Repórter das Coisas

Canção dos homens fracos

Levantamos,

jogamos a água sobre o rosto,

limpamos os dentes e a boca,

lavamos os olhos,

espiamos o Sol que já se levantou

(fazemos isso por um buraco a que chamam janela),

consultamos o medidor das horas,

nos lembramos vagamente da música

que escutamos durante o sono,

bebemos o leite,

comemos o pão,

lemos as letras no papel

(o papel encontrado

debaixo do buraco a que chamam porta),

jogamos a água sobre nossa cabeça,

enxugamos a nossa cabeça,

escolhemos as vestes,

colocamos as vestes,

abrimos a porta,

deixamos a nossa casa,

somos fracos, tão fracos,

meu Deus, como somos fracos.


Consultamos o medidor das horas

ainda com a música na cabeça,

a música que não foi embora com a água,

entramos no levador de gentes,

no caminho cheio de outros levadores de gentes,

e chegamos a outro lugar,

onde nos sentamos na cadeira,

com as mãos sobre a mesa,

a mesa de sempre,

e principiamos a fazer as coisas para os outros,

as coisas pelas quais os outros nos compensam.

Somos fracos, Pai, tão fracos.


Quando eles nos compensam,

e isso nem sempre ocorre,

saímos a usar o objeto da compensação

para pagar a água, o leite, o pão, as vestes, a porta, a janela, a casa.

Não há, porém, como pagar o Sol,

nem a boca, nem o que existe por trás da boca,

na água dentro do abismo,

no fundo das coisas, no sangue em breu,

na música do âmago de nossa cabeça.

Nada vai lavar a música

no âmago da nossa cabeça.


Somos fracos, Deus, tão fracos.

Meu Deus, somos tão fracos.

Agora e na hora de nossa morte, amém.

Publicado em 29 de março de 2004 às 07:48 por briguet

Comentários

    • E ouço a Rádio Universidade e ligo o computador.
      Vou ao banheiro aompanhada. Em mãos a cobertura de RUBEM BRAGA. Miro a capa do livro, as grossas sombrancelhas de Rubem me encaram. Apenas observo e repondo ao olhar indagador do cronista:
      Desculpe Rubem, prefiro ouvir a crônica do Briguet sobre os banheiros a Lê-lo, é mais apropriado.
      Ele apagou o
    • por gabi
    • 29.Mar.2004 às 12:20 - Permalink - Reportar
    gabi
    • Oi Briguet, como vai?
      Faz tempo que não comento as suas crônicas. Gostaria de dizer mais uma vez “as crônicas que vc escreve são muito boas”.

      Éra só isso.
      Abs,
      Angélica
    • por apenteriche@yahoo.com.br
    • 30.Mar.2004 às 21:57 - Permalink - Reportar
    apenteriche@yahoo.com.br
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