Repórter das Coisas

o homem da farmácia

Alceno mostra sua carteira de trabalho. De 1938.


Grande homem é o homem comum: aquele que passa.

Alceno Segantin morreu ontem em Londrina. Estava com 79 anos, e passou 65 trabalhando em farmácia. Há uns dois meses, eu o entrevistei para um jornal sindical. Parecia lúcido e forte.

A morte do velho farmacêutico me deixou triste na manhã nublada de segunda-feira. E não há Neosaldina que resolva.

Numa pequena homenagem a Alceno, publico aqui o seu perfil.Perfil


RECEITA DE VIDA


Pioneiro Alceno Segantin é um sinônimo de farmácia na história de Londrina



A mais antiga anotação na carteira de trabalho de Alceno Segantin data de 9 de outubro de 1938. Ele tinha 14 anos e acabava de chegar com os pais e os irmãos a Londrina, vindo de Catanduva (SP). Seu primeiro emprego foi na Farmácia Nossa Senhora Aparecida, de Edgar Paes de Melo, na esquina da Avenida Rio de Janeiro com a Rua Maranhão, onde hoje fica o Edifício América, o prédio do “Relojão”. Em 1940, passaria a atuar na Farmácia São João, de Pedro Nolasco, localizada no atual prédio das Casas Pernambucanas. Foram 65 anos dedicados ao trabalho em farmácia, inicialmente como funcionário e, a partir de 1951, como proprietário da Farmácia Central, que ele vendeu agora em 2003 para aposentar-se.

Alceno Segantin é sinônimo de farmácia na história de Londrina. Muito antes da era dos plantões, trabalhar dia e noite era uma rotina para ele. O veterano farmacêutico se lembra de um surto de maleita, em 1942, quando numa noite em claro fez 2 mil cápsulas de cloridrato de quinino. “Naquela época, 80% os medicamentos eram manipulados”, conta Alceno. Literalmente, ele aprendeu o ofício da farmacêutico usando as próprias mãos, dosando os sais que levavam cura às mais diversas doenças. “A gente tinha que saber dissolver cada sal – era uma arte.”

Ao longo de sua carreira, Alceno testemunhou grandes transformações do século XX. Uma delas foi a chegada da penicilina ao mercado. “Foi uma fábula para todo mundo. Antes, uma pneumonia demorava de 15 a 20 dias para curar. Se curasse, porque muita gente morria antes. A gonorréia demorava um mês. Com a penicilina, essas doenças passaram a ser curadas em 24 horas.”

E 24 horas eram a jornada de trabalho de Alceno Segantin, principalmente depois de se tornar proprietário da Farmácia Central. Naquele tempo, ele morava nos fundos do estabelecimento. Depois das 22 horas, mal Alceno colocava a cabeça no travesseiro, já havia gente batendo na sua janela. “Eu atendia praticamente a noite toda”, relembra. Após mais de dez anos nessa rotina, Alceno desabafou com o médico Romão Sessak: “Eu não agüento mais. Vou vender a farmácia”. O amigo retrucou: “Nada disso, Alceno. Você vai é mudar daí dos fundos”. Dito e feito. Em 1963, Alceno Segantin mudou-se para o Edifício Bosque, onde pôde descansar às noites em tranqüilidade.

Tranqüilidade, em termos: durante a primeira madrugada na nova residência, foi despertado pelo leiteiro que sofrera um acidente de trabalho – a carroça que usava para entregar leite passara em cima do pé dele. De carroça mesmo, Alceno acompanhou o leiteiro até a Santa Casa. “Montamos na carroça e fomos lá para fazer uma radiografia.”


Grandes lutas


A integridade profissional de Alceno Segantin lhe valeu milhares de amizades ao longo dos 65 anos de atuação: dos ilustres anônimos, como o leiteiro, a personagens famosos como José Garcia Molina, Nicola Pagan, José Garcia Villar, Orlando Mayrink Góes, José Hosken de Novaes e Farid Libos.

Do pediatra Farid Libos, o veterano farmacêutico grava uma imagem impressionante. O médico receitou uma dose de Neocilin a uma criança, mas houve reação alérgica. Farid Libos, que morava perto da Farmácia Central, pegou a criança no colo e foi correndo da farmácia até a Santa Casa. A atitude heróica salvou a vida da criança. “Farid Libos era um grande homem, um grande médico.”

Grandes homens se fazem nas grandes lutas. Alceno Segantin também teve atuação decisiva ajudando a criar, no início dos anos 60, a Associação das Farmácias de Londrina, que daria origem ao Sinfarlon, do qual ele foi presidente na gestão 1961-62. Ele se recorda especialmente da campanha pelo provisionamento dos antigos oficiais farmacêuticos, na década de 70, ao lado do deputado federal Ulysses Guimarães (que era farmacêutico) e de Dalberto Carvalho Neves. Houve diversas mobilizações em favor da causa do provisionamento, até a vitória final. Em 1974, Alceno Segantin obteve o seu provisionamento. “Eu já era oficial de farmácia desde 59.”

Prestes a completar 80 anos de idade, Alceno Segantin pode olhar para o passado com um sentimento de missão cumprida. Para as novas gerações, ele deixa uma receita que aprendeu com os seus primeiros mestres – Edgar Paes de Melo e Pedro Nolasco –, eficaz desde o tempo em que os oficiais de farmácia andavam de roupa branca sobre a terra vermelha, essa receita deve ser aplicada todos os dias e todas as noites, dos dois lados do balcão. E tem um nome simples, uma palavra que Alceno usa com conhecimento de causa: ética.

Publicado em 08 de dezembro de 2003 às 11:34 por briguet

Comentários

  1. kenji
    • Acho bonita a história desse bravo senhor, mesmo porque me chamo Fátima Segantin, com prarentes em Londrina, e gostaria muito de saber se esse senhor tem a ver comigo.
      Meu pai se chamava Evaristo Atilio Segantin, quem sabe ele não fazia parte de meus entes queridos, não sei muito das famílias Segantin, porque fui criada pela familia Agostini.
      Gostaria que me retornassem com uma ótima notícia.
      obrigada
    • por Fátima Segantin
    • 28.Out.2004 às 16:18 - Permalink - Reportar
    Fátima Segantin
    • Ola Fatima!
      Obrigada por ter lido esta historia tao linda, inspirante sobre essa maravilhosa que foi meu avo Alceno.

      Tenho muito orgulho de ter tido a opurtunidade de conviver e ser neta deste homem tao humilde e, ao mesmo tempo tao nobre.
      Sinto muito sua falta.
      Obrigada pelo comentario.
      Luciana Segantin
    • por Luciana Segantin
    • 01.Nov.2004 às 14:43 - Permalink - Reportar
    Luciana Segantin
    • Ola Fatima!
      Obrigada por ter lido esta historia tao linda, inspirante sobre essa maravilhosa que foi meu avo Alceno.

      Tenho muito orgulho de ter tido a opurtunidade de conviver e ser neta deste homem tao humilde e, ao mesmo tempo tao nobre.
      Sinto muito sua falta.
      Obrigada pelo comentario.
      Luciana Segantin
    • por Luciana Segantin
    • 01.Nov.2004 às 14:43 - Permalink - Reportar
    Luciana Segantin
    • Ola Fatima!
      Obrigada por ter lido esta historia tao linda, inspirante sobre essa maravilhosa que foi meu avo Alceno.

      Tenho muito orgulho de ter tido a opurtunidade de conviver e ser neta deste homem tao humilde e, ao mesmo tempo tao nobre.
      Sinto muito sua falta.
      Obrigada pelo comentario.
      Luciana Segantin
    • por Luciana Segantin
    • 01.Nov.2004 às 14:44 - Permalink - Reportar
    Luciana Segantin
    • Ola Fatima!
      Obrigada por ter lido esta historia tao linda, inspirante sobre essa maravilhosa que foi meu avo Alceno.

      Tenho muito orgulho de ter tido a opurtunidade de conviver e ser neta deste homem tao humilde e, ao mesmo tempo tao nobre.
      Sinto muito sua falta.
      Obrigada pelo comentario.
      Luciana Segantin
    • por Luciana Segantin
    • 01.Nov.2004 às 14:44 - Permalink - Reportar
    Luciana Segantin
    • Ola Fatima!
      Obrigada por ter lido esta historia tao linda, inspirante sobre essa maravilhosa que foi meu avo Alceno.

      Tenho muito orgulho de ter tido a opurtunidade de conviver e ser neta deste homem tao humilde e, ao mesmo tempo tao nobre.
      Sinto muito sua falta.
      Obrigada pelo comentario.
      Luciana Segantin
    • por Luciana Segantin
    • 01.Nov.2004 às 14:44 - Permalink - Reportar
    Luciana Segantin
    • Eu adorei que você me retornou Luciana, espero breve retorno e desta vez, entrarei em contato mais rápido é só você me enviar um e-mail para um de meus e-mails abaixo
      bjos
    • por Fátima Segantin
    • 06.Out.2005 às 16:07 - Permalink - Reportar
    Fátima Segantin
    • O Sr Alceno Segantin foi o segundo pai que eu tive, trabalhei muitos anos com ele na Farmacia Central.Ele me ensinou muitas coisas que até os dias de hoje levo muito em consideração.Ele era muito amigo de meu pai PETRONILIO que trabalhava na Mayrink Goes.Atraves do Sr Alceno conheci muita gente boa na cidade!Hoje com 40 anos , depois de ter trabalhado 5 anos com ele(79 a 84) e mais 20 anos na Equipe
      Atacadista, sou diretor Cultural da AREL em Londrina onde possuo um time que a quatro anos em homenagem ao meu segundo pai se chama CENTRAL F.C.Abraços a toda familia,
      A Dona Aninha que ja faz muito tempo que nao a vejo!
      Felicidades.
    • por
    • 10.Dez.2005 às 15:52 - Permalink - Reportar
    77439b7dfe67464cf40c6b262895cbfd?s=80&r=pg&d=monsterid
    • Conheci ele pouco....mas conheço muito familiares proximo a ele...sei q foi um empresario exemplar e um grande homem na vida!!! Abraços a todos Segantin...em especial aos meu grandes amigos..Toninho, Rodrigo, Serginho!!
    • por Luiz Cesar
    • 22.Nov.2007 às 09:01 - Permalink - Reportar
    Luiz Cesar
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