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Archive for December of 2003

convite aos tipos

December 26, 2003
O livro da dona Jolinda.

Quem disse que não acontece nada entre o Natal e o Ano Novo?
Neste sábado, tem o lançamento do livro da dona Jolinda, essa velhinha simpática aí da foto. Ela faz 99 anos amanhã.
Um tal de Paulo Briguet escutou as histórias da dona Jolinda e as transformou no livro. Mas a verdadeira autora é ela.
Apareça. Afinal, não é todo dia que alguém faz 99 anos e lança um livro!

LANÇAMENTO DO LIVRO “Amanhã Escreverei à Joaninha”, de Jolinda Fenelon e Paulo Briguet
LOCAL: Museu de Arte de Londrina (antiga Rodoviária)
DATA: 27 de dezembro (sábado)
HORÁRIO: 17 horas

carta de londrina

December 23, 2003
Tomei uma baita chuva antes de chegar a este computador. Tudo para postar a minha crônica da semana, que fala sobre o escritor Domingos Pellegrini.
É duro ser cronista e não saber dirigir.

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Eu também queria mostrar isto que acabei de escrever, e segue aí embaixo.

Nova canção do louva-a-deus

December 23, 2003
Louvada seja a pedra infalível
que sobe da terra e edifica a montanha,
mas também seja louvada a pedra no sapato,
que, ao sair da palmilha e ganhar o mundo,
nos deixa livres.

Louvados sejam os que se rebelam,
pois serão acalmados.
Louvados os que se contentam,
porque edificam a alegria de tudo
e caminham, caminham com seus sapatos
até o cume da montanha de pedra.

Os que se alegram com a admiração das rochas
e das flores entre as rochas,
os que fazem a contemplação dos ponteiros,
grandes e pequenos,
e das ampulhetas,
de areia e de vento,
os que se deleitam na visão
do Sol e dos elementos,
os que vivem a demarcação dos espaços
infinitos entre as coisas e o nada
- louvados sejam, porque sabem o que fazem.

Aqueles que amam, louvados sejam,
porque nenhum topo do mundo é mais feroz
e selvagem que a queda de um amor danado,
que a pedra de um medo pisado e esquecido
entre as fendas do rochedo.
Louvados sejam os que correm o risco de ser
pedra entre as pedras, flor da morte em flores mortas,
nu entre os nus - oh louvados sejam.

Louvados sejam os que rezam
para viver, curar, sanar, resolver,
e também os que rezam para morrer,
pois se rezam sabem louvar,
e se sabem louvar louvados sejam.

Louvados sejam
os que não são louváveis,
os que se escondem na pedra
ou refugiam-se no escuro dos sapatos,
ou procuram flores mortas no caminho,
louvados sejam
os que não sabem o que é louvar,
mas louvam mesmo assim,
porque até o final dos tempos
haverá essa loucura do louvar,
esta loucura de louvar as coisas,
de louvar as gentes, de louvar os seres,
esta loucura de louvar a louvação
- e assim louvada seja, e assim sejam louvados.

(Atibaia, manhã de 23 de dezembro)

canção do louva-a-deus

December 21, 2003
Louvados sejam
o livro amigo sempre à mão,
o telefone que dá linha
e o copo d´água no meio da noite.

Louvados sejam
os peitos e lábios da garota tímida,
o incenso na república de madeira
e o vento fresco na noite de verão.
Louvada a luz que bate na varanda.
Louvado teu sono no dia de folga,
quando não somos escravos.

Os que recolhem mendigos na noite,
louvados sejam,
e os que sabem tocar piano.

Louvados sejam um bar bem iluminado
e outro, muito escuro.
Louvado seja o bar enigma da Vila Nova.

Louvados sejam as adolescentes
e as nonagenárias,
as neuróticas e as apátridas,
louvado seja o Zé Ninguém.

Louvada seja a menina de piercing e pernas cruzadas,
louvada seja a civilidade na hora de pagar a conta
ou verificar os estragos do acidente na esquina.
Louvados sejam o indie rock e a música de Cuba,
mas também seja louvado Bach.

Seja louvada a fúria,
seja louvada a forma,
a manhã de domingo
e a tarde de stress.
A obscuridade, por Deus,
seja louvada.
Seja louvado o tempo,
seja louvada a senda
que a nada nos levou
pois não era louvada.

Louvado seja o louva-a-deus,
e Deus seja louvado.

a morte da quinta sem-lei

December 19, 2003

Fica decretado, a partir de hoje, que a semana terá apenas 6 (seis) dias.
Morreu a Quinta Sem-Lei. Revogam-se as disposições em contrário.
Toda ciência humana não passa de ignorância diante dos desígnios.
Da quarta, passar-se-á diretamente para a sexta. Sem choro ou ranger de dentes.
Quinta Sem-Lei? Tinha, mas acabou.
Da quarta, pular para a sexta. Ou sofrer as conseqüências.
Pelo menos até o ano que vem. Porque a Ele tudo é possível. Até mesmo que uma quinta volte a fazer parte do tempo.
O referido é verdade e dou fé.

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Rancho da Saudade particular: “Olimpíadas 2004... Riiiio candidato!” (Galvão Bueno).

December 19, 2003
Carrego esta noite dentro de mim.
Poema às avessas carrego,
e canto esta noite dentro de mim.

Pensa, quando acordares, na noite
que levo guardada no peito,
a soma de todas as sombras do vento.

Ouve, na hora do ocaso, a noite
que canta meu nome em silêncio,
noite de sangues e batimentos.

Entende esta noite dentro de mim,
estranho idioma de um homem só,
que a noite que canta tão baixo assim
um dia espera vencer o Sol.

Adia esta noite, mulher da luz,
adia esta noite com teu amor.
Até o infinito, adia esta noite,
a noite que levo, a noite que sou.

dingonbéu, dingonbéu, acabou papel

December 18, 2003
Você acreditaria neste cidadão?

Ridículo? Ridículo.
Pois eu nem ligo.
O responsável pela obra de arte acima é Aguinaldo Tognin, velho companheiro de Folha, especialista em sacanear fotos minhas. Vagabundo, salafrário, seeeeem-vergonha.
Aproveitando o clima, dê uma olhada aqui na minha Crônica de Natal.

PS: Hoje é QSL...

ecletismo

December 17, 2003

Depois da Terça Tilt (grande Galão!),
depois da Quarta Cubana (grande Janaína!),
depois da Quinta Sem-Lei,
eu vou instituir o Domingo Bach.

Desabafo hepático

December 15, 2003
Meu chefe, Paulo Prometeu Briguet, fazendo a corrida Bar Brasil-Bar Secreto.

Olá. Aqui quem fala é o fígado do Paulo Briguet.
Aproveitando que hoje é segunda-feira, e estou com pouco serviço (pela primeira vez em vários dias), gostaria de fazer um apelo aos leitores deste blog:
PAREM! Parem de convidar meu dono para festas e encontros etílicos! Estou ficando velho, já passei dos 30, e desde os 15 o cara não me dá folga.

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Essa tal de Festa dos Anos 80, organizada pela Gabi e o Guilherme, foi um Deus-nos-acuda. Felizmente, a srta. Rosângela Vale, namorada do Briguet, levou-o embora antes do último carregamento de cerveja. Atitude lúcida! Graças a Deus, o coração ajuda o fígado às vezes. Porque se fosse para contar com o cérebro, esse mentecapto, eu já estaria a sete palmos. O cérebro não pensa no que faz.

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O pior é que fígado não dói, só a cabeça. Mas, pra ela, existe a Neolsaldina. Pra mim, um chazinho de boldo, e olha lá. É injustiça com o trabalhador!

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Vocês, que deram tantas gargalhadas com o revival dos anos 80, saibam que, desde o tempo em que Michael Jackson era negro, a Fernanda Abreu era adolescente e o Phil Collins tinha cabelo, eu suporto, calado, os líquidos ingeridos por meu proprietário.

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Acontece que antes eu era mais jovem – suportava até mesmo os humores trotskistas do sujeito, na época um militante socialista de bolsinha, boina, broche e sandália de couro.
Meu Deus, eu quero uma folga! Tempus fugit.

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Ninguém dá ouvidos a um pobre órgão sobrecarregado. Dei uma olhada nos e-mails do Briguet, e sei que vem mais trabalho por aí: Terça Tilt, de Fábio Galão e Claudinho Yuge; Quarta Cubana, de Janaína Ávila; e a famigerada Quinta Sem-Lei, de todos os vagabundos e salafrários. Socorro, srta. Rosângela! Assim eu não agüento. Maldito ecletismo musical e social! Vou roubar os antigos panfletos do Briguet e organizar uma greve, que ele vai ver o que é bom pra tosse.

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Lembram a história do Prometeu, que tomou o fogo e se deu mal com o fígado? Não digam que não avisei.

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PS: Fígado também tem memória. Eu não consigo tirar esta maldita música da cabeça: “Abelardo Barbosa / Está com tudo e não está prosa / Menino levado da breca / Chacrinha é Chacrinha com a sua discoteca”. Culpa do Guilherme, da Gabi, do Pafu, sei lá...

meu diploma

December 13, 2003
De pele animal ou vegetal?

Quatro anos pra nascer;
morreu de morte matada.
Mas, na verdade, confesso:
valer, nunca valeu nada.

No curso de jornalismo,
fui uma enrolação só.
Antes dele – desconfio –
eu escrevia melhor.

Meu diploma está preso
na gaveta lá do quarto,
onde jaz entre panfletos,
livros, revistas, retratos.

Diploma? Não sou contra,
muito menos a favor.
Ele não me explica o tempo,
nem a morte ou o amor.

Não acho que agora vamos
perder o chão e o piso;
já fomos tão pisoteados
que pisar não é mais preciso.

A sentença do juiz
para mim não fará mal:
no dia em que eu for preso,
vou pra cela especial.

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Hoje, na festa do Guilherme e da Gabi, irei vestido de Paulo Briguet nos anos 80. Avante, companheiros! A luta continua.

cidade, vida

December 10, 2003
Tela de Paula Dalberto (2003)
No aniversário de Londrina, uma crônica para a cidade. Leia aqui.

Cesabiaqueeunaosabiaassobiar?

December 10, 2003
Mutley, faça alguma coisa!

Oi, tudo bem? Meu nome é Paulo. E o seu? Eu venho sempre aqui.
Gosto de tudo. Só não gosto de assobios.
Sou tão avesso a eles que nem sei assobiar.
Se você me encontrar na rua, no bar ou em outro lugar, diga meu nome: como eu já disse, é Paulo. Ou então, Briguet (pronuncia-se Briguê, mas pode falar Briguete, eu não ligo). Se você errar o nome – se preferir Ranulfo, João Rezende, Pafu, Zé, Marcelo Rocha, Grota ou Frazão – não tem importância não. Só não assobie, mordeDeus.
É tudo que eu peço. Pode xingar, chamar de canalha, rotular de sacripanta, espinafrar (sempre quis usar esse verbo: espinafrar). As meninas no Bar Brasil me consideram tio delas e eu nem ligo. Assobiar é que é o problema.
Diga não ao assobio: faça algo melhor com o ar. Respire-o, por exemplo.
Deixe o assobio aos pássaros da manhã.
O ar é sagrado. Evite assobiá-lo.
(Eu peço tão pouco. E não me atendem.)

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Um amigo me pergunta por que eu não escrevo sobre a morte. Mas eu só escrevo sobre ela.

dialética dos cactos

December 09, 2003
um dos meus.
As únicas plantas de meu apartamento são dois cactos. Ao contrário do dono, eles precisam de pouco líquido.

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Todos os cactos são plantas do deserto – vestígios do passado.

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Antes de ser cidade, esta terra era floresta. Antes de ser floresta, era um deserto. E os ancestrais dos meus cactos estavam lá.

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Na última Quinta Sem-Lei, encontrei Moraes – ou Deus – ou Homem Estupendo – ou Liver Lover – no Bar Brasil, e ele me disse que o meu blog é a arte de escrever sobre nada. Não sei se é elogio ou crítica. Mas as frases de Moraes – ou de Deus – ou do Homem Estupendo – ou de Liver Lover – são assim: ambíguas.
Oráculos? Profecias? Desígnios? Leis?

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Escrevo sobre nada? A culpa é dos cactos.

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Não nascem flores em meus cactos. Quando nascer uma flor, talvez eu escreva sobre alguma coisa. Por enquanto, este blog continua sendo existencialista, embora eu nunca tenha lido um livro de filosofia até o fim.
“Existencialista com toda a razão / Só faz o que manda o seu coração” (Braguinha).

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Há quem tenha árvores de Natal. Eu tenho cactos. Eles falam mais sobre o Filho do Homem – aquele que sobreviveu ao deserto.

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Os cactos viram o dia nascer em fog na Terra Vermelha. Para eles, o Deserto Vermelho.

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Vou aguar meus cactos e conversar com eles, em busca de assunto. Mas eles não dizem nada: esperam no deserto das coisas.

o homem da farmácia

December 08, 2003
Alceno mostra sua carteira de trabalho. De 1938.

Grande homem é o homem comum: aquele que passa.
Alceno Segantin morreu ontem em Londrina. Estava com 79 anos, e passou 65 trabalhando em farmácia. Há uns dois meses, eu o entrevistei para um jornal sindical. Parecia lúcido e forte.
A morte do velho farmacêutico me deixou triste na manhã nublada de segunda-feira. E não há Neosaldina que resolva.
Numa pequena homenagem a Alceno, publico aqui o seu perfil.


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ame as palavras

December 07, 2003

Ame as palavras simples.
Água, vento, Deus, amor.

Nelas moram segredos.

Por que duram tanto?
Como sobreviveram?

Todos sabem. Ninguém sabe.

Ame as palavras curtas.
Sol, luz, eu, cão.

Ame as palavras belas.
Tempo, morte, fogo, mulher.

Mas não se deixe enganar
pela beleza,
a pequenez,
a simplicidade das palavras.

Elas são canibalescas
e se entredevoram.

Daí temos
que amar as palavras é difícil.
Engolir a vida.

Ame as palavras,
mesmo quando as bocas
estiverem cheias de carne.
Mesmo quando os nervos
forem estendidos ao varal.

(Sendo eles o varal.)

Ame as palavras como a um filho
que hoje teria dez anos
se você o tivesse deixado
nascer.

Todo cuidado com elas.
Palavras merecem noites em claro
e dias de expectativa.

Elas crescem,
mas continuam
sendo crianças para nós.

Ame as palavras como a alguém.
Se tiver sorte, aprenderá a amar alguém
como às palavras.

(A boca cheia de carne. Humana.)

Hoje à noite eu vou tomar
meu coquetel de predicados.

No júri do papel,
toda sentença é morte.

Amo as palavras.
E sei que amar as palavras
é apenas uma forma
(a boca cheia de carne)
De amar o mundo.

é chato

December 05, 2003

Imagine como deve ser chato para os Eagles ter que tocar “Hotel Califórnia” há 30 anos. E a letra é comprida barbaridade. Se a gente não agüenta mais a música, imagine os caras.

Imagine como deve ser chato para o Pelé não poder ir até a esquina sem dar um autógrafo.

Imagine como deve ser chata a vida de carteiro, andando no sol e na chuva, fugindo de cachorro mala.

Imagine como deve ser chato limpar o mictório do Bar Brasil depois da Quinta Sem-Lei.

Imagine a vergonha dos pais daquele pessoal que não se classificou para o Big Brother, mas mesmo assim teve seus ridículos vídeos exibidos para o Brasil inteiro. Especialmente os pais daquela moça do topless.

Imagine como deve ser chato entrar em um blog para ler alguma coisa que presta e dar de cara com estas bobagens.

**********

Posso falar um minuto? Eu quero um blog da Karla Matida. Eu quero um blog do Lúcio Flávio Moura. Eu quero um blog do Pafu. Este último já tem até nome: Blog do Tipinho. Ou: É tão feinho que chega a ser bonitinho.

abaixo as senhas!

December 04, 2003
A senha nada mais é do que uma forma de provar que você é você mesmo. Leia a minha crônica anti-senhas.

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Bom-dia, exaustos amigos.
Bom-dia, boa-tarde, boa-noite.
Que vocês afastem e aniquilem
tudo aquilo que cansa,
tudo aquilo que dói.

Que vocês perguntem ao ar
se ele é vento
e perguntem ao tempo
quando, quando.

Bom-dia, amigos, amigos,
amigos do peito e do copo,
Marcelo Rocha e Preto,
Rogério Carlos Fischer,
Simone Pavin e Grota,
Ricardo Nélson e Sílvia,
Pafu, Zé e Barroso,
Gaetaninho,
Lélio César, Ganchão,
Karla Matida, Orelha.
Janaína, Cláudio Yuge,
Galão, tiparia – bom-dia!

Bom-dia, amigos e desconhecidos.
Bom-dia, por exemplo,
profeta Elias, amigo de blog,
que odeia meus escritos.
(É que não estou aqui
pra escrever bem
nem para convencer.
Estou aqui para dar bom-dia.)

Bom-dia, Incréu; bom-dia, Laura Najara;
Bom-dia, Zé Eduardo Vieira;
bom-dia, Goethe; bom-dia, Aristóteles;
bom-dia a vocês que eu nunca li
por falta de tempo ou inteligência.

Bom-dia a tudo que eu amo
ou amarei.
Sobretudo bom-dia, mulher,
mulher de sonho e de vida.

Que vocês atendam
ao chamado das coisas,
ao chamado das cores e formas
do dia.

Que vocês perguntem
se e quando acabam
as palavras que cansam
– estas.

A vocês que me leram ou não,
bom-dia.
Bom-dia, boa-tarde, boa-noite.

sauna ouro verde

December 03, 2003
Nossa, querida, esse Yamandú Costa é quente mesmo!

Na segunda-feira vi em plena ação um homem capaz de freqüentar duas reuniões ao mesmo tempo. Não tenho outra maneira de definir: esse cara é um artista.

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Eu, que vinha apenas sendo repórter das coisas, posso agora voltar a ser repórter de outras coisas. Estou com saudade da redação de jornal. A gente tem saudade de cada coisa!

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Yamandú Costa, agradecendo ao público no concerto de terça-feira, se disse feliz por estar numa “sauna maravilhosa”. É o Teatro Ouro Verde, em pleno verão infernal de Londrina, sem ar condicionado.

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Já se sentiu como gado? Não? Então vá a algum concerto ou peça concorridos no Ouro Verde. Bovinos destinados ao abate ficam menos apertados do que o público no saguão do teatro. A solução para diferenciar seres humanos de bois seria simples: numerar os ingressos.

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O concerto de Yamandú e da Orquestra Solistas de Londrina foi excelente. Mesmo com o calor e o sufoco.

frase do dia

December 02, 2003
“O fanatismo consiste em redobrar o esforço quando se esqueceu do objetivo.”
(George Santayana)

sonata de insônia

December 01, 2003
A Marcelo Rocha


Retrato - Francis Bacon

Envia-me a noite, à noite,
na noite em que o sono não vem.

Amanhã vou trabalhar.
Não posso me dar ao luxo
desta festa involuntária,
desta vigília soturna,
desta orgia de um só homem,
desta coisa, desta farra:
amanhã vou trabalhar.

Não quero rolar no leito,
ó força que move os olhos.
Assim não posso ficar;
assim não tem mais jeito.
Envia-me a noite logo.

Ó tu que estás no governo,
controle da escuridão,
afasta as rimas infames,
produtos de um sono falhado.
Livra-me das olheiras,
das leituras com dor de cabeça.
Manda-me o sono puro,
ainda que eu não o mereça.
E se fores mesmo justo,
manda-me o sono sétimo.
Depois pagarei com juros
a hora dormida de empréstimo.

Envia-me, envia-me a noite,
a noite silenciosa.
Já não sei se a peço em verso,
já não sei se a peço em prosa.
Já percorri em pensamento
todos os cômodos da casa.
Investiguei a cozinha.
Pesquisei o armário.
Monitorei a vizinha.
Do quarto, fiz um calvário.
Sem esquecer a inspeção
na torneirinha do gás.
De tantos metros quadrados,
sobrou esta cama sem paz.

Envia-me a noite, sim.
Envia-me a noite já.
Envia, que estou em via
de me desesperar.
E se tu não enviares
como irei me arranjar?
Por que a mim não envias
o sono que o mundo tem?
Este desmaio noturno,
que é dado a cada ser.
Esta morte provisória,
sem a qual ninguém se vê.
Envia!

Assim eu sou nesta noite
(estás careca de ouvir).
Preso ao azul de mim mesmo,
imóvel e sempre aqui;
atado a uma sentença
que não me deixa dormir.
Acordado e patético,
ouço roncos em liturgia;
um só código genético
– dentro da noite vazia.
Envia-me a noite a tempo;
envia-me neste momento.

Enquanto o sono não vem,
percebo coisas estranhas.
O cão de não sei quem,
que a esta noite abocanha.
Automóveis solitários
na frenagem dos pneus.
E maquinais operários
no abraço de Morfeu.
Bebês a sair das mães,
dentro de alguns instantes.
A sonata feita por Brahms,
em fúria concertante.
Calado à espera de nada,
ouço flores veridianas.
Cássias, Simones e Amandas.
Paulas, Lúcias e Anas.

Não pense que sou desonesto,
ó tu que do tempo és o rei:
envia-me o resto da noite,
que à noite devolverei.
Envia-me a noite e essência,
tu que alimentas os fados.
Tem a santa paciência!
Por inteiro, aos pedaços.
Envia-me, tu que avanças
nos campos, ruas e horas.
Envia-me um só tanto
de tanta noite lá fora.
Envia-me o que é de mentira,
envia-me o que é de fato,
envia-me sem demora!

Se meu pai acordar aqui;
se a porta das portas abrir;
se o porteiro trouxer o jornal;
se a noite for sensacional;
se algo, dentro do sono,
mostrar que tem sono lá
– envia-me, pois, a noite
que a noite não pôde enviar.

Tem piedade do tempo
que amanhã me faltará.
Tem piedade por bem.
Tem piedade por mal.
Tem piedade da boca
que um bocejo vai reprimir.
Tem piedade da idéia
que desde já esqueci.
Tem piedade da noite,
Tem piedade de mim.

Hoje vou trabalhar.
Não posso me dar ao luxo
de mais rimas sem porquê.
Envia-me a noite e o mundo,
que o dia já vai nascer.