Eu não seria o mesmo sem as primeiras páginas de “Trópico de Capricórnio”; sem Henry Miller, eu seria muito pouco do que sou.
Eu não seria o mesmo sem me apaixonar por Natasha, de “Guerra e Paz”. Sem os contos de Tolstói, muito menos do que sou, e já sou quase nada. Se eu não tivesse parado na livraria em São Paulo, se não tivesse folheado um livro de Herberto Helder, se não tivesse aberto o livro justo na página em que ele diz aquela frase – “Amanhã morrerei” –, o que eu seria?
Eu não seria o mesmo sem guardar fichas de cerveja do Bar Brasil na carteira, junto com a senha do plano de saúde; sem elogiar o atendimento da Inês, melhor garçonete do Brassssiilll; sem reclamar que o banheiro de lá não tem torneira. Eu não seria o mesmo sem tomar três cervejas com meu pai no Kotovelo’s – só três cervejas, nem mais, nem menos; meu pai é sistemático –, sem ser acordado por um telefonema dele, de manhã, sem citar que ele inventou a Biblioteca Circulante do Banco do Brasil. Eu não seria o mesmo sem minha mãe rezar para eu beber pouco na Quinta Sem-Lei, sem falar portunhol para minha irmã, sem ficar com saudade do Vô Briguet, sem tentar convencer a Vó Maria a usar um aparelho de surdez.
Eu não seria o mesmo sem dor de cabeça na sexta-feira, sem minhas intermináveis depressões, que sobrepõem umas às outras, e até conversam alegremente entre elas; sem ligar para amigos e amigas de madrugada, acreditando que eles estão despertos como eu; sem uma caneta no bolso para anotar minhas idéias desconexas; sem pedir desculpas, eu jamais seria o mesmo.
Sem a atriz pornô Chloe Vevrier, sem a Juliette Binoche, sem a Fernanda Abreu e a Paula Toller – quem? Sem checar os e-mails como quem toma um xarope contra a solidão? Nem pensar, nem pensar.
Seria um outro, não eu, se não descobrisse sons misteriosos a cada nova audição de João Sebastião; sem Bach, a vida não teria trilha sonora, e eu morreria mudo, surdo-mudo, talvez cego (vocês sabem que Bach estava cego quando compôs a “Arte da Fuga”; eu fiquei sabendo essa semana – mas sem essa informação eu não seria o mesmo, não). Sem um Bill Evans de vez em quando, nada feito. Sem um Cat Stevens (pronto, falei).
Sem os Tipos, eu não seria o mesmo de jeito nenhum ou, como diria Adriana, nediteum. Sem as deliciosas aventuras da Paula Schütze (olho na fechadura da pátria feminina), sem os recommended downloads de Bastardo (“Povo Sarvage! Leis é leis!”), sem o mau humor do Alan, sem a fúria nonsense de Moraes, sem as picaretagens de Vidal, sem os intelectualismos e as idéias fixas de Grota, sem os lamentos de Gabi, sem o diário de Guilherme, sem o pingos nos y do poeta Ygor, sem las chicas de Yuge, sem conferia a lista de atualizados, sem me zangar quando leio “Esta página está temporariamente indisponível”, sem fingir que estou trabalhando só para saber o que o Galão escreveu desta vez, eu não seria nem um milésimo do que sou. Sem Janaína Ávila, cadê Paulo? Sem Janaína Garcia, cadê Briguet? Meu sangue tem glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e blog.
Sem minhas ex-namoradas, quem seria eu? Sem Ester, sem Simone, sem Agda, sem Carina, sem Luciana, sem Jackie, sem Ana, sem Adriana, sem Paula, sem outras na corrente sanguínea, no desvio do neurônio, no coágulo da memória? Sem elas? Sem mim.
Sem meus amigos, não tem eu. (Sei que vou esquecer alguém, e peço desculpas – eu sem desculpas? nada feito). Sem as desenterradas do Preto, sem os sósias do Marcelo, sem as geopolíticas do Pafu, sem os filmes iranianos do Zé, sem o Luciomar Nunes da Horta, sem as amigas de UEL, sem os telefonemas da Calula, sem as conversas da Ana Paula, sem as idéias do Bruschi, sem a braveza da Sílvia, sem os comentários do Pedro Gordan, sem os trocaflávios do Lúcio Dilho, sem o marxismo do Gaetaninho, sem os churrascos do Rafael, sem os projetos do Barroso, sem o Camões de seo Thomaz, sem os quadros da Paula, sem sem, sem, sem... que seria deste filho de Deus? Nem zero. Sem o Zero? Sem o mestre Manzano? Sem eles? O fim.
É por isso que eu sou com. Sou com sangue, sou com fígado, sou com olhos que mudam de cor conforme o abismo. Sou com as vozes que conheço. O som de uma festa de república, para mim, é uma canção de ninar.
Venha. Vamos dormir com a festa do mundo. Nela, o que eu seria sem você – a mulher que aceita todos os meus cons?
Publicado em 19 de março de 2004 às 11:00 por briguet