Ame as palavras simples.
Água, vento, Deus, amor.
Nelas moram segredos.
Por que duram tanto?
Como sobreviveram?
Todos sabem. Ninguém sabe.
Ame as palavras curtas.
Sol, luz, eu, cão.
Ame as palavras belas.
Tempo, morte, fogo, mulher.
Mas não se deixe enganar
pela beleza,
a pequenez,
a simplicidade das palavras.
Elas são canibalescas
e se entredevoram.
Daí temos
que amar as palavras é difícil.
Engolir a vida.
Ame as palavras,
mesmo quando as bocas
estiverem cheias de carne.
Mesmo quando os nervos
forem estendidos ao varal.
(Sendo eles o varal.)
Ame as palavras como a um filho
que hoje teria dez anos
se você o tivesse deixado
nascer.
Todo cuidado com elas.
Palavras merecem noites em claro
e dias de expectativa.
Elas crescem,
mas continuam
sendo crianças para nós.
Ame as palavras como a alguém.
Se tiver sorte, aprenderá a amar alguém
como às palavras.
(A boca cheia de carne. Humana.)
Hoje à noite eu vou tomar
meu coquetel de predicados.
No júri do papel,
toda sentença é morte.
Amo as palavras.
E sei que amar as palavras
é apenas uma forma
(a boca cheia de carne)
De amar o mundo.
Publicado em 07 de dezembro de 2003 às 22:13 por briguet