A meu pai, Paulo Lourenço.
O Sol é o meu pai,
ainda que eu pertença à noite.
O Sol é meu pai, o Sol de agora,
banhado pelo Sol de sempre.
Se não me restarem palavras,
se não me restar o ar,
se nem mesmo o Sol restar,
ainda assim o Sol será meu pai.
Do girassol retirei meus passos,
e todos meus dias nasceram solares.
O Sol separou as águas das águas,
e o vento dos ventos,
e o homem dos homens.
Por toda parte ele seguiu meus passos.
De nascer e de morrer vive o Sol,
o Sol que é meu pai
e pai de meus irmãos,
ainda que eu pertença à noite.
O Sol é minha fonte,
dele nada me separou,
nem a distância ou o silêncio.
O mínimo sangue,
o olho fechado,
os pés pisados
e a oculta víscera
sabem do Sol e dele vieram.
A terra nada seria.
O chão, impossível.
O céu, improvável.
Nenhuma cor no mundo
e a voz, de todo, inviável
– não fosse o pai, o Sol.
O Sol é nossa fonte,
nossa fonte e nosso pai,
e além dele outros sóis
maiores e perfeitos,
até o Sol supremo,
sem luzes e sem vento.
Pesadelos de dor,
pesadelos de gozo
nada seriam sem o Sol,
luzeiro sobre as coisas,
estrela masculina sobre os dias.
Há sempre um pai nascendo
em algum lugar do mundo.
A chuva não é nada,
nada é o trovão.
Nem a nuvem nem a lua,
nem o fogo ou o furacão.
Os cães latem inutilmente,
os galos cantam em harmonia,
e todos dias, sem piedade,
sobre nós vão desabando
as negras tempestades.
O Sol é o meu pai,
o Sol é minha tese.
O Sol é meu caminho,
o Sol é meu trabalho.
Por mais que eu avise,
só ganharei um raio.
O Sol fugiu à noite,
ao dia voltará.
Não tenho mais dialética,
nem ritmo, nem discurso,
nem letra, nem a linguagem,
nem palavra, nem a práxis.
Adiem todas as sombras.
Adiem todos os tempos.
O Sol dormiu à noite,
mas logo vai voltar.
O Sol é o meu pai,
ainda que eu seja a sombra.