Repórter das Coisas

jardim de getsêmani

“Remembrance of a Garden”, Paul Klee, 1914.


O tempo contido nas coisas nos devassa.

Há uma Antigüidade em tudo,

na mínima poeira do quarto,

nos livros esquecidos no fundo da estante,

nos marcadores que ninguém sabe onde.


E uma Idade Média na varanda,

uma Revolução Francesa no ventilador,

Cristo em cada madeira,

Moisés nas pedras do sapato,

Buda no almoço de hoje,

o homem que inventou a roda ao telefone,

dez mil reis decapitados e cortesãs abandonadas

nas moedas e fichas telefônicas,

nos muros do cemitério de Père-Lachaise.


Os cactos do deserto

sobrevivem no vaso doméstico.

No jornal de ontem, espalhado pela sala,

os antepassados falam

com outras combinações de letras.


E as nebulosas de formas excêntricas

na eletricidade do cérebro,

com multidões de almas em cada osso,

e na carne toda

um átomo que se transforma em átimo.


Todos nós estamos no Jardim de Getsêmani.

E esta angústia que sentimos, Pai,

é o tempo contido nas plantas, no mundo, nas coisas.

Publicado em 24 de novembro de 2003 às 13:17 por briguet

Comentários

    • O tempo nos corta em postas. Há um homem subindo as escadas e ele vem da década de 40. Eu o vejo. Ele traz sob as axilas uma coleção de calendários riscados. Dezenas de novembros extintos, transformados em bifes pelo tempo. E nós que fazemos vigília no Jardim de Getsêmani, nós apenas oramos. Pai, afasta essa tristeza que pesa no ar do Horto das Oliveiras. O mundo dorme um sono alheio ao tempo que nos corrói.
    • por zero
    • 24.Nov.2003 às 23:06 - Permalink - Reportar
    zero
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(Milton Friedman with lasers)

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