O tempo contido nas coisas nos devassa.
Há uma Antigüidade em tudo,
na mínima poeira do quarto,
nos livros esquecidos no fundo da estante,
nos marcadores que ninguém sabe onde.
E uma Idade Média na varanda,
uma Revolução Francesa no ventilador,
Cristo em cada madeira,
Moisés nas pedras do sapato,
Buda no almoço de hoje,
o homem que inventou a roda ao telefone,
dez mil reis decapitados e cortesãs abandonadas
nas moedas e fichas telefônicas,
nos muros do cemitério de Père-Lachaise.
Os cactos do deserto
sobrevivem no vaso doméstico.
No jornal de ontem, espalhado pela sala,
os antepassados falam
com outras combinações de letras.
E as nebulosas de formas excêntricas
na eletricidade do cérebro,
com multidões de almas em cada osso,
e na carne toda
um átomo que se transforma em átimo.
Todos nós estamos no Jardim de Getsêmani.
E esta angústia que sentimos, Pai,
é o tempo contido nas plantas, no mundo, nas coisas.