“Abril é o mais cruel dos meses” (T. S. Eliot)
“E o último inimigo a ser vencido será a morte.” (S. Paulo)
Sempre me perguntei por que não existe um Dia da Verdade. Talvez porque cada um de nós tenha o seu, particular e intransferível como a senha de um ataque nuclear. Todos os outros dias pertencem à Mentira. Como este que chega – 1º de abril.
Para falar do que vou falar, precisei esperar o primeiro dia do quarto mês. Pois só no Dia da Mentira me sentirei um pouco protegido. Não o bastante; um pouco. O assunto de hoje não deveria nascer nunca – é o dia em que vou te perder.
O dia em que vou te perder, mulher. O dia em que vou te perder, pai. O dia em que vou te perder, mãe. O dia em que vou te perder, irmã. O dia em que vou te perder, vó. O dia em que vou te perder, tia. O dia em que vou te perder, meu amigo. O dia em que vou te perder, minha amiga. O dia em que vou te perder, leitor. Ou – sempre existe a possibilidade – o dia em que vocês vão me perder.
“Ah, mas não se deve falar nessas coisas!”, alguém diria. É verdade. Não se deve. Mas o que fazer, se essas coisas é que falam em mim? Eu não seria razoável nem honesto – ou melhor, seria mentiroso – se garantisse que tal assunto não vive dentro de mim, constante: no ponto de ônibus, no banheiro do shopping, na Quinta Sem-Lei, nas tardes de domingo, no passeio pelo Mercadinho Shangri-Lá. Por que não viveria neste post?
Sim, as más possibilidades são pequenas: todos estão bem, todos estão fortes, todos estão vivos. Mas a grande inimiga se esconde por trás de cada passo. Mulher, pai, mãe, irmã, avó, tia, tio, primo, prima, amigo, amiga, leitor, eu. Por trás de cada nome genérico, a perda.
No entanto, preparar-me para o Dia da Verdade é uma estratégia de vida. Olhando de frente para a grande inimiga, aprendi a não ter inimigos. Não odeio mais ninguém. Não polemizo em torno de futilidades (meu Deus, como é numeroso o universo das futilidades!). Não quero mal nem mesmo aos ladrões de merenda escolar. É claro que essas coisas me torturam, é claro que nem sempre eu consigo me segurar, mas pergunto: o que pode ser pior do que o dia em que eu te perder, esse dia que freqüenta a cena do poço inominável? Não precisarei sentir medo da mentira, no dia em que isso for verdade. No dia do Dia.
Então, como levantarei da cama? Se levantar, como lavar o rosto? Se lavar o rosto, como vestir a calça? Se vestir a calça, como calçar o sapato? Se calçar o sapato, como abrir a porta? Se abrir a porta, como enfrentar a rua? E se enfrentar a rua, como aceitar este mundo que anda, anda, anda? Como vive e anda este mundo, meu Deus!
As palavras – que correspondência terão elas com os pensamentos? E estes com o sangue? E o sangue com a realidade? No Dia da Verdade – constato alarmado –, eu não saberei dizê-la.
Eis o ataque nuclear do tempo. Felizmente, hoje é Dia da Mentira. Há 40 anos, também era. Há 40 meses. Há 40 semanas. Há 40 dias. Há 40 horas. Há 40 minutos. Há 40 segundos. E assim por diante – até a Verdade.