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Archive for March of 2004
March 31, 2004
“Abril é o mais cruel dos meses” (T. S. Eliot)
“E o último inimigo a ser vencido será a morte.” (S. Paulo)
Sempre me perguntei por que não existe um Dia da Verdade. Talvez porque cada um de nós tenha o seu, particular e intransferível como a senha de um ataque nuclear. Todos os outros dias pertencem à Mentira. Como este que chega – 1º de abril.
Para falar do que vou falar, precisei esperar o primeiro dia do quarto mês. Pois só no Dia da Mentira me sentirei um pouco protegido. Não o bastante; um pouco. O assunto de hoje não deveria nascer nunca – é o dia em que vou te perder.
O dia em que vou te perder, mulher. O dia em que vou te perder, pai. O dia em que vou te perder, mãe. O dia em que vou te perder, irmã. O dia em que vou te perder, vó. O dia em que vou te perder, tia. O dia em que vou te perder, meu amigo. O dia em que vou te perder, minha amiga. O dia em que vou te perder, leitor. Ou – sempre existe a possibilidade – o dia em que vocês vão me perder.
“Ah, mas não se deve falar nessas coisas!”, alguém diria. É verdade. Não se deve. Mas o que fazer, se essas coisas é que falam em mim? Eu não seria razoável nem honesto – ou melhor, seria mentiroso – se garantisse que tal assunto não vive dentro de mim, constante: no ponto de ônibus, no banheiro do shopping, na Quinta Sem-Lei, nas tardes de domingo, no passeio pelo Mercadinho Shangri-Lá. Por que não viveria neste post?
Sim, as más possibilidades são pequenas: todos estão bem, todos estão fortes, todos estão vivos. Mas a grande inimiga se esconde por trás de cada passo. Mulher, pai, mãe, irmã, avó, tia, tio, primo, prima, amigo, amiga, leitor, eu. Por trás de cada nome genérico, a perda.
No entanto, preparar-me para o Dia da Verdade é uma estratégia de vida. Olhando de frente para a grande inimiga, aprendi a não ter inimigos. Não odeio mais ninguém. Não polemizo em torno de futilidades (meu Deus, como é numeroso o universo das futilidades!). Não quero mal nem mesmo aos ladrões de merenda escolar. É claro que essas coisas me torturam, é claro que nem sempre eu consigo me segurar, mas pergunto: o que pode ser pior do que o dia em que eu te perder, esse dia que freqüenta a cena do poço inominável? Não precisarei sentir medo da mentira, no dia em que isso for verdade. No dia do Dia.
Então, como levantarei da cama? Se levantar, como lavar o rosto? Se lavar o rosto, como vestir a calça? Se vestir a calça, como calçar o sapato? Se calçar o sapato, como abrir a porta? Se abrir a porta, como enfrentar a rua? E se enfrentar a rua, como aceitar este mundo que anda, anda, anda? Como vive e anda este mundo, meu Deus!
As palavras – que correspondência terão elas com os pensamentos? E estes com o sangue? E o sangue com a realidade? No Dia da Verdade – constato alarmado –, eu não saberei dizê-la.
Eis o ataque nuclear do tempo. Felizmente, hoje é Dia da Mentira. Há 40 anos, também era. Há 40 meses. Há 40 semanas. Há 40 dias. Há 40 horas. Há 40 minutos. Há 40 segundos. E assim por diante – até a Verdade.
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March 29, 2004
Bobinas do jornal, que dormem no galpão:
serão desenroladas na próxima edição.
Bobinas reportagens, bobinas 100%:
o que será notícia depois do fechamento?
Bobinas que descansam no pátio lá da gráfica:
por que parecem olhos em atitude estática?
Bobinas tudo aceitam, bobinas tudo podem:
da carta-testamento ao mero factóide.
Bobinas tão sublimes, bobinas tão ridículas:
que fazem o sublide girar dentro do círculo.
Bobinas da matéria, bobinas do além:
o que será manchete no número que vem?
Bobinas do silêncio, bobinas da denúncia:
nelas reside a força ou só existe astúcia?
Bobinas inocentes, que não me levem a mal:
não sabem nem que são o próximo jornal.
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March 29, 2004
Levantamos,
jogamos a água sobre o rosto,
limpamos os dentes e a boca,
lavamos os olhos,
espiamos o Sol que já se levantou
(fazemos isso por um buraco a que chamam janela),
consultamos o medidor das horas,
nos lembramos vagamente da música
que escutamos durante o sono,
bebemos o leite,
comemos o pão,
lemos as letras no papel
(o papel encontrado
debaixo do buraco a que chamam porta),
jogamos a água sobre nossa cabeça,
enxugamos a nossa cabeça,
escolhemos as vestes,
colocamos as vestes,
abrimos a porta,
deixamos a nossa casa,
somos fracos, tão fracos,
meu Deus, como somos fracos.
Consultamos o medidor das horas
ainda com a música na cabeça,
a música que não foi embora com a água,
entramos no levador de gentes,
no caminho cheio de outros levadores de gentes,
e chegamos a outro lugar,
onde nos sentamos na cadeira,
com as mãos sobre a mesa,
a mesa de sempre,
e principiamos a fazer as coisas para os outros,
as coisas pelas quais os outros nos compensam.
Somos fracos, Pai, tão fracos.
Quando eles nos compensam,
e isso nem sempre ocorre,
saímos a usar o objeto da compensação
para pagar a água, o leite, o pão, as vestes, a porta, a janela, a casa.
Não há, porém, como pagar o Sol,
nem a boca, nem o que existe por trás da boca,
na água dentro do abismo,
no fundo das coisas, no sangue em breu,
na música do âmago de nossa cabeça.
Nada vai lavar a música
no âmago da nossa cabeça.
Somos fracos, Deus, tão fracos.
Meu Deus, somos tão fracos.
Agora e na hora de nossa morte, amém.
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March 27, 2004
Eu, que eu possa descansar em paz
eu, que ainda estou vivo e digo:
que eu possa ter paz no que tenho de vida.
Eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo.
Não quero esperar como aquele piedoso que almejava
uma perna do trono de ouro do Paraíso. Quero uma cadeira
de quatro pernas, aqui mesmo, uma cadeira simples de madeira.
Quero o resto de minha paz agora.
Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora,
combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo,
minha cara de amante, minha cara de inimigo
Guerras com velhas armas, paus e pedras, machado enferrujado, palavras,
rasgão de faca cega, amor e ódio,
e guerra com armas de último forno, metralha, míssil,
palavras, minas terrestres explodindo, amor e ódio.
Não quero cumprir a profecia de meus pais de que vida é guerra.
Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma.
Descansem-me em paz...
Yehuda Amichai, poeta israelense (1924-2000)
Tradução de Millôr Fernandes
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March 27, 2004
Eu peço a vocês:
favoreçam as glicínias.
As sarças.
E amem os judeus, as judias.
Eu mesmo sou um judeu,
quem sabe um cristão novo
(minha tia mora em frente à sinagoga).
Amem as judias, os judeus;
procurem não odiar
os Estados Unidos da América.
Odeiem os trens que explodem às sete da manhã,
os que morrem por apedrejamento,
a bomba no campus de Jerusalém.
Amem a exemplo dos loucos, estagiritas,
a exemplo dos catecúmenos,
como os cavalos loucos,
amem como judeus que somos.
Todos nós. Oh não se ofendam.
Não se ofendam por este conceito,
esta definição.
Não julguem para não serem julgados.
E favoreçam as glicínias.
As sarças.
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March 26, 2004
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
(...)
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
(...)
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
(...)
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.
(Herberto Helder, Lugar, 1961-1962)
**********
Eu gosto mais do Paulo do que do Briguet.
(Maria Ester Falaschi, Bar Brasil, 2004)
**********
Vou dar uma palestra sobre Herberto Helder. Hoje você está falando sobre as cores e formas. Como disse o português: tudo é outra coisa.
(Eu mesmo, Casa, manhã inexistente)
**********
Estou debaixo da página do dia.
E ainda tenho uma reportagem para escrever.
(Eu mesmo, filo-semita, apolítico)
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March 25, 2004
Já abdiquei das minhas opiniões. Políticas, em especial. Não queiram polemizar com fantasmas.
Da inteligência, desde que nasci. Recentemente, assumi que tenho apenas três neurônios (um para respiração, outro para circulação, outro para...)
Já abdiquei do futebol e da leitura diária da Folha de S. Paulo.
Do filé à parmegiana.
Dos sentimentos mais nobres; dos menos.
Ética? Não sei o que é.
Da glória e da boa imagem.
Do orgulho, da coerência.
Das pretensões de talento.
De tudo isso aí já abdiquei: exceto da minha QUINTA-SEM-LEI.
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March 25, 2004
Um dia, não precisarei mais dos sapatos. Sempre acordo sem eles, a não ser nas noites em que bebo muito (mas tem que ser muito mesmo). Quem não se lembra dos chinelos esquecidos nos hotéis? Também tem a Conga. As Alpargatas. Ortopé. Kichute. All Star. Sete Léguas. Chinesinho do Paraguai (imenso chulé). 752 Vulcabrás. O Homem do Sapato Branco.
Leia mais na
crônica da semana.
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March 21, 2004
Fui para Gramado. Volto na Quinta Sem-Lei.
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March 20, 2004
I
Ventilador,
que sopras a Vênus
e os continentes,
que esfrias
os fogos
e jogas
cem portas
batentes,
e bates
nas ventas,
nas secas,
e moves
os mares
da mente,
comoves
a gente
que mira
os cabelos
brilhantes
da moça
que vende
o vento.
II
Que arte
adolescente
se move
na hélice
a tempo,
dissolve-se
e rege-se
em torno
do sempre
existente?
III
Em ti,
o épico
inteiro.
Respiração
do janeiro,
simétrico
em círculo
inteiro,
elétrico
até que o outono
ventile
o seu ar,
sem parceiro.
Até que o tempo,
ó vento honorário,
te faça voltar
ao degredo
do fundo
do armário.
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March 19, 2004
Por que a mão é feminina e o pé é masculino?
Por que o mar é macho e a terra é fêmea?
Por que a água vem do rio e o leite, da mãe?
Por quê?
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March 19, 2004
Eu não seria o mesmo sem as primeiras páginas de “Trópico de Capricórnio”; sem Henry Miller, eu seria muito pouco do que sou.
Eu não seria o mesmo sem me apaixonar por Natasha, de “Guerra e Paz”. Sem os contos de Tolstói, muito menos do que sou, e já sou quase nada. Se eu não tivesse parado na livraria em São Paulo, se não tivesse folheado um livro de Herberto Helder, se não tivesse aberto o livro justo na página em que ele diz aquela frase – “Amanhã morrerei” –, o que eu seria?
Eu não seria o mesmo sem guardar fichas de cerveja do Bar Brasil na carteira, junto com a senha do plano de saúde; sem elogiar o atendimento da Inês, melhor garçonete do Brassssiilll; sem reclamar que o banheiro de lá não tem torneira. Eu não seria o mesmo sem tomar três cervejas com meu pai no Kotovelo’s – só três cervejas, nem mais, nem menos; meu pai é sistemático –, sem ser acordado por um telefonema dele, de manhã, sem citar que ele inventou a Biblioteca Circulante do Banco do Brasil. Eu não seria o mesmo sem minha mãe rezar para eu beber pouco na Quinta Sem-Lei, sem falar portunhol para minha irmã, sem ficar com saudade do Vô Briguet, sem tentar convencer a Vó Maria a usar um aparelho de surdez.
Eu não seria o mesmo sem dor de cabeça na sexta-feira, sem minhas intermináveis depressões, que sobrepõem umas às outras, e até conversam alegremente entre elas; sem ligar para amigos e amigas de madrugada, acreditando que eles estão despertos como eu; sem uma caneta no bolso para anotar minhas idéias desconexas; sem pedir desculpas, eu jamais seria o mesmo.
Sem a atriz pornô Chloe Vevrier, sem a Juliette Binoche, sem a Fernanda Abreu e a Paula Toller – quem? Sem checar os e-mails como quem toma um xarope contra a solidão? Nem pensar, nem pensar.
Seria um outro, não eu, se não descobrisse sons misteriosos a cada nova audição de João Sebastião; sem Bach, a vida não teria trilha sonora, e eu morreria mudo, surdo-mudo, talvez cego (vocês sabem que Bach estava cego quando compôs a “Arte da Fuga”; eu fiquei sabendo essa semana – mas sem essa informação eu não seria o mesmo, não). Sem um Bill Evans de vez em quando, nada feito. Sem um Cat Stevens (pronto, falei).
Sem os Tipos, eu não seria o mesmo de jeito nenhum ou, como diria Adriana, nediteum. Sem as deliciosas aventuras da Paula Schütze (olho na fechadura da pátria feminina), sem os recommended downloads de Bastardo (“Povo Sarvage! Leis é leis!”), sem o mau humor do Alan, sem a fúria nonsense de Moraes, sem as picaretagens de Vidal, sem os intelectualismos e as idéias fixas de Grota, sem os lamentos de Gabi, sem o diário de Guilherme, sem o pingos nos y do poeta Ygor, sem las chicas de Yuge, sem conferia a lista de atualizados, sem me zangar quando leio “Esta página está temporariamente indisponível”, sem fingir que estou trabalhando só para saber o que o Galão escreveu desta vez, eu não seria nem um milésimo do que sou. Sem Janaína Ávila, cadê Paulo? Sem Janaína Garcia, cadê Briguet? Meu sangue tem glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e blog.
Sem minhas ex-namoradas, quem seria eu? Sem Ester, sem Simone, sem Agda, sem Carina, sem Luciana, sem Jackie, sem Ana, sem Adriana, sem Paula, sem outras na corrente sanguínea, no desvio do neurônio, no coágulo da memória? Sem elas? Sem mim.
Sem meus amigos, não tem eu. (Sei que vou esquecer alguém, e peço desculpas – eu sem desculpas? nada feito). Sem as desenterradas do Preto, sem os sósias do Marcelo, sem as geopolíticas do Pafu, sem os filmes iranianos do Zé, sem o Luciomar Nunes da Horta, sem as amigas de UEL, sem os telefonemas da Calula, sem as conversas da Ana Paula, sem as idéias do Bruschi, sem a braveza da Sílvia, sem os comentários do Pedro Gordan, sem os trocaflávios do Lúcio Dilho, sem o marxismo do Gaetaninho, sem os churrascos do Rafael, sem os projetos do Barroso, sem o Camões de seo Thomaz, sem os quadros da Paula, sem sem, sem, sem... que seria deste filho de Deus? Nem zero. Sem o Zero? Sem o mestre Manzano? Sem eles? O fim.
É por isso que eu sou com. Sou com sangue, sou com fígado, sou com olhos que mudam de cor conforme o abismo. Sou com as vozes que conheço. O som de uma festa de república, para mim, é uma canção de ninar.
Venha. Vamos dormir com a festa do mundo. Nela, o que eu seria sem você – a mulher que aceita todos os meus cons?
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March 18, 2004
Tive meu domingo de repórter policial. E fiz uma crônica. Leia
aqui.
*********
Não sou bombeiro nem nada, mas estou disposto a resgatar a Quinta Sem-Lei. Famigerada? Difamada? Distorcida? Mitificada? Não importa. Importa é responder ao chamado do balcão.
Quequeisso, meu povo? Quede Lúcio Flávio? Galão? Grotíssimo? Quede todo mundo? Rogê Milla Fischer? Moraes? Ygor? Gabi? Deni Somera? Senhoritas representantes da ala feminina, capitaneadas por Karla Matida? Agitem esse negócio! Anarquia já!
Sabe-se que grandes momentos da história foram tramados na QSL - a Tomada de Bastilha, a invenção da Penicilina, a invenção da Neosaldina e o advento da Mulher Elástica.
Sejamos dignos dessa bizarra tradição.
E que John Wayne nos proteja.
Ora, ora. Serei obrigado a usar da força para encher o saloon?
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March 17, 2004
(Ah, meu Deus. Não acredito. Esse Briguet vem com lirismo besta no fim do expediente?!)
Eu sou a elipse do eu.
Esta mão não é a mesma;
os dedos cresceram, ficaram velhos,
morreram, deram lugar a outros dedos
– quantas mãos sumiram para esta existir?
O gesto, o tapa, o soco na parede,
o afago nos cabelos de Ana,
o pedido de Skol na quinta sem-lei,
o tremor das ressacas violentas,
o telefonema na madrugada,
as máquinas de escrever da UEL,
o pedido de carona ao fim da tarde,
os espasmos do recém-nascido:
esta mão foi, foram outras mãos.
Restou apenas o rumor
ocupado por ela no espaço.
Este pé, que vadiou pelos pátios,
pelo gramado do campus,
molhou-se nas franjas do mar;
este pé que pisou nos espinhos,
e infantil derrubou formigueiros;
este pé que se esticou em pleno gozo
– acabou este pé de nascer.
Este pé foram, foi outros pés.
Mortos pés no caminho.
Este corpo agora acordado,
corpo esquisito, réu sem defesa,
tem apenas um ano de idade
(quem sabe nem isso).
Pobre abalo sísmico, resíduo de umas sobras,
detalhe imperceptível, risco no leite,
bolha no vidro, grávido de nada,
descendente alheio
de outros mais magros,
de outros mais gordos,
mais altos, mais baixos,
doentes, sadios – outros corpos
que vieram antes.
O suor, o gosto, o perfume,
garganta, pâncreas e bile
– são todos gritos na noite,
na fogueira de Lavoisier.
Carnificina diária:
mortos os corpos,
morta em mim multidão.
Nem os olhos, estes que piscam
a cada minuto, nem os olhos
são os mesmos. Todas as fibras,
todas as células, ambas as íris,
as duas retinas, a pálpebra de vento
– veja você que tudo mudou.
Foram outros olhos a mudar de cor,
quando estavam loucos ou bêbados,
outros olhos a achar, a perder,
a se distrair no claro,
a se queimar e a se furar,
outros olhos a se fechar.
Hoje são cegos no breu.
Este olho não sou eu,
esse olho não sou eu,
aquele olho não sou eu.
A elipse, claro, é que sou.
Tudo me é –
este nome, este sopro,
esta voz, esta mão –
e morre na flor do minuto.
Tudo que sou
me é estranho.
Estou nu
de mim mesmo.
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March 17, 2004
Prepare o terno. Mande pra lavanderia. Dê o nó na gravata. Ou vá com a camisa que estiver usando na hora. Vale até camiseta. A roupa não faz diferença; o que faz diferença é estar lá.
Se você é de Londrina, jornalista ou leitor de jornais, apareça às 20h30 na Câmara. Jota Oliveira, Widson Schwartz e Estelio Feldman (in memoriam) recebem o título de Cidadãos Honorários de Londrina. Ao contrário de muita gente, eles merecem.
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March 14, 2004
Minha caneta vermelha de sangue,
o sangue azul de treva
e a treva verde da vida.
Que sol se fez amarelo
se o negro envolve os cabelos
da moça de tez transparente?
Meus olhos cheios de sangue
não sabem mais ver as cores:
o cinza que pode ser roxo,
o prata que pode ser branco,
a fonte do sopro incolor.
Caneta suja de sangue,
sangue azulado de treva,
a treva vermelha em terror.
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March 14, 2004
No dia em que eu me conformar com a explosão de trens às sete horas da manhã, por favor me internem.
No dia em que eu justificar terror com clichês anti-imperialistas, por favor me ignorem.
No dia em que eu sair por aí transformando vítimas concretas em vilões abstratos, por favor me contestem.
Se a gente olhar para o mundo sem os óculos da política, dor é só dor, sangue é só sangue, morte é só morte.
Só?
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March 11, 2004
Diante do que aconteceu em Madri, eu mais uma vez recorro às palavras do poeta inglês John Donne:
“A morte de cada pessoa me afeta, porque estou envolvido na condição humana. Portanto, nunca mandes perguntar por quem o sino dobra: ele dobra por ti.”
Por isso, só me restou escrever. Leia
aqui.
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March 10, 2004
E daí que você não passou no concurso? Na minha prova você já passou. Eu não ligo para os sabidos burocratas que pretendem avaliar o mundo, que se arvoram em filtrar os talentos e as inteligências certos. Teriam eles talento para falar espanhol como você, um espanhol digno de Julio Cortázar? Teriam eles inteligência para analisar a ironia nas canções de Chico Buarque, para decifrar os subentendidos da malandragem? Teriam eles a resposta psicológica para o grande mistério das coisas – para a chave do tempo? Não – e nem eu.
Importante é passar no concurso dos ventos, das horas, dos rios, dos olhos em chamas, das mãos que indicam a caravana, dos pés que percorrem os planaltos, das almas que vasculham o sótão. Sagrado é o curso dos acontecimentos – o concurso é irrevelante, o concurso foi reprovado, o concurso apenas gera concursados.
Nenhuma das alternativas anteriores, nenhuma das alternativas seguintes, nenhuma das alternativas prováveis ou possíveis, nada vai comprovar o valor dessa prova que não te aprovou.
Não passou? Henfil foi reprovado oito vezes no colegial. O melhor médico que eu conheço prestou vestibular cinco vezes. Uma grande jornalista daqui foi aconselhada por um professor a desistir da carreira – no primeiro ano da faculdade! Durante um teste em Hollywood, o avaliador de Fred Astaire escreveu: “É feio. Careca. Não canta. Dança um pouco”. Anos depois, Fred mandou emoldurar a anotação e pendurou-a na parede de sua casa.
Um dia, esse concurso aí será apenas um retrato na parede. E não vai doer – como dói hoje em todos nós que a amamos.
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March 09, 2004
Amanhã à noite tem despedida da
Janaína Ávila no Quintal. Ela vai a Paris. E quem somos nós para não ir? (Ao Quintal, não a Paris – é craro, Cróvis!).
**********
O bom das despedidas da Janaína é que ela volta logo.
Janaína volta. Logo, existe.
**********
E tudo é motivo pra festa: ir, voltar. Até permanecer.
**********
Janaína Ávila. Janaína Ávida. Janaína A Vilã. Janaína Dádiva. Janaína Impávida. Janaína Ácida. Valentina Ávila. Latina Ávila. Cubana Cálida. Janaína da Vida. Me Tarzan, you Jana. Je, Naína.
**********
O que será de nossas (quatro) Quintas-Sem-Lei sem Janaína? Marcelo, Lúcio Flávio, Guilherme Mendes da Costa, Galão, temos que redobrar esforços, garotos!
**********
Janaína que tem uma
xará, tão gente fina quanto, só que de outro jeito. Janaína Newton-John. Janaína Compay. Janaína Orishas. Janaína, boa menina.
**********
Janaína já!
**********
Quer dançar, quer dançar? O Briguet vai te ensinar. Amanhã, no Quintal. Jana vai – mas já volta.
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March 09, 2004
“O ser humano não é como uma laranja - que você suga, suga, depois joga fora.”
(Arthur Miller, escritor norte-americano)
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March 08, 2004
E de repente algo me trouxe à porta,
algo trouxe à tona, algo me trouxe à folha
no oitavo dia da Criação,
também chamado segunda-feira,
porque era preciso dizer: SALVEM A LINGUAGEM.
A linguagem está morrendo,
está no labirinto sem novelo das coisas inexistentes;
da linguagem ao touro da linguagem,
a ling. está abrev., a linguagem está 18,93487%,
a linguagem calou entre as imagens,
a linguagem está lacônica... imprecisa... sei lá...
mil coisas... tipo assim... legal... falou manô...
(o que é a linguagem? o verbo, ilusão? hein?)
...
A linguagem tergiversa, desconversa, foge,
não encara os próprios filhos,
abandona-os à sorte, e morre (pena de morte,
risco de vida), morre viciada de tudo a linguagem,
morre culpada de tudo a linguagem,
morre aos gritos nos blogs, nos sítios, morre à naúsea,
afoga-se no infinito,
nos mares sempre dantes navegados,
com seu olho só de linguagem,
Titanic Lusitânia,
afoga-se a linguagem em Goa, Luanda, Macau, Lisboa,
Rio, Londrina, São Paulo, Tóquio, aranha da www, WTC,
sim,
afoga-se, afogoogla-se,
no calabouço do navio,
salvem – SALVEM A LINGUAGEM!
Salvem a linguagem, amigos;
salvem, desconhecidos;
salvem, vocês que odeiam,
salvem a linguagem de quem a cortou ao meio,
de quem cortou a meia linguagem em duas,
de quem cortou um quarto da linguagem, 1/16 da linguagem,
salvem o que resta da linguagem, 1/32, 1/64, 1/128,
em nossas mãos,
em nossas bocas,
em nossos blogs,
em nossos posts,
em nossas portas, nossas folhas, nossas tonas
– salvem a linguagem
se quiserem salvar o mundo.
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March 04, 2004
Procuro a cura.
Já tentei de tudo: Neosaldina, Aspirina, Novalgina, estricnina, fenolfitaleína, sertralina, xilocaína, penicilina, cafeína, Gatorade, água de coco, água-de-cheiro, água-de-colônia, água de beber, Águas de Março, aguardente, água, Coca-Cola, mais uma vez Coca-Cola, uma terceira vez Coca-Cola...
Leia mais na minha
crônica da semana.
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March 03, 2004
A morte é perseguida por todo o mundo,
está ferida de morte,
a morte está cercada pelas coisas,
as vozes que cantam, gritam para assustar a morte.
As cercas só existem para conter a morte;
e a terra, para cobri-la;
e o chão, para bebê-la.
A luz existe para queimar a morte.
E se unem os inimigos, e os amigos se separam e
e se unem, e os inimigos se abalam,
e os amigos e inimigos lutam, suam, dormem, sonham,
preparam uma festa para a morte.
E todos os lobos se entredevoram
só para devorar a morte, só para comer a morte,
só para a aflição da morte.
A morte está perdida, condenada de antemão,
pobre da morte, coitada da morte,
coitada da morte, está chorando, está sofrendo.
Coitada da morte, está morrendo.
E é por isso, meus amigos, que as coisas são,
que as coisas são assim exatamente como são.
É por isso, meus amigos, que a morte vence.
E por isso a morte mata.
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March 01, 2004
– Mr. Obvious, qual é o segredo da felicidade?
– O segredo da felicidade consiste em não fazer essa pergunta, palerma.
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