Repórter das Coisas

O HOMEM QUE ABALOU O IDIOMA


Procurando alguma coisa boa neste blog? Seus problemas acabaram! Hoje, para felicidade geral dos leitores, vou reproduzir aqui o trecho de um poema de Herberto Helder. Nascido na Ilha da Madeira em 1930, avesso a homenagens e entrevistas, Helder é um grande mestre da língua portuguesa. O abalo provocado por sua poesia, como já se disse, “é um dos maiores já sofridos pelo idioma em todos os tempos”. Ele é o Camões de um oceano de sangue, criador de uma furiosa gramática da eternidade. Os versos a seguir foram escritos em 1959 – quem sabe numa das perambulações do autor pela Europa – e pertencem a um poema extenso denominado “Elegia Múltipla”.

Abale-se com Herberto Helder:


Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus

vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,

amanhã morrerei.

Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,

alterosa e quente na minha mão

sufocada. Aqui mesmo na europa

começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida

percorrida por um álcool penetrante, é a imediata

atenção ao misterioso trabalho da idade.


Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais

sombrios da carne, sobre um vasto segredo.

Será apenas isso, um ponto móvel

de eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda

da vida inteira na minha garganta? E depois

o acender das luzes, bruxelas como uma câmara

de archotes e ao alto as ameias

enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande memória aquilo que acaba na violência triste

do poema.Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia

partem rios. Por detrás das cortinas,

despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho

vinte e nove bocas urdindo

a falsa doçura da confusão. Os países constroem

a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão

pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante

a loucura masculina

da minha vida. Pensa um pouco na beleza

ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível

das pessoas ou o seu respirar

que arde e brilha e se apaga à superfície

das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso

rapidíssimo

que jamais desaparece do silêncio, na candeia

que cobre com agulhas de ouro os escombros

dos lírios. E por cima de tudo estende

a tua pequena mão eterna. Cai

tu própria na treva quente da minha

cega mão masculina de vinte

e nove

anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda

inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta

cheia de sangue actual – amanhã morrerei.


Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas

velozes, pedras que pareciam

imortais. Eram casas que se levantavam

sobre o meu coração. Vi que tomavam

animais feridos, flores imaturas, objectos

breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam

alguma coisa eterna. Era gente

de vinte e nove anos que se despedia dolorosa

pormenorizada

violentamente de uma parte de sua carne, a parte

mais iluminada de sua

carne de vinte e nove anos. Amanhã

morrerei.


(Extraído de “O corpo o luxo a obra”, Editora Iluminuras, 2000).

Publicado em 10 de outubro de 2003 às 18:38 por briguet

Comentários

  1. joao
    • Muito bom! Do alto de meus 29 anos posso dizer isso. Hehe
    • por kenji
    • 10.Out.2003 às 19:53 - Permalink - Reportar
    kenji
  2. flipper
    • Aprende a escrever. E deixa de ser melancólica, perdedor, mala, pseudo-intelectual, brocha e chota. Londrina merece mais. Fora Briguet, Pellegrini, Bortolotto, Grota e todos os maus escritores e adolescentes temporãos da pequena Londres. Não gosto de você. Pessoas tristes merecem morrer e não encher o saco de uma cidade inteira.
    • por Vinicius Santos B. Nogueira, o Bléque
    • 12.Out.2003 às 06:02 - Permalink - Reportar
    Vinicius Santos B. Nogueira, o Bléque
    • Ora, ora, ora, temos aqui uma espécie de "Alvaro P. J." couvert. Uma espécie de Mazzaroppi reinventado - e um pouco mais lúdico ou hard-core - talvez. Um kamikaze. Um suicída? Um lóqui? Um jornalista.
      Hehehe... mundo velho...
      Tava faltando esse cara.
      Nicodemos, ressurja das cinzas nicodemos. O mundo tipos precisa de você. Agora. Mais do que nunca.
      ohhhh céus. e agora? quem podera nos defender?
    • por chaves do oito
    • 12.Out.2003 às 07:15 - Permalink - Reportar
    chaves do oito
    • "(...) Bléque, como é sabido, foi escolhido por preencher esses três requisitos, já que é afro-brasileiro, judeu e bissexual, além de já ter atuado no antigo programa Topa Tudo Por Dinheiro como transformista performático. (...)"

      ele queria provocar o riso com isso? ah, que cara patético esse bléque.
    • por Pateta
    • 12.Out.2003 às 07:31 - Permalink - Reportar
    Pateta
    • Paulo, será que o preço que se paga vale a pena? A pena da exposição, das verdades mais íntimas reveladas? Lembro-me das "pérolas ... aos...". A verdade não precisa ser inventada sempre, basta que a descubramos, mas a nossa, aquela que não precisa de sarcásticos e invejosos disfarçados de opositores dos sensíveis. Já passei também da idade de ouvir agressões (seu justa cuasa) E será que existirá algum dia causa para agressões. Querido amigo, ponha a cara para bater, mas reserve-se o direito de não ouvir asneiras.
    • por Ester
    • 12.Out.2003 às 11:17 - Permalink - Reportar
    Ester
    • Paulo, será que o preço que se paga vale a pena? A pena da exposição, das verdades mais íntimas reveladas? Lembro-me das "pérolas ... aos...". A verdade não precisa ser inventada sempre, basta que a descubramos, mas a nossa, aquela que não precisa de sarcásticos e invejosos disfarçados de opositores dos sensíveis. Já passei também da idade de ouvir agressões (seu justa cuasa) E será que existirá algum dia causa para agressões. Querido amigo, ponha a cara para bater, mas reserve-se o direito de não ouvir asneiras.
    • por Ester
    • 12.Out.2003 às 11:17 - Permalink - Reportar
    Ester
    • bleque, e' preciso muito cuidado com o que voce escreve, meu caro. nao se manda alguem aprender a escrever num comentario com erro de conjugacao verbal.
      e dizer que alguem merece morrer e' uma atitude um tanto adolescente e pretensiosa (com "s", e nao com "c", como esta escrito em seu blog).
      voce tem todo o direito de nao gostar de muita gente (imagino que nao goste de mim tambem), mas precisa saber argumentar numa critica. xingar, apenas, nao convence.
    • por adri
    • 13.Out.2003 às 07:16 - Permalink - Reportar
    adri
    • Quando li o comentário do garotinho revoltado aí em cima pensei tratar-se de uma brincadeira. Sim, porque acho difícil alguém não gostar do Briguet, mas até aí, tudo bem. Só que raivosamente como esse, esse, esse moleque quase analfabeto aí - sim, porque dei uma olhada no blog dele e os erros são inúmeros - eu não imaginava. Provavelmente deve estar querendo se mostrar pros amigos - dos bares da moda - e pras garotinhas - de shopping center. Poderia - ele - aprender a escrever primeiro. Mas, principalmente, aprender a ler e interpretar, pra entender o que se escreve de bom por aí. Sim, caro Bléque, porque o mundo não é feito de bravatas. A propósito, Briguet: sei que o comentário pode ser retirado se você quiser. Mas acho que você não deve fazer isso. Deixe-o aí. Afinal, todos precisamos rir um pouco.
    • por P.Galvez
    • 13.Out.2003 às 15:59 - Permalink - Reportar
    P.Galvez
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