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Archive for January of 2004

o impertencido

January 30, 2004
Daqui,
da distância,
eu posso compor meu canto
e te dizer, como quem diz ao espelho:
o amor é a marca de tudo.

Eu não pertenço a este lugar,
não pertenço ao brilho nem ao luxo,
nem a estilo ou atitude.
Eu não pertenço à presença.

Mas mesmo não pertencendo,
e sendo tal impertencido,
celebro da distância o teu sentido.

carta de londrina

January 29, 2004

O amor pode matar aos poucos. E quem está com pressa? Leia a crônica.

é por isso que nós merecemos a quinta-sem-lei, sim senhor

January 29, 2004
Calma no Brasil, companheiros!!!

Acima, um flagrante de nosso caótico fechamento. Trabalho duro. O repórter de política Lúcio Horta ouve as últimas do Palácio Iguaçu, enquanto eu, Paulo Briguento, repórter de economia, tento decifrar a entrevista gravada de um financista. Já o repórter de cultura Ranulfo Pedreiro, o Preto, analisa os últimos embates do BBB.
Ao mesmo tempo, discutimos acirradamente a linha editorial do veículo.
Trabalho: esse é o verdadeiro Briguet Brother. Por isso, temos direito a relaxar. Vamos à Quinta Sem-Lei, sem dó nem piedade! É hoje, vocês-sabem-onde.

PS: A imagem está um pouco distorcida porque a fotógrafa Janaína Ávila também participava dos debates.

meu filho

January 28, 2004

Aqui, meu filho, era um bar e uma casa de família.
A casa era nos fundos; o bar, na frente.
Eu ficava bebendo com os amigos até o dia amanhecer.
Quando a gente resolvia ir embora, as crianças estavam indo pra escola.
Depois o bar fechou, e a família se mudou.
Abriram outro bar – onde eu também ia.
Esse também fechou.
Derrubaram tudo e construíram esta papelaria,
onde eu estou comprando esse caderno pra você ir à escola.

Meu filho, aqui era um banco. Todo dia tinha filas compridas.
Naquele tempo era gente que atendia a gente, não as máquinas.
Se era pior? Não sei.
Depois o banco fechou, foi vendido pra outro banco,
que acabou com esta agência e demitiu todos os funcionários.
Máquinas foram colocadas no lugar dos funcionários.
Alguns se mataram; outros mudaram de profissão.
De vez em quando eu vejo na rua algum dos antigos caixas do banco.
Olha lá um deles, meu filho. Virou camelô de CD pirata.
Já não sei o que é pior e o que é melhor, meu filho.
Vamos pra fila do banco.

Tá vendo uma casa aqui? Não? Pois eu vejo. Era uma república, meu filho.
Moraram aqui o Beto, o Baiano, o Moa´s, o Turco Baixaria, o Tetê, o Zé Ricardo, o Ernesto, a Angelita Angeloz, o Boto Cor de Rosa, o Valdir Lauro, o Marinho, o Rena, o Fernando, o Rosinaldo e mais um monte de gente. Até eu morei aqui.
A agenda de telefones era rabiscada na parede. O Preto e o Marcelo passavam boa parte do tempo aqui.
Tá vendo essa pracinha, meu filho?
Depois das festas, quando eu acordava e abria a janela, parecia que tinha nevado.
Mas não era neve. Eram os copos de plástico da noite passada.
Depois, a Liza Mirella morou ali com umas outras meninas.
Aí, quando as meninas saíram, uma construtora derrubou a casa e fez esse prédio que você tá vendo.
Meu filho, um dia nada disso será seu.

January 27, 2004
Meu ônibus pára em frente a uma clínica psiquiátrica.
Um dia, vou entrar.

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Chego à redação e Janaína Ávila (Janaína Ávida) me fotografa. Eu estou com a escova de dentes na mão; ela acaba de comprar sua máquina digital.

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Janaína logo vai a Paris, ser feliz.

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Paula Schütze me diz que logo virá à QSL. Belesma! Vou comprar um estoque de vódegas e vinhos Campo Larrrrgo (a última palavra deve ser pronunciada com sotaque londrinense).

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Olha, eu não sou nem de longe aquele fã da MPB que era aos 20 anos de idade (hum, cada geração tem o seu exclusivismo). Prefiro Bach e Debussy (ok, srs. críticos, podem me chamar de pedante).
Mas tem uma letra de Aldir Blanc que realmente é ouro maciço. Um palpite: Fábio Galão, malgré-lui, será uma espécie de Aldir Blanc do século XXI. Se quiser ver a letra...

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Quinta sem-lei

January 22, 2004
- Hoje tem?
- Tem.
- Você vai?
- Vou.

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Logo falarei do programa de TV que estou bolando: Briguet Brother. Com participação especial de Deus e dos Tipos.

Quase sempre eu penso

January 22, 2004
Minha nova crônica é uma viagem pelos caminhos do medo. Leia aqui.

January 21, 2004
Para quem gosta de teatro, aqui vai uma boa dica: “A História de Frank”, texto do jornalista e poeta Marcos Losnak, numa livre adaptação do original de Mary Shelley.

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Currupaco &*#@*!!!

January 20, 2004
Leio no Tablóide UOL (uma de minhas leituras preferidas): Charlie, o papagaio de sir Winston Churchill, completou 104 anos e continua xingando os nazistas.
Churchill foi raro exemplar de político interessante: tinha senso de humor, tomava umas e outras, escrevia bem e ainda ensinava papagaio a xingar.
Ou será que é Dia da Mentira no Hemisfério Norte?

a lenda do rei sadim

January 20, 2004
Estava eu no Calçadão de Londrina quando encontrei Nelson Capucho, que, além de poeta e jornalista, é um exímio contador de histórias. Eis que ele me convidou para um café e falou-me sobre a assustadora lenda do Rei Sadim.
Num passado distante e heróico, Sadim era irmão gêmeo do Rei Midas, aquele que tudo transformava em ouro. Da mesma forma que Vanessa Camargo em relação a Sandy nos dias de hoje, Sadim gostava de fazer exatamente o contrário do que Midas fazia.
Tudo que o Rei Sadim tocava virava m... (eu sempre quis escrever a palavra m...).
O passatempo preferido de Sadim era cortar cabeças. “Sempre que há uma decapitação, os outros súditos passam a valorizar mais a vida. Todo mundo vive cada momento como se fosse o último”, dizia Sadim.
O Rei Sadim se recusava a ser feliz. Sempre que algum súdito lhe dava um conselho, ambos perdiam a cabeça (Sadim, no sentido figurado; o súdito, no sentido literal).
Sádico muito antes da existência de Sade, Sadim tinha uma predileção especial por cortar as cabeças de súditos que tivessem o dom da palavra.
Melhor parar por aqui. Não quero aterrorizar os leitores deste blog. Se quiserem saber do resto da história, perguntem a algum contador.

que notícia...

January 19, 2004

Dez dos mais competentes jornalistas de Londrina perderam o emprego neste final de semana.

dieta

January 17, 2004
Saque pulo é bom pla calalho.

O grande Sílvio Demétrio me enviou uma nota que saiu no Tablóide UOL. Manjem só:

Chinês vive somente de saquê há 36 anos


Da Redação

Atenção, vocês que estão querendo dietas diferentes, especiais e, principalmente, que emagreçam: não tentem isso em casa! Um chinês de 71 anos sobrevive desde 1968 na província oriental chinesa de Zhejiang alimentando-se somente de... saquê!

Segundo o “China Daily”, que cita um outro jornal, o “Du Shi Kuai Bao”, o famélico cidadão descobriu que sofria de uma doença estomacal que não lhe permitiria ingerir qualquer alimento. Sem muitas opções, ele arriscou uma dieta única: no almoço, saquê; no jantar, idem.

Diário de um foca

January 15, 2004
E daí?

Voltei a ser repórter de jornal. Leia mais aqui.

January 15, 2004
Flaubert às vezes amargava dias para encontrar a palavra certa, semanas para achar a frase ideal. Demorou cinco anos para escrever o romance Madame Bovary, que tem cento e poucas páginas. Depois declarou: “Madame Bovary sou eu”. Ernest Hemingway gostava de frases curtas, diretas, no perigoso limite entre a beleza poética e frieza telegráfica. No fim da vida, Hemingway escrevia em pé, mas antes cumpria o ritual de apontar alguns lápis para entrar no ritmo. Ele começou no jornalismo; até entrou escondido no rabecão para fazer matéria de polícia. Sartre, quando se empolgava com algum tema, não parava mais: era capaz de escrever por 16 horas seguidas. Balzac, esse grande narrador do mundo jornalístico, dormia das 20 horas à meia-noite, quando seu criado o acordava. Então ele produzia textos madrugada afora, geralmente para publicação em jornais, e assim pagava as dívidas com amantes, restaurantes, senhorios. Ele tomava café para controlar o sono. O crítico V. S. Prichett calculou que o escritor francês tenha tomado 30 mil xícaras da café na vida inteira. Balzac era conservador político, o que não o impediu de ser o escritor preferido de Marx. Ex-colaborador do New York Times, Marx morreu à frente da escrivaninha, escrevendo.
Otto Lara Resende não levava bloco de anotações para entrevistas. Confiava na memória. Uma vez conversou por três horas com um político. O entrevistado se preocupou porque o jornalista não havia anotado nada. Otto chegou à redação, escreveu 120 linhas e a matéria ficou absolutamente fidedigna. Cláudio Abramo gostava de ver um repórter capaz de reescrever três, quatro, cinco vezes a mesma matéria. Abramo admirava um profissional que se emocionasse em texto; mas também apreciava um relato bem frio e distante. Rubem Braga conseguia escrever uma crônica antológica sem ter qualquer assunto. Olhava para a máquina, olhava para a janela e o assunto aparecia. Quanto o tema era absoluto e onipresente, como a Segunda Guerra Mundial, Braga ousava falar de uma garotinha ferida, em vez de mostrar o campo de batalha que explodia ali perto. Gabriel García Márquez acredita que o jornalismo pode fazer tudo que a literatura faz. Ele diz: “As fontes são as mesmas, os recursos e a linguagem são os mesmos”. A única diferença seria a seguinte: na ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho. No jornalismo, um único fato falso prejudica todo o trabalho.
Carlos Lacerda disse que escreveria um artigo de 100 linhas. De 50 linhas, ele não poderia; estava sem tempo. Para o ex-comunista Lacerda, o bom jornalista deveria responder: que? quem? como? onde? quando? por quê? Mas precisava também fazer uma sétima pergunta: e daí? José Hamilton Ribeiro foi cobrir a Guerra do Vietnã, pisou numa mina e perdeu uma perna. Anos depois perguntaram: “Mas não é difícil ser repórter com uma perna só?” Ele respondeu: “Com uma só é difícil, mas com quatro é pior”. Tolstói achava que era preciso retratar a aldeia para chegar ao universo. Fitzgerald dizia que a mente avançada pode conviver com duas idéias opostas. Carl Bernstein revelava que o principal desafio do jornalista é chegar à versão mais próxima da verdade. Millôr Fernandes sempre teve gana daquela história: uma imagem vale mil palavras. Ele desafiava: “Diga isso sem palavras!”

January 14, 2004
Escrevo para dominar o tempo.
Escrevo para os fantasmas.
Escrevo para o Sol.
Escrevo sobre a noite.
Escrevo para você.

January 14, 2004
Escrevo porque não sei fazer outra coisa.
Escrevo por vaidade.
Escrevo para ganhar dinheiro.
Escrevo para cumprir os prazos.
Escrevo para consolar minha ignorância.
Escrevo para falar sobre o que escrevo.
Escrevo porque gosto de ser lido.
Escrevo para comover.
Escrevo para aparecer.
Escrevo para ser amado.
Escrevo para tentar escrever melhor.
Escrevo para saber por que escrevo.
Escrevo para fingir que estou trabalhando (como agora).

BALADA SOLAR

January 13, 2004
A meu pai, Paulo Lourenço.


O Sol é o meu pai,
ainda que eu pertença à noite.
O Sol é meu pai, o Sol de agora,
banhado pelo Sol de sempre.

Se não me restarem palavras,
se não me restar o ar,
se nem mesmo o Sol restar,
ainda assim o Sol será meu pai.

Do girassol retirei meus passos,
e todos meus dias nasceram solares.

O Sol separou as águas das águas,
e o vento dos ventos,
e o homem dos homens.
Por toda parte ele seguiu meus passos.

De nascer e de morrer vive o Sol,
o Sol que é meu pai
e pai de meus irmãos,
ainda que eu pertença à noite.

O Sol é minha fonte,
dele nada me separou,
nem a distância ou o silêncio.

O mínimo sangue,
o olho fechado,
os pés pisados
e a oculta víscera
sabem do Sol e dele vieram.

A terra nada seria.
O chão, impossível.
O céu, improvável.
Nenhuma cor no mundo
e a voz, de todo, inviável
– não fosse o pai, o Sol.

O Sol é nossa fonte,
nossa fonte e nosso pai,
e além dele outros sóis
maiores e perfeitos,
até o Sol supremo,
sem luzes e sem vento.

Pesadelos de dor,
pesadelos de gozo
nada seriam sem o Sol,
luzeiro sobre as coisas,
estrela masculina sobre os dias.

Há sempre um pai nascendo
em algum lugar do mundo.
A chuva não é nada,
nada é o trovão.
Nem a nuvem nem a lua,
nem o fogo ou o furacão.

Os cães latem inutilmente,
os galos cantam em harmonia,
e todos dias, sem piedade,
sobre nós vão desabando
as negras tempestades.

O Sol é o meu pai,
o Sol é minha tese.
O Sol é meu caminho,
o Sol é meu trabalho.
Por mais que eu avise,
só ganharei um raio.

O Sol fugiu à noite,
ao dia voltará.
Não tenho mais dialética,
nem ritmo, nem discurso,
nem letra, nem a linguagem,
nem palavra, nem a práxis.
Adiem todas as sombras.
Adiem todos os tempos.
O Sol dormiu à noite,
mas logo vai voltar.

O Sol é o meu pai,
ainda que eu seja a sombra.

Crônica do eterno vestibular

January 10, 2004
Saio para o dia e vejo que eles estão por toda parte.
O que me surpreende nos vestibulandos não é o fato de que sempre andam em grupos; nem o acúmulo de hormônios nos apartamentos da cidade; nem a qualidade infantil de suas vozes; nem a triste garrafinha d´água; nem a mistura mortal de stress e balada; nem as faces das belas garotas crivadas de espinhas e dúvidas; nem o ar de superioridade e desconhecimento; nem as caminhadas sem rumo; nem a busca desesperada pelo macete milagroso das apostilas.
O que me surpreende nos vestibulandos é o fato de que eu já fui um deles.
Naquela noite de 1989, tive que dormir na cozinha, porque não havia mais lugar na casa. Os candidatos de hoje mal tinham nascido enquanto eu colocava meu edredom sobre os ladrilhos gelados, entre a pia e a geladeira.
Acontece que eu nasci naquele momento. Refletido no teto da cozinha, o futuro se avolumava no abismo. A partir de janeiro de 1989, eu estava condenado a conhecer o amor e a morte – face a face. Uma sentença que ainda não cumpri, no abismo desta cidade que eu tanto amo.
Essa é a verdadeira prova, e estou escrevendo até hoje.

A VOLTA DA QSL

January 08, 2004

Eu, Paulo Antônio Briguet Lourenço, jornalista, brasileiro, paulistano de nascimento, pé-vermelho por adoção, 33 anos e meio, fã de Bach e Juliette Binoche, solteiro mas namorando firme, apreciador nem um pouco moderado de cerveja, atualmente trabalhando no Jornal de Londrina, autor de crônicas absurdas e poemas perplexos, maníaco por falar sobre o tempo e o nada, ocasionalmente depressivo, em geral diplomático, portador do RG 19.182.286, onde uma foto minha aos 16 anos não se parece em nada comigo, declaro, a quem interessar possa, que vou hoje à Quinta Sem-Lei.
Há os que não gostam da QSL e do Bar Brasil, eu sei. Mas, e daí? Eu vou. Farei a minha quinta, ainda que só.

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Quando eu era moleque, em São Paulo, tinha um bar na Alameda Barão de Limeira onde meu pai ia comprar cerveja e refrigerantes. Havia muitas mesas de sinuca e um cartaz colorido na parede: FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO.
Se você ao bar em abril, o cartaz estava lá: FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO.
Se você fosse ao bar em fevereiro, em outubro, ou em julho; no inverno e na primavera; no final de semana ou em dias úteis – era sempre FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO.
Desconfio que o cartaz – uma forma sutil de enganar o tempo – ainda esteja na parede. Havia algo de eternidade ali.
Portanto, FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!

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Você é meu dia-e-noite. O décimo-terceiro mês do ano. O oitavo dia da semana. O lado mais rutilante da sombra. Uma semana composta apenas de Quintas Sem-Lei. A própria Lei. O agora, depois. O depois, agora.
Você, que lerá estas palavras no instante sem retorno.

ele

January 08, 2004


A canção do Louva-a-Deus também está na Carta de Londrina.

33 e 99

January 07, 2004
Lançamento do livro Amanhã Escreverei à Joaninha - 27.dez.2003 - publicada no Jornal de Londrina

Olhem bem para essa imagem. Briguet, 33. Jolinda, 99. A ignorância e a sabedoria, lado a lado.
A foto é do grande Roberto Custódio.

carta de londrina / é coisa nossa!

January 06, 2004
Marrr táa muuuuito boooom!

Leia aqui a incrível história do homem que virou Silvio Santos.
(E, se você não ganhar, quem ganha? É a carrrrta.)

A solidão é um banheiro de ônibus

January 03, 2004

Voltando de São Paulo, no ônibus das 23h30, Viação Garcia, eis que a Natureza me chama.
A Natureza é assim: não escolhe hora, local, circunstância. E quando fingimos ignorá-La, ai de nós! Tentei fingir-me de morto; o que por Ela quase fui.
Com você, como de hábito, a Natureza foi generosa. Você dormia, anjo sonhando com anjos. Louvados sejam.

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Depois de me dobrar 40 vezes feito um islâmico em direção a Meca, cheio de serpentes no abdômen, não tive escolha. Fui ao lugar mais solitário do mundo: o banheiro do ônibus da Viação Garcia.
Estranhamente limpo, o local parecia até me esperar. Uma vez no trono, passei aos desígnios. Poupo o leitor dos detalhes; ainda sou um cavalheiro.

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Digo apenas que quatro vezes a Natureza me chamou, e quatro vezes eu fui àquela câmara de torturas dotada de espelho, para melhor contemplar a própria miséria.

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À minha frente, uma plaqueta bilíngüe indicava: “Cesto de papéis – Waste Basket”. Foi quando eu me lembrei do poeta Eliot e “The Waste Land”. A Terra Árida? A Terra Desolada? A Terra Estéril? Os tradutores não se entendem. Porém, se Eliot tivesse conhecido o banheiro do ônibus da Viação Garcia, São Paulo-Londrina, 23h30, a tradução correta do poema seria A Terra Solitária.

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Só sei, e torno a dizer, que a Natureza me chamou quatro vezes àquele lugar. E quatro vezes eu fui.

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De volta à poltrona, pela quarta e última vez, o dia nasceu às 5h32, enquanto você dormia profundamente. Uma visão perfeita da serenidade. E as serpentes me deixaram, de volta às profundezas delas mesmas.

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Só acredito no enigma e no amor. Mas o amor é, em si, o enigma por excelência.

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Sabe quando alguém chega atrasado ao cinema e fica perdido na escuridão, esperando que os olhos se acostumem? Eu sou esse cara. Tateando no escuro do meu próprio desconhecimento. Ignorância, para os íntimos.

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Eu e você – eu pela segunda vez em uma semana – vimos “As Invasões Bárbaras”. Um belo filme do canadense Denys Arcand (caríssimo Grota: para mim, já é o melhor do ano, e duvido que apareça outro nos próximos 363 dias). A história do professor Remy, que agoniza achando que nada fez de importante na vida, me lembrou “A Morte de Ivan Ilitch”, a novela de Tolstói. Um grande personagem: o filho de Remy.

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“O Declínio do Império Americano” marcou minha adolescência. “As Invasões Bárbaras” é um bálsamo para os 33. Essas as minhas tatuagens.

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Há outras: ir com meus amigos Zé e Carla tomar chope no Astor é sempre uma experiência inesquecível – palavras, pensamentos e risadas – tudo que a vida pede.
Ave, Zé. Ave, Carla. Recomendações à pequena Mila.

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A exposição de Gaudí no Masp é uma falácia. Arquitetura é coisa para a gente ver de perto. Lá não havia senão cacos e rabiscos. Gaudí não merece.
E dé real!
No entanto, valeu a visita ao Museu, para ver o acervo organizado por Chateaubriand (tem Picasso, Renoir, Bosch, Ingres, Van Gogh, com algumas controvérsias sobre autenticidade, mas tudo bem) e dar um pulinho na exposição São Paulo 3D, com fotos antigas e atuais da Cidade. Ver uma imagem de 1920 em terceira dimensão é aproximar-se um pouco mais da quarta – o tempo. (O vô Briguet bem podia ser um daqueles moleques da foto...)

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E que a Natureza nos seja leve em 2004. Nos 363 dias que restam.

cabeça de vento

January 01, 2004
Estou em São Paulo, asfalto natal. Vamos ver Satyricon, daqui a pouco.
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No vento da minha cabeça
apareceu um rato
e um homem morto apareceu.
Como também apareceram
bombas e um carnaval,
apareceram pés cortados
e risos, risos apareceram.

No vento da minha cabeça
apareceu alguma serpente,
a modelo de peitos grandes
apareceu, e apareceram
doze mulheres perdidas,
um xará enciumado
- tantos loucos apareceram.

Apareceu, inesperado,
no vento da minha cabeça,
um vento que não era meu,
um nada que eu não conhecia
de um gramado que não cresceu.
De uma floresta de tempo,
nunca antes localizada,
onde nascem outros ventos
e cabeças já cortadas.

No vento da minha cabeça
nada mais apareceu.
E se falarem de vento
pode crer que não fui eu.