Repórter das Coisas

Flaubert às vezes amargava dias para encontrar a palavra certa, semanas para achar a frase ideal. Demorou cinco anos para escrever o romance Madame Bovary, que tem cento e poucas páginas. Depois declarou: “Madame Bovary sou eu”. Ernest Hemingway gostava de frases curtas, diretas, no perigoso limite entre a beleza poética e frieza telegráfica. No fim da vida, Hemingway escrevia em pé, mas antes cumpria o ritual de apontar alguns lápis para entrar no ritmo. Ele começou no jornalismo; até entrou escondido no rabecão para fazer matéria de polícia. Sartre, quando se empolgava com algum tema, não parava mais: era capaz de escrever por 16 horas seguidas. Balzac, esse grande narrador do mundo jornalístico, dormia das 20 horas à meia-noite, quando seu criado o acordava. Então ele produzia textos madrugada afora, geralmente para publicação em jornais, e assim pagava as dívidas com amantes, restaurantes, senhorios. Ele tomava café para controlar o sono. O crítico V. S. Prichett calculou que o escritor francês tenha tomado 30 mil xícaras da café na vida inteira. Balzac era conservador político, o que não o impediu de ser o escritor preferido de Marx. Ex-colaborador do New York Times, Marx morreu à frente da escrivaninha, escrevendo.

Otto Lara Resende não levava bloco de anotações para entrevistas. Confiava na memória. Uma vez conversou por três horas com um político. O entrevistado se preocupou porque o jornalista não havia anotado nada. Otto chegou à redação, escreveu 120 linhas e a matéria ficou absolutamente fidedigna. Cláudio Abramo gostava de ver um repórter capaz de reescrever três, quatro, cinco vezes a mesma matéria. Abramo admirava um profissional que se emocionasse em texto; mas também apreciava um relato bem frio e distante. Rubem Braga conseguia escrever uma crônica antológica sem ter qualquer assunto. Olhava para a máquina, olhava para a janela e o assunto aparecia. Quanto o tema era absoluto e onipresente, como a Segunda Guerra Mundial, Braga ousava falar de uma garotinha ferida, em vez de mostrar o campo de batalha que explodia ali perto. Gabriel García Márquez acredita que o jornalismo pode fazer tudo que a literatura faz. Ele diz: “As fontes são as mesmas, os recursos e a linguagem são os mesmos”. A única diferença seria a seguinte: na ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho. No jornalismo, um único fato falso prejudica todo o trabalho.

Carlos Lacerda disse que escreveria um artigo de 100 linhas. De 50 linhas, ele não poderia; estava sem tempo. Para o ex-comunista Lacerda, o bom jornalista deveria responder: que? quem? como? onde? quando? por quê? Mas precisava também fazer uma sétima pergunta: e daí? José Hamilton Ribeiro foi cobrir a Guerra do Vietnã, pisou numa mina e perdeu uma perna. Anos depois perguntaram: “Mas não é difícil ser repórter com uma perna só?” Ele respondeu: “Com uma só é difícil, mas com quatro é pior”. Tolstói achava que era preciso retratar a aldeia para chegar ao universo. Fitzgerald dizia que a mente avançada pode conviver com duas idéias opostas. Carl Bernstein revelava que o principal desafio do jornalista é chegar à versão mais próxima da verdade. Millôr Fernandes sempre teve gana daquela história: uma imagem vale mil palavras. Ele desafiava: “Diga isso sem palavras!”

Publicado em 15 de janeiro de 2004 às 12:11 por briguet

Comentários

    • ótimos motivos e justificativas para continuar escrevendo
    • por bala
    • 15.Jan.2004 às 13:45 - Permalink - Reportar
    bala
  1. zero
    • umberto eco, em um café, por esses dias:
      “o objetivo hoje do escritor é escrever sem parar até morrer”.
    • por grota
    • 18.Jan.2004 às 14:14 - Permalink - Reportar
    grota
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