E de repente algo me trouxe à porta,
algo trouxe à tona, algo me trouxe à folha
no oitavo dia da Criação,
também chamado segunda-feira,
porque era preciso dizer: SALVEM A LINGUAGEM.
A linguagem está morrendo,
está no labirinto sem novelo das coisas inexistentes;
da linguagem ao touro da linguagem,
a ling. está abrev., a linguagem está 18,93487%,
a linguagem calou entre as imagens,
a linguagem está lacônica... imprecisa... sei lá...
mil coisas... tipo assim... legal... falou manô...
(o que é a linguagem? o verbo, ilusão? hein?)
...
A linguagem tergiversa, desconversa, foge,
não encara os próprios filhos,
abandona-os à sorte, e morre (pena de morte,
risco de vida), morre viciada de tudo a linguagem,
morre culpada de tudo a linguagem,
morre aos gritos nos blogs, nos sítios, morre à naúsea,
afoga-se no infinito,
nos mares sempre dantes navegados,
com seu olho só de linguagem,
Titanic Lusitânia,
afoga-se a linguagem em Goa, Luanda, Macau, Lisboa,
Rio, Londrina, São Paulo, Tóquio, aranha da www, WTC,
sim,
afoga-se, afogoogla-se,
no calabouço do navio,
salvem – SALVEM A LINGUAGEM!
Salvem a linguagem, amigos;
salvem, desconhecidos;
salvem, vocês que odeiam,
salvem a linguagem de quem a cortou ao meio,
de quem cortou a meia linguagem em duas,
de quem cortou um quarto da linguagem, 1/16 da linguagem,
salvem o que resta da linguagem, 1/32, 1/64, 1/128,
em nossas mãos,
em nossas bocas,
em nossos blogs,
em nossos posts,
em nossas portas, nossas folhas, nossas tonas
– salvem a linguagem
se quiserem salvar o mundo.
Publicado em 08 de março de 2004 às 13:45 por briguet