Archive for February of 2004
Diário do Homem-Ressaca (3)
February 28, 2004Eu me pergunto: por que os cachorros latem? Jamais encontrei a resposta. Essa questão só me ocorre quando estou de ressaca, ou quando acaba o antidepressivo. Não preciso saber por que os cães latem caso esteja numa situação normal.
Aqui caberia indagar: o que é uma situação normal? Em 95% do tempo eu estou de ressaca ou deprimido, às vezes as duas coisas, em diferentes graus de intensidade. Isso quer dizer que quase sempre eu me pergunto a razão de os cães latirem, e que a situação normal, na verdade, é um fato atípico, incomum, raro como uma efeméride.
**********
Meu nome, como vocês já devem saber, é Homem-Ressaca. Eu tenho um amigo imaginário, o Cão-Ressaca. É um cão silencioso e bem-comportado. Porém, como eu já disse, as condições normais são extremamente raras. Agora, enquanto me observa com seus olhos imaginários, o Cão-Ressaca começa a latir. Tento perguntar a ele o motivo de tanto barulho, mas – é sempre útil lembrar – cães imaginários não respondem às nossas perguntas.
Eles apenas latem.
Diário do Homem-Ressaca (2)
February 27, 2004Viver é a grande obsessão, a tatuagem no ar. Um dia acordarei desta vertigem; serão duas da madruga e um punhado de minutos.
Esqueço sempre a cidade em que vivo, o nome que tenho, o corpo que levo não sei onde.
Tudo me pesa, gelo em carne viva, fio elétrico nas águas, lontras e enguias dentro da boca.
O nome que tenho é tatuagem das coisas mesmas.
Um dia acordarei. Só um minuto, por favor.
diário do homem-ressaca
February 27, 2004Abstenha-se, Homem-Ressaca: já não há nada para consumir. Todas as reservas – de água, de alimento, de paciência, de saúde, de tempo, sobretudo de cerveja – foram esgotadas.
Retire-se, Homem-Ressaca. Dê o fora. Mexa o doce. Pique a mula. Deite o cabelo. Suma por uns tempos. Vá ver se você está na esquina. Provavelmente está. Você é um poste de carne e osso, Homem-Ressaca. Cuidado: o cachorro se aproxima.
Contenha-se, Homem-Ressaca. Pague suas contas, guarde suas palavras, cale sua boca. Hoje não é seu dia.
Desculpe-se, Homem-Ressaca. Sem choro ou ranger de dentes, mas com realismo (você sabe o que é isso, Homem-Ressaca?). Comece pedindo perdão à própria sombra. Afinal, ela também está de ressaca.
Respire fundo. Endireite a coluna. Abra os olhos. Enfrente o dia. Mate o tempo, antes que ele te mate.
Use o telefone. Ligue a TV, o rádio, o computador. Ouça Bach. Leia Herberto Helder. Acompanhe as emocionantes cenas do paredão. Finja que não é com você.
Mexa-se! Componha-se! Vire-se! Dane-se! E, se não quiser fazer nada disso, foda-se, Homem-Ressaca!
Mas não se esqueça de tomar antes a última Neosaldina da caixinha.
manual da ingenuidade
February 26, 2004
Sabe de uma coisa? Hoje decidi ser ingênuo. Mais detalhes aqui, na crônica da semana.
***********
Vagabundos, estamos (temporariamente) órfãos. O Bar Brasil não funcionará nesta Quinta Sem-Lei, graças ao famigerado emendão de Carnaval. Deduzo que a Mara, a Inês e o Lourival precisam descansar de nós.
Solução? Ir ao Brasiliano, RJ com ES, todos os direitos reservados. A raiz do nome é a mesma; a cozinha, bem melhor.
**********
Cada vez mais eu acredito no Ivan Lessa: a maior parte de nossa vida se limita a um raio de dez quarteirões. Vinte, vai. Mundinho.
**********
Meu Deus, eu não deveria fazer esses convites. Se a dona Aracy lê este blog!
**********
Vamos hoje erguer um brinde à Giovana, filha da Hellen e do Tanga que nasceu no sábado (a Giovana nasceu, é claro; o Tanga não nasceu ontem). Espero não ter cometido nenhum erro de português.
- OK, vamos ao Brasiliano. Ouvi dizer que é um bom saloon, apesar de freqüentado por malditos peles-vermelhas!
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Vagabundos, estamos (temporariamente) órfãos. O Bar Brasil não funcionará nesta Quinta Sem-Lei, graças ao famigerado emendão de Carnaval. Deduzo que a Mara, a Inês e o Lourival precisam descansar de nós.
Solução? Ir ao Brasiliano, RJ com ES, todos os direitos reservados. A raiz do nome é a mesma; a cozinha, bem melhor.
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Cada vez mais eu acredito no Ivan Lessa: a maior parte de nossa vida se limita a um raio de dez quarteirões. Vinte, vai. Mundinho.
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Meu Deus, eu não deveria fazer esses convites. Se a dona Aracy lê este blog!
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Vamos hoje erguer um brinde à Giovana, filha da Hellen e do Tanga que nasceu no sábado (a Giovana nasceu, é claro; o Tanga não nasceu ontem). Espero não ter cometido nenhum erro de português.
- OK, vamos ao Brasiliano. Ouvi dizer que é um bom saloon, apesar de freqüentado por malditos peles-vermelhas!
Elétrico fiapo de Deus
February 25, 2004
O curso dos rios é sagrado,
e sagrado o umbigo da garota no Bar Brasil,
enquanto converso com Deus,
e Deus faz aniversário.
Sagrado o fato de amanhã ser quinta-feira,
sendo hoje uma segunda.
Tudo tem uma fração:
mesmo o pingo na letra i verte sangue.
Um átimo da face está na caneta sem tinta,
no cálice sem vinho, esquecido na cristaleira,
na cama desarrumada aos domingos,
nas unhas da Vitória de Samotrácia.
Em todos os femininos aleatórios do mundo perceptível
(por que o mar? por que a terra? por que o leite? por que a morte?),
em todos os masculinos,
repousa uma tensão de eternidade.
Um elétrico fiapo de Deus.
E assim o curso dos rios,
e a curva dos rios,
pátria de todos os rescaldos
– tudo é sagrado.
Sagrado eu, sagrada você,
sagrado o computador desligado,
a tela apagada,
o quarto fechado,
a louça na pia da cozinha,
e você com a chave na bolsa,
a andar pelo curso das águas
sagradas.
olha quem está na farmácia
February 24, 2004
A farmácia é um lugar muito freqüentado (por foliões e não-foliões) durante o “tríduo momesco”. Eis algumas anotações deste repórter que não aprecia Carnaval, mas é hipocondríaco, homem-ressaca e dependente químico de Neosaldina.
**********
Tem gente na farmácia. Sempre tem gente na farmácia.
*********
Dolores veio em busca de um analgésico que faça efeito. Ela é a presidente do Clube da Enxaqueca.
*********
Dorival quer saber das novidades para o estômago. E para o coração. E para o fígado. E para a alma. E para o baço (meu Deus, existe remédio para o baço?).
*********
Letícia quer uma pílula de emergência 24 horas. Aconteceu algo inesperado na noite passada.
*********
Raimundinho precisa de alguma coisa que cure ressaca. Mas, para a ressaca do Raimundinho, só inventaram um remédio até hoje: parar de beber.
*********
Dona Margarida veio bater papo.
*********
Seu Alceno veio dar uma passadinha no lugar em que trabalhou por tantos anos. Quantos remédios? Quantas injeções? Quantos amigos?
*********
Rosa pede aquela pomada que tira roxo. Ai se o namorado descobrir a marca no pescoço. Como provar que focinho de porco não é tomada?
*********
Ivan não agüenta mais dor de dente. E o dentista desligou o celular.
*********
Sílvia vai à balança para ver se perdeu peso. Mas ganhou.
*********
Alô, é da farmácia? Vocês têm alguma coisa que faz passar coceira dentro de gesso?
*********
É um assalto. Passa a grana.
*********
Moço, tem remédio pra piriri de cachorro?
*********
Quanto tempo vocês demoram pra entregar uma caixinha de Viagra?
*********
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.
*********
Eu vim aqui pra comprar alguma coisa. Mas não lembro o que era. Me deu um branco.
*********
Se não passar a dor, você aceita devolução?
*********
O troco em sal de fruta, por favor.
*********
Você tem um copo de água?
*********
Amigo, quanto foi o jogo do Londrina ontem?
*********
Olha aqui, meu azigão. Eu extou muitxo beim! Maix pur via das dúvidaixs voxê teria um remedjinho pra dor de cabexa?
*********
Eu não consigo entender a letra desse médico. Você entende?
*********
Sempre tem gente da farmácia. Nos dois lados do balcão.
**********
Balcões de farmácias, balcões de bares. Similares!
**********
Tem gente na farmácia. Sempre tem gente na farmácia.
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Dolores veio em busca de um analgésico que faça efeito. Ela é a presidente do Clube da Enxaqueca.
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Dorival quer saber das novidades para o estômago. E para o coração. E para o fígado. E para a alma. E para o baço (meu Deus, existe remédio para o baço?).
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Letícia quer uma pílula de emergência 24 horas. Aconteceu algo inesperado na noite passada.
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Raimundinho precisa de alguma coisa que cure ressaca. Mas, para a ressaca do Raimundinho, só inventaram um remédio até hoje: parar de beber.
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Dona Margarida veio bater papo.
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Seu Alceno veio dar uma passadinha no lugar em que trabalhou por tantos anos. Quantos remédios? Quantas injeções? Quantos amigos?
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Rosa pede aquela pomada que tira roxo. Ai se o namorado descobrir a marca no pescoço. Como provar que focinho de porco não é tomada?
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Ivan não agüenta mais dor de dente. E o dentista desligou o celular.
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Sílvia vai à balança para ver se perdeu peso. Mas ganhou.
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Alô, é da farmácia? Vocês têm alguma coisa que faz passar coceira dentro de gesso?
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É um assalto. Passa a grana.
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Moço, tem remédio pra piriri de cachorro?
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Quanto tempo vocês demoram pra entregar uma caixinha de Viagra?
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Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.
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Eu vim aqui pra comprar alguma coisa. Mas não lembro o que era. Me deu um branco.
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Se não passar a dor, você aceita devolução?
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O troco em sal de fruta, por favor.
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Você tem um copo de água?
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Amigo, quanto foi o jogo do Londrina ontem?
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Olha aqui, meu azigão. Eu extou muitxo beim! Maix pur via das dúvidaixs voxê teria um remedjinho pra dor de cabexa?
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Eu não consigo entender a letra desse médico. Você entende?
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Sempre tem gente da farmácia. Nos dois lados do balcão.
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Balcões de farmácias, balcões de bares. Similares!
bach
February 21, 2004
vem
com tua mão de notas
com teus olhos ocultos
com tua paixão e morte
vem
compor
tocar
a arte da fuga
o contraponto
do Verbo
vem
olha para tua família
morta na sala
e diz que o mundo ainda
pode ser alegre
vem
celebrar o cordeiro
beber o sangue
partir o pão
vem
escrever e ler
a partitura das coisas
vem
dominar o mar de ruídos
do reino deste mundo
vem
sarça que soa
fazer ouvir a voz de EU SOU
vem
fazer dormir o rei
e acordar os povos
vem cantar
johann
sebastian
bach
com tua mão de notas
com teus olhos ocultos
com tua paixão e morte
vem
compor
tocar
a arte da fuga
o contraponto
do Verbo
vem
olha para tua família
morta na sala
e diz que o mundo ainda
pode ser alegre
vem
celebrar o cordeiro
beber o sangue
partir o pão
vem
escrever e ler
a partitura das coisas
vem
dominar o mar de ruídos
do reino deste mundo
vem
sarça que soa
fazer ouvir a voz de EU SOU
vem
fazer dormir o rei
e acordar os povos
vem cantar
johann
sebastian
bach
February 20, 2004
Digo mais uma vez: cuidado com os rebeldes que já nascem tiranos.
Então, antes de ir para a quinta sem-lei, eu resolvi escrever umas bobagens
February 19, 2004O que o ódio agora quer de mim?
Ouço o rumor de suas patas.
O ódio,
esta ausência, esta distância,
anti-herói da farsa crua.
De todas as quaresmeiras nasceu o ódio,
senhor dos exércitos,
mestre dos fogos,
barão vermelho,
terceira mão que cava
– no sangue.
Talvez o óbvio seja então amá-lo,
buscar essência, presença, proximidade
dentro da cor que cai das quaresmeiras.
Talvez o ódio queira apenas ódio.
Mas não de mim.
Duas ou três coisas que eu gostaria de dizer antes de dormir
February 18, 2004Cara, hoje foi um dia muito triste.
Fiquei pensando que eu deveria ter conversado muito mais com Estelio, deveria ter aprendido muito mais com ele, deveria ouvir seus conselhos. Mas eu perdi essas oportunidades. Durante os seis anos em que trabalhei na Folha, conversamos muito menos do que poderíamos ter conversado, imersos na ditadura do cotidiano.
Quando surgia uma dúvida na redação – sobre política, história, geografia, religião – logo alguém dizia: “Pergunta pro Estelio”. Agora, a redação está muito vazia. Não dá mais para perguntar pro Estelio.
Hoje, quando vi o boné do Estelio, o velho boné, esse que está na foto aí embaixo, quase desmoronei.
E encontrei o Galão no velório. O Galão e tantos outros companheiros de batalha. A bola está com você, Galão Mágico.
O texto do Zero ficou incrível, emocionante, avassalador. Tudo que deve ser um texto.
Bom é saber que o Estelio venceu a morte. Deu um verdadeiro baile na morte, esses anos todos. Mas, como todo bom vencedor, ele também precisou descansar. Louvado seja.
Ah, você quer saber como alguém vence a morte? Pergunta pro Estelio, cara.
O último editorial
February 18, 2004February 17, 2004
Estou sempre um passo atrás.
Quando eu começo a me acostumar com o horário de verão, ele acaba.
Quando eu começo a me acostumar com um número de telefone, ele muda de novo.
Quando eu começo a me acostumar com minha senha numérica do banco, eles criam a senha alfabética.
Quando eu me acostumar com a vida, será preocupante.
**********
Hoje tem lançamento do livro “Guardados”, da poeta e jornalista Karen Debértolis, a partir das 19 horas, na Casa de Cultura da UEL. Depois, Terça Tilt no Valentino.
Ai, meu figueiredo.
**********
É engraçado: falo da Terça Tilt ouvindo “A Paixão Segundo São Mateus”. Puro rock.
**********
Galão, Aldir Blanc do século XXI, desculpe o atraso. Parabéns.
**********
Anotação mental: comprar Neosaldina.
Quando eu começo a me acostumar com o horário de verão, ele acaba.
Quando eu começo a me acostumar com um número de telefone, ele muda de novo.
Quando eu começo a me acostumar com minha senha numérica do banco, eles criam a senha alfabética.
Quando eu me acostumar com a vida, será preocupante.
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Hoje tem lançamento do livro “Guardados”, da poeta e jornalista Karen Debértolis, a partir das 19 horas, na Casa de Cultura da UEL. Depois, Terça Tilt no Valentino.
Ai, meu figueiredo.
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É engraçado: falo da Terça Tilt ouvindo “A Paixão Segundo São Mateus”. Puro rock.
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Galão, Aldir Blanc do século XXI, desculpe o atraso. Parabéns.
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Anotação mental: comprar Neosaldina.
balada do chão
February 15, 2004Para Luiz Carlos Bruschi
Olhai pro chão, que o dia
teve duas meias-noites.
Olhai pro chão futuro,
olhai pro chão de antes.
Olhai pro chão, que urge
olhar pro chão agora.
Olhai pro chão, que o dia
teve 25 horas.
Olhai pro chão, pra terra
que é toda feita de grãos.
Olhai pro chão tal qual
quem olha as próprias mãos.
Olhai pro chão da rua,
olhai pro chão da casa.
O chão é vossa cabeça,
Vossa guelra e vossa asa.
Olhai pro chão no rumo
do mais chão dos elementos.
Pois o chão é o insumo
das águas, dos fogos, dos ventos.
Olhai pro chão do modo
que alguém olha o próprio lar.
Olhai pro chão que vos carrega
E amanhã vais carregar.
Olhai pro chão e andai
pelo chão que vos couber.
Olhai pro chão, se homem.
Olhai pro chão, se mulher.
Pois se um dia nós perdermos
o chão que a todos leva,
sobre o chão não nascerá
nem a mais amarga erva.
Escutai, pois, esta voz,
que agora já vai calar.
Olhai pro chão, rogai por vós,
que do chão não vais passar.
Notas de um analfabeto político
February 13, 2004
Estou tentando ler “A Ditadura Envergonhada”, de Elio Gaspari. O homem escreve bem, sempre escreveu, e tem uma inesgotável coleção de documentos, dados e referências. Mesmo assim, o tédio acaba sendo inevitável. Minha aversão à política se entranhou de tal forma que eu não consigo ler duas páginas do assunto sem bocejar como um hipopótamo.
*********
Agora eu sou, de fato, um alienado. Graças a Deus.
**********
Ah, quem está mesmo no poder?
**********
Eu não conheço nenhuma banda de rock de 1990 pra cá. As que vieram antes, eu esqueci.
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Bach é puro rock.
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Agora eu sou, de fato, um alienado. Graças a Deus.
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Ah, quem está mesmo no poder?
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Eu não conheço nenhuma banda de rock de 1990 pra cá. As que vieram antes, eu esqueci.
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Bach é puro rock.
últimas palavras
February 12, 2004
Sempre tive obsessão por últimas palavras.
Heine: “Deus vai me perdoar, é a sua função”.
Goethe: “Mais luz!”
Augusto: “A fábula acabou”.
Nero: “Que artista o mundo perde”.
Rabelais: “Vou em busca de um grande talvez”.
Hobbes: “Estou diante de um salto nas trevas”.
Churchill: “Que tolo eu fui”.
Leia mais na crônica.
E toc, toc, toc.
Heine: “Deus vai me perdoar, é a sua função”.
Goethe: “Mais luz!”
Augusto: “A fábula acabou”.
Nero: “Que artista o mundo perde”.
Rabelais: “Vou em busca de um grande talvez”.
Hobbes: “Estou diante de um salto nas trevas”.
Churchill: “Que tolo eu fui”.
Leia mais na crônica.
E toc, toc, toc.
adoro frases bestas
February 10, 2004
E a de hoje é:
“Eu bebo para ficar ruim mesmo. Se fosse para ficar bom, eu tomava remédio.”
**********
Gosto de filosofia falsa. Estou cansado desses pensadores que só sabem dizer a verdade. Quero a ilusão. Quero a pílula azul.
**********
Sonho de hoje: 22 anos atrás, na casa do Jardim Nova York, em Araçatuba, a Terra do Boi Gordo, jogando futebol sozinho, com uma bola de plástico, daquelas que deixam a perna de gente vermelha.
**********
Saudade do meu avô, o seu Briguet.
**********
Concordo com tudo que o Zero escreve.
**********
Será que eu também sou indie?
“Eu bebo para ficar ruim mesmo. Se fosse para ficar bom, eu tomava remédio.”
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Gosto de filosofia falsa. Estou cansado desses pensadores que só sabem dizer a verdade. Quero a ilusão. Quero a pílula azul.
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Sonho de hoje: 22 anos atrás, na casa do Jardim Nova York, em Araçatuba, a Terra do Boi Gordo, jogando futebol sozinho, com uma bola de plástico, daquelas que deixam a perna de gente vermelha.
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Saudade do meu avô, o seu Briguet.
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Concordo com tudo que o Zero escreve.
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Será que eu também sou indie?
Sangue e cerveja – parte II
February 08, 2004Cabeça está cheia de sangue e cerveja,
as mãos se atiram ao trabalho inútil.
Não sabem contar quantas estrelas morrem,
agora ou agora ou agora ou agora.
E a cada palavra, a cada hiato,
morrem mais estrelas, morrem mais os homens,
morrem mais cabeças, morrem, remorrem.
Meu olho está cheio de sangue e cerveja,
as cores de agora lembram velhas cores,
e o que é mais claro mais ninguém quer ver.
Estamos tão perto da dura verdade,
Que o olho não vê o que é mais evidente.
Que nome um cego dará a uma cor?
Que frase um cavalo retira de um livro?
Que sons aparecem a um cachorro surdo?
E a quem não nasceu, que dor ou prazer?
Então novas cores acham velhas cores,
e a última hora acaba aqui.
Meu corpo padece de sangue e cerveja
e as mãos com as mãos enterram estrelas.
Coração de domingo
February 08, 2004Meu coração está cheio de sangue e cerveja,
ninguém pode me demitir.
Sou apenas um punk ouvindo Handel
na eterna manhã de domingo.
Podem cortar minha cabeça:
ela voltará à vida.
Sangue quente, cerveja fria,
meu coração dentro da miragem
que sou eu.
Ninguém pode me demitir do desespero
nem da inesquecível alegria
de ouvir Handel na manhã de domingo,
enquanto escrevo um poema.
Ninguém pode me demitir da noite
em que a musa dançava.
Ninguém pode abolir o silêncio
do meu amor em sono profundo.
Sangue quente, cerveja fria,
meu coração está cheio de tudo,
dança memória sono alegria poema.
Meu coração caminha no tempo
e morrerá no domingo.
Podem cortar minha cabeça.
não é fácil
February 05, 2004 Para minha mãe
Meu amigo, não é fácil. Não é fácil quando é apenas um incômodo, uma desconfiança, uma coisa que parece à-toa, “não deve ser nada”, “nem pense nisso”. Não é fácil quando você percebe que ela está um pouco diferente, fala menos, sorri menos, dorme menos. Não é fácil quando ela tem um ar cansado e, coisa rara, triste. Não é fácil quando ela olha para a montanha e adivinha o peso das rochas. Não é fácil quando aparece na testa uma ruga que você não tinha visto antes: vai ver, é uma ruga de preocupação.
**********
Eu sei que não é fácil. Não é fácil quando ela se toca e as mãos percebem que algo está diferente. Algo surgiu dentro dela – e não é ela. Algo silenciosamente disputa o espaço e corre com o tempo a favor. Você e ela sabem que existe alguma coisa lá, só não sabem que nome usar. Não é fácil saber que a coisa inominável está bem perto do coração.
**********
Não é fácil quando ela entra no laboratório, quando a agulha pica para tirar o sangue, quando o raio-x devassa as fronteiras da pele. Não é fácil ir trabalhar quando você sabe que ela está lá, sendo examinada. Não é fácil esperar e saber que ela está esperando. Não é fácil esperar junto com ela.
**********
Abrir o envelope, isso também não é fácil. E ir ao médico, um homem corpulento de bigode e cavanhaque, e ouvir a voz dele, e notar que ela já está chorando, e segurar o choro para que ela não fique mais nervosa. Fácil? Não.
**********
Não é fácil marcar o dia da operação, negociar com o plano de saúde, fazer as contas. Nunca foi nem será fácil entrar no quarto do hospital, e mais uma vez esperar que as horas passem, caramujos bêbados. Despedir-se dela antes da entrada na sala de cirurgia e esperar durante horas, enquanto ela está sendo operada e o mundo lá fora prossegue como se nada estivesse acontecendo – tudo isso não é nem um pouco fácil.
**********
Enquanto ela não volta, você reza. Mesmo se for ateu, você reza. E há ateus que viram crentes, e crentes que viram ateus, mas todos rezam e pedem a Deus que dê tudo certo.
**********
E acredite: dá tudo certo. Ela volta, já sem aquilo. Fraca, ferida, triste – ela volta. Preocupada, angustiada, cheia de dúvidas – ela volta. Ela volta e sabe que você está ali. Ela volta pra casa – e você está ali. Ela toma os remédios – e você está ali. Ela acorda no meio da noite – e você está ali. Ela abre o primeiro exame – e você está ali. O segundo, o terceiro, o décimo, o vigésimo-quinto – e você está ali.
**********
Na primeira consulta depois de tudo, o médico sorri confiante; na sétima, otimista; na enésima, distraído – e você está ali. De repente, você se assusta ao admitir para si mesmo que aquele homem corpulento, de bigode e cavanhaque, é um herói. E que o verdadeiro herói se define por fazer o que deve fazer.
**********
Um dia, anos depois, ela acorda e vê que passou. Mesmo antes de abrir os olhos, ela percebe que não pensou mais naquilo. Vieram outras preocupações, outras angústias, outras dúvidas. Vista da janela, a montanha parece bonita com suas pedras. A vida fere, enfraquece, entristece – mas também alegra, fortalece, cura. A cicatriz, quem diria, virou apenas uma linha da história, uma linha no peito, não mais nem menos que as linhas da palma da mão, ou as novas rugas na face.
Um dia, você e ela descobrem juntos que a vida não é fácil – mas é boa. E você não precisa dizer mais nada além de obrigado – essa palavra que também fica bem perto do coração.
o surfista do lago
February 04, 2004...
February 04, 2004Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
Hilda Hilst (1930-2004)
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
Hilda Hilst (1930-2004)
**********
justificativa
February 03, 2004
Galão e Yuge, me perdoem. Eu só não vou à Terça Tilt porque amanhã, às oito, tenho que entrevistar o Nobel da Paz de 1970. Juro que é verdade. O Nobel da Paz de 1970, no Hotel Sumatra.
Eu pergunto, meus amigos: isso lá é paz?
PS: Tava tudo programado, Terça Tilt, uma bela manhã de sono. Mas não deu. O pior é que vou fazer a entrevista em espanhol.
Eu pergunto, meus amigos: isso lá é paz?
PS: Tava tudo programado, Terça Tilt, uma bela manhã de sono. Mas não deu. O pior é que vou fazer a entrevista em espanhol.
canção de um homem do século XX
February 03, 2004Musa enigma,
paradoxo desconexo do meu dia,
eclipse artificial sem lua,
até quando perguntarei quem és?
No meu tempo, no meu século,
as chuvas não caíam para cima
e as telhas cobriam as casas.
Hoje, musa enigma, nem mesmo sei se é hoje
ou uma ilusão criada pelo chip
(oh claro gênio enganador).
Mas mesmo assim tolera, musa enigma,
tolera esta loucura ingênua
de querer achar que as coisas, grávidas de tempo,
sempre são as coisas.
Teu gozo, musa enigma,
fará despertar o mundo.
E o mundo é o enigma.
canção do homem ridículo
February 02, 2004
(depois de ver Dogville e Picasso)
você é ridículo
escrevendo
cão que late para o dono bêbado
psiquiatra que atende em meia hora
sem olhar nos olhos do doente
você é ridículo
no escuro do cinema
cego novato há mil anos
você é ridículo
cara
com suas mesuras sua diplomacia
seus acentos suas vírgulas
seu medo interminável
seu lenço
você é ridículo com suas letras
crônicas
ridículo
quando atualiza o blog
quando envia mensagens
e liga para ex-namoradas
no inferno das manhãs inexistentes
quando ri quando conta piadas e ri
é ridículo
pensando bem
ridículo
na vaidade no prazer
no desespero mudo
no egoísmo transformado em compaixão
ridículo no amor na morte
no tempo
ridículo na obsessão
ridículo
mãos do sonho
dentro da caverna
a dor do minotauro
e do cavalo louco
as mãos as mãos
as mãos ridículas
fora da caverna
inúteis as mãos
inútil ridículo
risível
você é ridículo
homem
nos poemas sem pé nem cabeça
na alegria das manhãs de sábado
na penumbra das quintas sem-lei
no mar que não tem
ridículo
na saúde e na doença
na colheita e na peste
no fruto deixado na mesa
nas pragas
no pecado original
sem sermão da montanha
sem o hino ao amor
no princípio era verbo
e você não havia
ridículo
ao acordar ridículo
ao deitar ridículo
ao exercer o ridículo direito
de ir e vir
ridículo na mancha
e na ignorância
aos pés da cruz
no monte sinai
na mansão dos mortos
em meca e medina
em jerusalém
no tibete
nos bares da vila nova
e da vila madalena
na cerveja que desce na ferida
ridículo na meia-vida
desta meia-idade
na volta na ida
ridículo além de tudo
ridículo feliz
você é ridículo
rapaz
mas guarde a lição
a única lição
que aprendeu aos 15 anos
viver com medo das coisas
sem medo do ridículo.
você é ridículo
escrevendo
cão que late para o dono bêbado
psiquiatra que atende em meia hora
sem olhar nos olhos do doente
você é ridículo
no escuro do cinema
cego novato há mil anos
você é ridículo
cara
com suas mesuras sua diplomacia
seus acentos suas vírgulas
seu medo interminável
seu lenço
você é ridículo com suas letras
crônicas
ridículo
quando atualiza o blog
quando envia mensagens
e liga para ex-namoradas
no inferno das manhãs inexistentes
quando ri quando conta piadas e ri
é ridículo
pensando bem
ridículo
na vaidade no prazer
no desespero mudo
no egoísmo transformado em compaixão
ridículo no amor na morte
no tempo
ridículo na obsessão
ridículo
mãos do sonho
dentro da caverna
a dor do minotauro
e do cavalo louco
as mãos as mãos
as mãos ridículas
fora da caverna
inúteis as mãos
inútil ridículo
risível
você é ridículo
homem
nos poemas sem pé nem cabeça
na alegria das manhãs de sábado
na penumbra das quintas sem-lei
no mar que não tem
ridículo
na saúde e na doença
na colheita e na peste
no fruto deixado na mesa
nas pragas
no pecado original
sem sermão da montanha
sem o hino ao amor
no princípio era verbo
e você não havia
ridículo
ao acordar ridículo
ao deitar ridículo
ao exercer o ridículo direito
de ir e vir
ridículo na mancha
e na ignorância
aos pés da cruz
no monte sinai
na mansão dos mortos
em meca e medina
em jerusalém
no tibete
nos bares da vila nova
e da vila madalena
na cerveja que desce na ferida
ridículo na meia-vida
desta meia-idade
na volta na ida
ridículo além de tudo
ridículo feliz
você é ridículo
rapaz
mas guarde a lição
a única lição
que aprendeu aos 15 anos
viver com medo das coisas
sem medo do ridículo.