Para Luiz Carlos Bruschi
Olhai pro chão, que o dia
teve duas meias-noites.
Olhai pro chão futuro,
olhai pro chão de antes.
Olhai pro chão, que urge
olhar pro chão agora.
Olhai pro chão, que o dia
teve 25 horas.
Olhai pro chão, pra terra
que é toda feita de grãos.
Olhai pro chão tal qual
quem olha as próprias mãos.
Olhai pro chão da rua,
olhai pro chão da casa.
O chão é vossa cabeça,
Vossa guelra e vossa asa.
Olhai pro chão no rumo
do mais chão dos elementos.
Pois o chão é o insumo
das águas, dos fogos, dos ventos.
Olhai pro chão do modo
que alguém olha o próprio lar.
Olhai pro chão que vos carrega
E amanhã vais carregar.
Olhai pro chão e andai
pelo chão que vos couber.
Olhai pro chão, se homem.
Olhai pro chão, se mulher.
Pois se um dia nós perdermos
o chão que a todos leva,
sobre o chão não nascerá
nem a mais amarga erva.
Escutai, pois, esta voz,
que agora já vai calar.
Olhai pro chão, rogai por vós,
que do chão não vais passar.
Olhai pró chão, rogai por vós!