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Archive for November of 2003

relatório das metamorfoses matinais

November 30, 2003


Me tornei cachorro porque farejo todos os objetos domésticos. Meus ouvidos agora percebem sons agudos que me fazem uivar. Tento cavar o chão do apartamento. Lato (sempre quis conjugar esse verbo em primeira pessoa).

Me tornei pássaro desde que começou a taquicardia. Se vier algum cobrador, reagirei a bicadas.

Me tornei macaco – já não era?

Me tornei cavalo ao enlouquecer. Perdi os modos. Não posso mais tomar vinho em copos de cristal. Não desço as escadas do meu prédio. Galopo no corredor; acabo de quebrar um espelho. Quero ler Anna Karenina.

Me tornei jacaré – não consigo atender ao telefone.

Me tornei urso desde que hibernei. E foi na noite retrasada.

Me tornei burro, que ótimo! Jamais alguém viu um burro morto.

Me tornei boi – esta ruminação nada tem a ver com pensamentos.

Me tornei formiga desde que ouvi o canto das cigarras na noite subtropical. Desmentindo a fábula, há um coro delas.

Me tornei pre...

Me tornei pombo, rato com asas.

Me tornei a célula só que existe dentro de mim – e de você também.

Me tornei isto: animal dos domingos.

November 29, 2003

a linguagem dos animais

Como se a tez perdesse a tez
e o caos parisse o caos,
um inseto passeia
nas páginas do livro
e um cão chora de medo
na madrugada ausente.

notas do dia seguinte

November 28, 2003

Mais uma vez, a quinta sem-lei cobra seu preço no dia seguinte – em chá de boldo e Neosaldina.

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O comprimido escuro e a xícara fumegante me contemplam com o cinismo natural dos objetos. Rapidamente, tomo o remédio e o chá.

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A sensação de estar andando em círculos. Por vezes acredito que estou preso numa eterna sexta-feira.

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Esse dia não existe. Tenho cem mil deveres, mas volto sempre ao mesmo lugar: este.

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Acordo com um telefonema de trabalho. Dante não previu este círculo.

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A dor é esperta como o Pica-Pau e o Pernalonga. Quando temos certeza de que a vencemos, ela volta a incomodar. That´s all, folks!

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Por dois segundos, há um corte de energia elétrica. O suficiente para deixar o rádio-relógio piscando em 12:00. O que me faz acreditar ainda mais na circularidade da sexta-feira.

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O ventilador de teto; o rótulo da Skol; o balcão do Bar Brasil; o desenho das mãos no ar durante a conversa com Moraes e Cláudio Yuge; as rodas do carro de Fábio Galão; os antigos LPs na vitrola; o ponto-e-vírgula piscando eternamente; as garotas de olhos acesos: tudo comprova que o mundo é circular. Acompanhamos a rotação do planeta.

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Leio outra vez “No Caminho de Swann”. A estranha sensação de percorrer o mesmo caminho – os longos parágrafos proustianos – na pele de outra pessoa. Não consigo entender o jovem que leu este mesmo livro há doze anos.

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Estou com medo de ir até a sala. Lá está a mesa do tampo de vidro. É o portal para um mundo paralelo. Dentro dele, uma eterna quinta sem-lei – sem chá de boldo, sem Neosaldina.
That´s all, folks!

November 27, 2003
Acordar para a loucura.
Acordar, mais que abrir os olhos,
na loucura de elementos.

À tentativa de razão, acordar,
sem conhecimento ou rumo.
Sem saber em que lugar.

Fúria. Acordar em plena fúria
dos sentidos, em tormento.

Acordar, compreender,
acordar para a loucura,
despertar rumo à paixão
e morrer em pensamento.

Fúria. Abrir os olhos, fúria.

crônica de futebol?

November 25, 2003
De volta à Primeira Divisão. Dever cumprido.

Quando o Palmeiras foi rebaixado para a Segunda Divisão, eu fiz uma crônica. Agora, que ele voltou à Primeira, fiz outra. Mas juro que não é texto de torcedor babaca. Pelo contrário, o herói da crônica é um grande corintiano. Leia aqui.

jardim de getsêmani

November 24, 2003
“Remembrance of a Garden”, Paul Klee, 1914.

O tempo contido nas coisas nos devassa.
Há uma Antigüidade em tudo,
na mínima poeira do quarto,
nos livros esquecidos no fundo da estante,
nos marcadores que ninguém sabe onde.

E uma Idade Média na varanda,
uma Revolução Francesa no ventilador,
Cristo em cada madeira,
Moisés nas pedras do sapato,
Buda no almoço de hoje,
o homem que inventou a roda ao telefone,
dez mil reis decapitados e cortesãs abandonadas
nas moedas e fichas telefônicas,
nos muros do cemitério de Père-Lachaise.

Os cactos do deserto
sobrevivem no vaso doméstico.
No jornal de ontem, espalhado pela sala,
os antepassados falam
com outras combinações de letras.

E as nebulosas de formas excêntricas
na eletricidade do cérebro,
com multidões de almas em cada osso,
e na carne toda
um átomo que se transforma em átimo.

Todos nós estamos no Jardim de Getsêmani.
E esta angústia que sentimos, Pai,
é o tempo contido nas plantas, no mundo, nas coisas.

enquanto este dia não acaba

November 23, 2003
A cada domingo, o ser humano envelhece três segundas-feiras.

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Este intervalo de tempo, relógio de areia vazio.

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O domingo já era domingo quando eu morava na república da Rua Humaitá. Hoje, onde era o meu quarto - a minha cama! -, há um elevador. Deus.

sempre aos domingos (o eterno retorno)

November 23, 2003

Domingo, a maior das obsessões.

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Não é um dia – é um trauma.

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O silêncio dominical traz o mistério da morte – a mancha que carregamos dentro de nós.

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Domingo – passagem do princípio do prazer ao princípio da realidade (quando descobrimos que o mundo não existe só para nós).

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O inconsciente assume as rédeas do domingo.

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Beber aos domingos é uma experiência letal.

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Vento e vaidade dormem e sonham nas tardes de domingo.

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O domingo é o eterno retorno em forma de calendário.

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Trabalhar aos domingos: a pior escravidão.

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Domingo, vírus do tempo. Incurável.

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Vermelho na folhinha – domingo, sangue dos dias.

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Escute o domingo.

autocrítica

November 22, 2003
“Vê se o meu blog tem foto com ventinho...
Ah, passa amanhã!”
(Meu amigo Marcelo Rocha, no Bar Brasil, com toda a razão.)



Sei que não tenho sido um bom filho – ligo pouco, sou ausente, não organizo meus documentos, não pago previdência privada, não controlo minhas despesas, dou mil desculpas para não visitar meus pais. E tenho tanta sorte, eles são tão bons, dedicados, preocupam-se tanto comigo. Também não tenho sido um bom irmão, pelos mesmos motivos.
Sei que não tenho sido um bom amigo – não telefono, não respondo aos e-mails, esqueço compromissos, falo bobagens em profusão, passo longos períodos sem dar sinal de vida.
Um bom namorado, estou longe de ser – bebo demais, freqüentemente viro Massey Ferguson, tenho crises de melancolia, vivo fazendo pegadinhas bobas. E você é a melhor namorada do sistema solar.
Tampouco bom padrinho. Vejo o Danilo, em média, uma vez por mês, talvez nem isso. Justamente agora, ele está aprendendo a falar, sabe até dizer o meu nome, e pergunta o nome de todas as coisas. Ontem, ele chorou porque eu lhe dei uma bronca. É, eu sei que não sou um bom padrinho.
Um bom cronista? Estou longe de ser. Admito, como já apontaram meus argutos críticos, que às vezes sirvo-me de fórmulas fáceis e tolas. Mas o problema central está na dificuldade de libertar a voz do coração.
Não sou um bom jornalista. Não tenho objetividade nas veias, nem consigo me interessar pelo mundo objetivo. E tenho um ritmo lento, nenhuma esperteza. Mesmo assim, vou tentando: preciso ganhar a vida. Agora, em vez de escrever este post confessional (como, evidentemente, são todos os posts), eu deveria estar redigindo o material do Festival de Jazz, ou da Orquestra de Câmara.
Um bom cristão... Há quanto tempo não leio São Paulo? E São João? E Jó? Há quanto tempo não tenho um ato de caridade, fé, esperança (os três pilares do cristianismo)?
Enfim, sou um tipo lamentável. Sei que minha autocrítica não foi das melhores, mas as manhãs de sábado existem para isso. A solução, como diz meu amigo Ricardo Nélson, é continuar amando e escrevendo, escrevendo e amando. E que o domingo nos seja leve.

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Se você quiser saber se um cara está bêbado, peça para ele falar a palavra EVIDENTEMENTE.

os vizinhos

November 20, 2003
James Stewart e Grace Kelly viram coisas terríveis na vizinhança.

Eu já tive vizinhos de todos os tipos. E você? Leia mais sobre o assunto na minha crônica da semana.

fortuna crítica

November 19, 2003
Tenho por regra não responder a comentários. Mas, para maior satisfação de nossos clientes e colaboradores, decidi republicar algumas observações críticas sobre os textos deste blog.
Desde já, peço a autorização dos autores para usá-las na orelha do meu livro que, sabe-se lá quando, algum editor maluco vai publicar.
Confiram a argúcia de meus críticos:

“Ah, Briguet. É que você é foda, MESMO. Vide seus dois últimos textos: no dos cavalos, você pega o sujeito, os tais Cavalos Loucos, e começa a enumerar um monte de baboseira nonsense. Sim, e daí? Eu também faço, meu porteiro também pode fazê-lo, se quisesse enganar alguém. Olha: Sapos Chapados, Sapos Chapados não têm cartão de crédito, Sapos Chapados não bebem chopp no shopping, Sapos Chapados estão por aí, a luz do sol, ao clarão da lua, Sapos Chapados descansam nas sarjetas

...aaaaaahhhhh...

e o penúltimo: “é tão letal que vem a ser ingênuo, é tão sagaz que vem a ser otário, é tão gentil que vem a ser feroz,
é tão sutil que vem a ser grosseiro.”

mas poderia ser: é tão xarope que vem a ser sacana, é tão fingidor que vem a ser procheneta, é tão pedante que vem a ser nojento, é tão Briguet que vem a ser um Purgante.

E você ainda não quer que seus críticos venham com palavrões? Ah, Briguet: VAI SE FODER, VAI...”
(21 de novembro de 2003)


“Realmente, o Briguet é uma lenda, e escreve com uma simplicidade impressionante. Deve ser por isso que ele é, simplesmente, um baita de um xarope pedante e enrolador.”
(21 de novembro de 2003)


“Caralho! Esse rapaz se supera! Que bosta de texto! Que xaropada sem tamanho! Alguém vai ter coragem de falar que ele manda bem?”
(18 de novembro de 2003)

“Coitado do sol, tachado de pedante num texto que, em si, é uma ode ao pedantismo. Tsc, tsc...”
(20 de outubro de 2003)


“Goethe e Aristóteles não são assim figurinhas simples que qualquer proletário poderia encarná-los facilmente... os gênios da raça são efemeros e raros... mas se abandonas a troca, a dialética, é porque estás cansado ou porque já não te sustentas mais... e vergonha na cara deve ser um termo bem usual em Londrina mas que não quer dizer nada... leia a bíblia e, ao contrário do Jovem Werther, fique esperando a morte chegar.”
(16 de outubro de 2003)

“Que bosta.”
(18 de outubro de 2003)

“Aprende a escrever. E deixa de ser melancólica, perdedor, mala, pseudo-intelectual, brocha e chota. Londrina merece mais. Fora Briguet, Pellegrini, Bortolotto, Grota e todos os maus escritores e adolescentes temporãos da pequena Londres. Não gosto de você. Pessoas tristes merecem morrer e não encher o saco de uma cidade inteira.”
(12 de outubro de 2003)

“Eu não tenho mais idade para as cantadas de bêbados, principalmente bêbados com mais de 30 anos, que perdem a compostura na QSL. Não tenho mais idade para discursos intelectualóides de qualquer natureza. E, finalmente, não tenho mais idade para a frivolidade humana. Sai pra lá.”
(7 de outubro de 2003)

“eu não tenho mais idade para acreditar em Deus; nem para ouvir que alguém não consegue passar um dia bom sem ler um trecho da Bíblia... e se o trecho for daqueles “soem as trombetas e desabem as muralhas de Jericó” ou “depois de mandar rãs, depois de tingir de sangue as águas, Ele fez com que morressem todos os primogênitos” ou, ainda, “Sansão derrubou as colunas e com ele pereceram tantos, mais tantos, filisteus...”. aí só vai ser um dia bom para alguém que tem simpatia pelos EUA...”
(7 de outubro de 2003)

“Que bosta.”
(11 de agosto de 2003)

cavalos loucos

November 18, 2003
(Cena de Londrina)

Eis o cavalo da carroça,
inerte na calçada,
olhando para frente apenas:
por dentro, alimenta a loucura.

Mesmo calados, cavalos loucos clamam por vingança.
Cavalos loucos não toleram o Pecado Original.
Cavalos loucos conversam em línguas mortas
e esquecem o que comeram no almoço de ontem.
De amar não sabem nada, loucos.

Cavalos loucos pedem Conhaque Presidente no Bar Brasil.
Cavalos loucos imitam desenhos animados antigos.
Cavalos loucos, loucos atravessam a sala de estar vazia
e desconsideram a presença de fantasmas
no elevador de serviço,
nas docas do shopping center,
no lavabo dos junkies.

Cavalos loucos acordam sem olhar para o espelho
- querem galopar e saltar dentro dele.
No entanto, cavalos loucos
não galopam
nem saltam
nem relincham:
cavalos loucos gritam.

Nós também somos cavalos loucos,
atualizando nossos diários,
digitando nossas senhas,
acionando nossos cartões,
escutando a música do modem.

Cavalos loucos também somos,
na estrada solta, no labor soturno,
condenados a nós mesmos
somos, cavalos loucos,
irmãos de cavalos loucos,
cavalos loucos e imperdoáveis,
cavalos de corrida e letargia,
cavalos de noite e de dia,
cavalos loucos, loucos
trucidando a terra
a coice e galope,
– a terra, mãe-égua dos tolos.

E por assim dizer, cavalos loucos,
sei que estarei diante de vocês:
eu também um cavalo insano
na morte imensa que apeia
do centauro infame do rumo.

qualificação do tempo

November 17, 2003
(sobre uma frase de Adriana Yumi)

O tempo, visto pelo Hubble.

é tão absurdo que chega a ser previsível
é tão cruel que chega a ser generoso
é tão banal que chega a ser sublime
é tão estúpido que chega a ser sereno



é tão letal que vem a ser ingênuo
é tão sagaz que vem a ser otário
é tão gentil que vem a ser feroz
é tão sutil que vem a ser grosseiro



de tantos anos se tornou mais jovem
de tantas causas não se fez mais nobre
de tantos elos desprezou correntes
de tanto tempo acabará pra sempre

trio parada dura

November 14, 2003
Existem três Paulos Briguet. O Briguet de quinta-feira, o Briguet de sexta-feira e o Briguet da transição.
O Briguet de quinta-feira está animado. Tem sede de cerveja.
O Briguet de sexta-feira está derrubado. Tem sede de água e chá de boldo.
O Briguet de quinta-feira canta salmos de alegria.
O Briguet de sexta-feira canta os lamentos de Jó.
O Briguet de quinta-feira lê o Eclesiastes.
O Briguet de sexta-feira faz promessa para Santa Neosaldina.
É preciso chamar o Briguet de quinta e o Briguet de sexta para que, juntos, eles digam alguma verdade ao insano Briguet da transição.

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Se ninguém fingisse estar trabalhando, não existiriam os blogs.

pseudocrônica

November 13, 2003


Magritte pintou um cachimbo e disse que aquilo não era um cachimbo. Bukowski escreveu um poema e disse que não era um poema. Por que eu não posso fazer uma crônica e dizer que não é uma crônica? Leia aqui.

efeitos do eclipse

November 10, 2003
Lua sangrenta

1.

No sábado, eu e você estávamos na sombra que a Terra lançou no espaço, transformando a Lua em sangue.

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2.

A Lua é de sangue,
os cães ficaram loucos.
Não acho mais a casa
onde moro há tantos anos.

Não sei mais onde moro,
não vi mais o meu quarto,
não abram as janelas,
os cães ficaram loucos.

Nem portas, nem janelas
se abrem nesta casa.
A Lua é de sangue,
o corpo, uma ferida.

O corpo é uma ferida
à sombra desta pele.
À sombra desta casa,
as noites são de sangue.

Não sei mais onde as portas,
não vi mais as janelas.
Na casa estou trancado
há bem mais de cem anos.

Não moro mais em casa,
não olho mais pra Lua,
não ouço mais o grito
dos cães dentro da pele.

E a noite ficou louca,
e a casa virou sombra.
Eu também sou a sombra
que faz da Lua sangue.

pega ladrão

November 07, 2003
Essa camisa não é minha.

“Um escritor não sente raiva: ele se vinga.”
(Norman Mailer)


Depois de uma deliciosa semana de férias, tive um aborrecimento ao voltar para Londrina: roubaram várias roupas da minha mala de viagem. É bem verdade que eu facilitei o trabalho do ladrão, esquecendo a mala no lado de fora do apartamento. O gatuno passou por ali e teve o cuidado de escolher algumas peças. Quando me dei conta, a mala que viera tão gorducha estava raquítica.
É. Sentirei falta de algumas roupas que o ladrão levou.
A camisa azul que ganhei da minha irmã me deixava mais magro e jovem.
A calça preta de microfibra era uma companheira ideal para qualquer ocasião – do jantar romântico ao boteco da esquina.
Versatilidade também era o forte dos sapatos de couro. Quantos quilômetros não caminhei com eles?
Deixará saudades a camisa cor de vinho que eu usei na capa do meu livro.
Durante muitas noites, sonharei com a blusa de lã vermelha que a menina da loja me vendeu.
Nada se compara, no entanto, ao drama de perder meu lenço azul marinho. Onde encontrarei um igual àquele?
Eu acredito na vida das coisas. Para mim, todos os objetos têm uma história, uma personalidade, um tempo. De certa forma, o sujeito que roubou minhas roupas também levou um pouco de mim com elas. Até mesmo nas meias e cuecas.
O ladrão ficará menos pançudo e mais moço com a camisa azul que ganhei da Fernanda.
A calça de microfibra facilitará os movimentos do assaltante em futuros delitos.
Os sapatos de couro serão eficientes nas fugas.
A camisa cor de vinho fará o ladrão se inspirar para escrever um livro: “Repórter das Coisas Alheias”.
À noite, ele terá sonhos surrealistas com a moça que me vendeu a blusa de lã vermelha.
O lenço azul marinho enxugará milhares de gotas de suor furtivo. Esse mundo do crime é muito tenso.
Quanto às meias e cuecas, eu estava mesmo precisando comprar umas novas. Nesse ponto, o amigo do alheio me fez um favor.
Para falar a verdade, não me sinto tão roubado: meus livros e meu caderno de anotações estavam em outra mala. Você, mulher, continua sendo você.
Eu sei que só deve ser perdoado quem pede perdão, mas não consigo sentir raiva do cavalheiro que esvaziou minha mala de viagem. Desejo boa sorte e melhores dias a ele. A solidariedade se explica: de certa forma, como cronista, eu também furto as coisas, as pessoas, o mundo. Escrever é roubar a si mesmo.
Obrigado por me dar esta crônica, irmão ladrão.

um pé-vermelho em curitiba

November 06, 2003
A cidade que eu poderia amar.

Estive seis dias e seis noites em Curitiba. Para saber o que aconteceu no sétimo, leia a minha crônica da semana.

instruções para uso

November 06, 2003

ESTUPIDEZ. Deve ser mantida fora do alcance de crianças.
SIMANCOL. Inofensivo à camada de ozônio.
FRANQUEZA. Descontinuar o uso se surgirem irritação ou erupções cutâneas.
INTIMIDADE. Evitar demasiada exposição ao sol.
SERENIDADE. Não contém álcool etílico.
CAUTELA. Aplique uma pequena quantidade nas mãos e espalhe em movimentos circulares por todo o corpo.
IRA. O vasilhame, mesmo vazio, não deve ser perfurado.
VAIDADE. Se inalada em excesso, remover a pessoa para um local bem ventilado.
ARROGÂNCIA. Não provocar vômito.
ESPERTEZA. Não aplique em demasia.
EXPERIÊNCIA. Não reutilize a embalagem vazia.
INVEJA. Em caso de contato com os olhos, lave-os com água em abundância.
LEALDADE. Aplicar o produto puro.
BOM SENSO. Protege contra chuva e poeira.
GENTILEZA. Traz um brilho intenso com ótimo acabamento.
LUCIDEZ. Eficaz contra moscas, mosquitos, muriçocas, pernilongos, carapanãs e baratas.
ÂNIMO. Agite antes de usar.
PODER. Em caso de intoxicação, procure logo o serviço de saúde, levando a embalagem do produto.
PRESUNÇÃO. Quem usa não tem fôlego para nada.
CHATICE. Mantenha o produto a uma distância segura.
AMIZADE. Não misture com outros produtos.
RANCOR. Esfregue com vassoura ou escova e lave com bastante água.
ÓDIO. Se a área fora grande, lavar por partes.
INSTINTO. Manter afastado do fogo.
PAIXÃO. Em caso de vencimento, inutilize o produto.
AMOR. O princípio ativo não tem contra-indicações.
BOM HUMOR. Elimina impurezas e toxinas.

tudo é inacreditável

November 02, 2003

Estou há cinco dias em Curitiba.
Estou escrevendo um post em Curitiba.
Conheci o James Bar. Encontrei o Groo por lá.
Ganhei um sapatênis de minha namorada.

Aguardem os próximos episódios!