,
lembra que o escravo sobrevive
exaltando o senhor,
e que o refém se afeiçoa pelo seqüestrador.
Lembra-te da síndrome de Estocolmo
quando eu disser: minha força é minha fraqueza,
nada em mim é poder.
Refém de minha fraqueza, dela me tornei senhor.
Quando pensares que vou dizer-te palavras sábias,
nota que minha ciência é dos medíocres,
que meu talento é não saber.
(Não sou do ramo de viver.)
Como os chorões desabam sua fúria
delicada e verde contra a gravidade,
minha fraqueza expande seu poder de sobressalto.
A ela pertencem todos os fantasmas
que choram sob a árvore,
cegados pela sarça,
esteréis na figueira,
perdidos nas glicínias,
nas ervas e raízes que nascem pelo chão.
Ligada à sonda venal,
que faz do hospital, procissão,
minha fraqueza mora no ar
– mas sua força está no chão.
Minha fraqueza é minha força,
nada me faltará.
Assim irei libertar
a todas palavras primeiras.
Minha fortuna é minha pobreza
– meu saber, ignorância.
Minha beleza é feiúra,
– o meu sucesso, fracasso.
Minha vitória é derrota
– minha presença, ausência.
E assim, das águas, os vinhos.
Assim, das luzes, as trevas.
Assim também tua força
se move na procissão.
Tua força é tua fraqueza,
meu amigo, meu irmão.