E daí que você não passou no concurso? Na minha prova você já passou. Eu não ligo para os sabidos burocratas que pretendem avaliar o mundo, que se arvoram em filtrar os talentos e as inteligências certos. Teriam eles talento para falar espanhol como você, um espanhol digno de Julio Cortázar? Teriam eles inteligência para analisar a ironia nas canções de Chico Buarque, para decifrar os subentendidos da malandragem? Teriam eles a resposta psicológica para o grande mistério das coisas – para a chave do tempo? Não – e nem eu.
Importante é passar no concurso dos ventos, das horas, dos rios, dos olhos em chamas, das mãos que indicam a caravana, dos pés que percorrem os planaltos, das almas que vasculham o sótão. Sagrado é o curso dos acontecimentos – o concurso é irrevelante, o concurso foi reprovado, o concurso apenas gera concursados.
Nenhuma das alternativas anteriores, nenhuma das alternativas seguintes, nenhuma das alternativas prováveis ou possíveis, nada vai comprovar o valor dessa prova que não te aprovou.
Não passou? Henfil foi reprovado oito vezes no colegial. O melhor médico que eu conheço prestou vestibular cinco vezes. Uma grande jornalista daqui foi aconselhada por um professor a desistir da carreira – no primeiro ano da faculdade! Durante um teste em Hollywood, o avaliador de Fred Astaire escreveu: “É feio. Careca. Não canta. Dança um pouco”. Anos depois, Fred mandou emoldurar a anotação e pendurou-a na parede de sua casa.
Um dia, esse concurso aí será apenas um retrato na parede. E não vai doer – como dói hoje em todos nós que a amamos.
Publicado em 10 de março de 2004 às 12:33 por briguet
Estou com saudades.
Abraços,