Me tornei cachorro porque farejo todos os objetos domésticos. Meus ouvidos agora percebem sons agudos que me fazem uivar. Tento cavar o chão do apartamento. Lato (sempre quis conjugar esse verbo em primeira pessoa).
Me tornei pássaro desde que começou a taquicardia. Se vier algum cobrador, reagirei a bicadas.
Me tornei macaco – já não era?
Me tornei cavalo ao enlouquecer. Perdi os modos. Não posso mais tomar vinho em copos de cristal. Não desço as escadas do meu prédio. Galopo no corredor; acabo de quebrar um espelho. Quero ler Anna Karenina.
Me tornei jacaré – não consigo atender ao telefone.
Me tornei urso desde que hibernei. E foi na noite retrasada.
Me tornei burro, que ótimo! Jamais alguém viu um burro morto.
Me tornei boi – esta ruminação nada tem a ver com pensamentos.
Me tornei formiga desde que ouvi o canto das cigarras na noite subtropical. Desmentindo a fábula, há um coro delas.
Me tornei pre...
Me tornei pombo, rato com asas.
Me tornei a célula só que existe dentro de mim – e de você também.
Me tornei isto: animal dos domingos.
Publicado em 30 de novembro de 2003 às 12:12 por briguet