Repórter das Coisas

relatório das metamorfoses matinais

Me tornei cachorro porque farejo todos os objetos domésticos. Meus ouvidos agora percebem sons agudos que me fazem uivar. Tento cavar o chão do apartamento. Lato (sempre quis conjugar esse verbo em primeira pessoa).


Me tornei pássaro desde que começou a taquicardia. Se vier algum cobrador, reagirei a bicadas.


Me tornei macaco – já não era?


Me tornei cavalo ao enlouquecer. Perdi os modos. Não posso mais tomar vinho em copos de cristal. Não desço as escadas do meu prédio. Galopo no corredor; acabo de quebrar um espelho. Quero ler Anna Karenina.


Me tornei jacaré – não consigo atender ao telefone.


Me tornei urso desde que hibernei. E foi na noite retrasada.


Me tornei burro, que ótimo! Jamais alguém viu um burro morto.


Me tornei boi – esta ruminação nada tem a ver com pensamentos.


Me tornei formiga desde que ouvi o canto das cigarras na noite subtropical. Desmentindo a fábula, há um coro delas.


Me tornei pre...


Me tornei pombo, rato com asas.


Me tornei a célula só que existe dentro de mim – e de você também.


Me tornei isto: animal dos domingos.

Publicado em 30 de novembro de 2003 às 12:12 por briguet

Comentários

  1. nicodemos
  2. tildrem
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

"Não contavam com minha astúúúcia!"
(Milton Friedman with lasers)

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!