Saio para o dia e vejo que eles estão por toda parte.
O que me surpreende nos vestibulandos não é o fato de que sempre andam em grupos; nem o acúmulo de hormônios nos apartamentos da cidade; nem a qualidade infantil de suas vozes; nem a triste garrafinha d´água; nem a mistura mortal de stress e balada; nem as faces das belas garotas crivadas de espinhas e dúvidas; nem o ar de superioridade e desconhecimento; nem as caminhadas sem rumo; nem a busca desesperada pelo macete milagroso das apostilas.
O que me surpreende nos vestibulandos é o fato de que eu já fui um deles.
Naquela noite de 1989, tive que dormir na cozinha, porque não havia mais lugar na casa. Os candidatos de hoje mal tinham nascido enquanto eu colocava meu edredom sobre os ladrilhos gelados, entre a pia e a geladeira.
Acontece que eu nasci naquele momento. Refletido no teto da cozinha, o futuro se avolumava no abismo. A partir de janeiro de 1989, eu estava condenado a conhecer o amor e a morte – face a face. Uma sentença que ainda não cumpri, no abismo desta cidade que eu tanto amo.
Essa é a verdadeira prova, e estou escrevendo até hoje.
Publicado em 10 de janeiro de 2004 às 14:09 por briguet
obrigado!