Repórter das Coisas

Eu, que eu possa descansar em paz

Eu, que eu possa descansar em paz

eu, que ainda estou vivo e digo:

que eu possa ter paz no que tenho de vida.

Eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo.

Não quero esperar como aquele piedoso que almejava

uma perna do trono de ouro do Paraíso. Quero uma cadeira

de quatro pernas, aqui mesmo, uma cadeira simples de madeira.

Quero o resto de minha paz agora.

Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora,

combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo,

minha cara de amante, minha cara de inimigo

Guerras com velhas armas, paus e pedras, machado enferrujado, palavras,

rasgão de faca cega, amor e ódio,

e guerra com armas de último forno, metralha, míssil,

palavras, minas terrestres explodindo, amor e ódio.

Não quero cumprir a profecia de meus pais de que vida é guerra.

Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma.

Descansem-me em paz...


Yehuda Amichai, poeta israelense (1924-2000)

Tradução de Millôr Fernandes

Publicado em 27 de março de 2004 às 23:56 por briguet

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(Milton Friedman with lasers)

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