Repórter das Coisas

A fogueira de Lavoisier

(Ah, meu Deus. Não acredito. Esse Briguet vem com lirismo besta no fim do expediente?!)


Eu sou a elipse do eu.

Esta mão não é a mesma;

os dedos cresceram, ficaram velhos,

morreram, deram lugar a outros dedos

– quantas mãos sumiram para esta existir?


O gesto, o tapa, o soco na parede,

o afago nos cabelos de Ana,

o pedido de Skol na quinta sem-lei,

o tremor das ressacas violentas,

o telefonema na madrugada,

as máquinas de escrever da UEL,

o pedido de carona ao fim da tarde,

os espasmos do recém-nascido:

esta mão foi, foram outras mãos.

Restou apenas o rumor

ocupado por ela no espaço.


Este pé, que vadiou pelos pátios,

pelo gramado do campus,

molhou-se nas franjas do mar;

este pé que pisou nos espinhos,

e infantil derrubou formigueiros;

este pé que se esticou em pleno gozo

– acabou este pé de nascer.

Este pé foram, foi outros pés.

Mortos pés no caminho.


Este corpo agora acordado,

corpo esquisito, réu sem defesa,

tem apenas um ano de idade

(quem sabe nem isso).

Pobre abalo sísmico, resíduo de umas sobras,

detalhe imperceptível, risco no leite,

bolha no vidro, grávido de nada,

descendente alheio

de outros mais magros,

de outros mais gordos,

mais altos, mais baixos,

doentes, sadios – outros corpos

que vieram antes.


O suor, o gosto, o perfume,

garganta, pâncreas e bile

– são todos gritos na noite,

na fogueira de Lavoisier.

Carnificina diária:

mortos os corpos,

morta em mim multidão.


Nem os olhos, estes que piscam

a cada minuto, nem os olhos

são os mesmos. Todas as fibras,

todas as células, ambas as íris,

as duas retinas, a pálpebra de vento

– veja você que tudo mudou.

Foram outros olhos a mudar de cor,

quando estavam loucos ou bêbados,

outros olhos a achar, a perder,

a se distrair no claro,

a se queimar e a se furar,

outros olhos a se fechar.

Hoje são cegos no breu.

Este olho não sou eu,

esse olho não sou eu,

aquele olho não sou eu.


A elipse, claro, é que sou.

Tudo me é –

este nome, este sopro,

esta voz, esta mão –

e morre na flor do minuto.


Tudo que sou

me é estranho.

Estou nu

de mim mesmo.

Publicado em 17 de março de 2004 às 18:43 por briguet

Comentários

    • sabe você me fez lembrar os poemas do José Paulo Paes sobre a perna dele (que foi amputada) e sobre os óculos.
      “só fingem que põem o mundo ao meu alcance”...
    • por diana a da caça
    • 18.Mar.2004 às 08:36 - Permalink - Reportar
    diana a da caça
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(Milton Friedman with lasers)

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