O curso dos rios é sagrado,
e sagrado o umbigo da garota no Bar Brasil,
enquanto converso com Deus,
e Deus faz aniversário.
Sagrado o fato de amanhã ser quinta-feira,
sendo hoje uma segunda.
Tudo tem uma fração:
mesmo o pingo na letra i verte sangue.
Um átimo da face está na caneta sem tinta,
no cálice sem vinho, esquecido na cristaleira,
na cama desarrumada aos domingos,
nas unhas da Vitória de Samotrácia.
Em todos os femininos aleatórios do mundo perceptível
(por que o mar? por que a terra? por que o leite? por que a morte?),
em todos os masculinos,
repousa uma tensão de eternidade.
Um elétrico fiapo de Deus.
E assim o curso dos rios,
e a curva dos rios,
pátria de todos os rescaldos
– tudo é sagrado.
Sagrado eu, sagrada você,
sagrado o computador desligado,
a tela apagada,
o quarto fechado,
a louça na pia da cozinha,
e você com a chave na bolsa,
a andar pelo curso das águas
sagradas.