Archive for October of 2003
CARTA DE LONDRINA
October 28, 2003
Minha nova crônica faz a defesa de um sinal em extinção: o trema.
a casa caiu
October 27, 2003
Sonhei que o meu prédio estava desmoronando. Tive que deixar o apartamento às pressas, abandonando livros, discos, fantasmas. E um vinho que ninguém nunca tomou.
**********
Acordei. Fui rever um filme que vi pela primeira vez aos 17 anos: “Crônica de um Amor Louco”, baseado num livro de Bukowski. Meu Deus, estou com 33... Faz meia vida, e o filme está o mesmo.
**********
Antes que o prédio caísse de vez, deu tempo de salvar meu relógio de areia.
**********
Chove no que resta da segunda-feira.
**********
Escrevi um poema às pressas, como quem foge de um prédio condenado.
**********
Acordei. Fui rever um filme que vi pela primeira vez aos 17 anos: “Crônica de um Amor Louco”, baseado num livro de Bukowski. Meu Deus, estou com 33... Faz meia vida, e o filme está o mesmo.
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Antes que o prédio caísse de vez, deu tempo de salvar meu relógio de areia.
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Chove no que resta da segunda-feira.
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Escrevi um poema às pressas, como quem foge de um prédio condenado.
October 27, 2003
Todo ser é refém da hora. De Kierkegaard a uma folha de figueira.
Garrafa ao mar? Só existe um oceano.
Mesmo viajando pelos continentes, você estará dentro do lapso.
Lembre-se: há vidas de cinco minutos.
Atente para o rumor do relógio de areia.
Sou escravo do ano de 1987. E de 1989. E de julho de 1996.
Eis aqui vítimas de setembro: flores e folhas no chão.
Há notícias de pessoas presas numa quarta-feira eterna. Clamam pela quinta.
Quanto sangue bombeou um coração de 99 anos e 7 meses? Um lago?
Deus, livrai-me das semanas.
Há um ponto que não é domingo nem segunda.
Uma bola poderia criar consciência aos 45 minutos da etapa complementar.
Amigo, encontre para mim o homem que deu nome aos dias.
Um minuto, por favor.
Um dia, pelo amor de Deus.
Um milênio – só se for agora.
Pulsos pararam, olhos se fecharam, bocas buscaram oxigênio – nos últimos dez minutos.
Sistema decimal: dez dedos, dez mandamentos, dízimo.
O tempo dizima.
Perceba a explosão das estrelas que não aparecem durante o dia.
Ouça o mar distante.
Espere.
É chegada a tua hora?
Toda figueira vai secar.
Tenho dez minutos para parar de escrever e começar a trabalhar.
Vi uma garrafa boiando à beira do lago.
Que horas são?
Garrafa ao mar? Só existe um oceano.
Mesmo viajando pelos continentes, você estará dentro do lapso.
Lembre-se: há vidas de cinco minutos.
Atente para o rumor do relógio de areia.
Sou escravo do ano de 1987. E de 1989. E de julho de 1996.
Eis aqui vítimas de setembro: flores e folhas no chão.
Há notícias de pessoas presas numa quarta-feira eterna. Clamam pela quinta.
Quanto sangue bombeou um coração de 99 anos e 7 meses? Um lago?
Deus, livrai-me das semanas.
Há um ponto que não é domingo nem segunda.
Uma bola poderia criar consciência aos 45 minutos da etapa complementar.
Amigo, encontre para mim o homem que deu nome aos dias.
Um minuto, por favor.
Um dia, pelo amor de Deus.
Um milênio – só se for agora.
Pulsos pararam, olhos se fecharam, bocas buscaram oxigênio – nos últimos dez minutos.
Sistema decimal: dez dedos, dez mandamentos, dízimo.
O tempo dizima.
Perceba a explosão das estrelas que não aparecem durante o dia.
Ouça o mar distante.
Espere.
É chegada a tua hora?
Toda figueira vai secar.
Tenho dez minutos para parar de escrever e começar a trabalhar.
Vi uma garrafa boiando à beira do lago.
Que horas são?
pseudopoema da ressaca
October 24, 2003
De todas as coisas de ontem,
só restou a dor.
Raptada pela Neosaldina,
mas ainda viva e forte
dentro do sangue refém.
O sangue não é sóbrio.
O dia não nasceu.
Às vezes pergunto por quê.
Me pergunto o porquê
de tanta noite, tanto riso,
tanta quinta sem feira e sem lei.
Às vezes eu pergunto:
Deus, por que o sangue não é sóbrio?
Por que o dia não nasceu?
De todas as vozes de ontem,
na fúria do Bar Brasil,
só me restou a sua,
que foi embora tão cedo.
E esse bilhete a mim mesmo,
refém de uma idéia tola
na noite que já morreu.
A noite tarde da noite,
neste dia que não nasceu,
neste sangue que não é sóbrio,
neste tempo que não tem lei.
só restou a dor.
Raptada pela Neosaldina,
mas ainda viva e forte
dentro do sangue refém.
O sangue não é sóbrio.
O dia não nasceu.
Às vezes pergunto por quê.
Me pergunto o porquê
de tanta noite, tanto riso,
tanta quinta sem feira e sem lei.
Às vezes eu pergunto:
Deus, por que o sangue não é sóbrio?
Por que o dia não nasceu?
De todas as vozes de ontem,
na fúria do Bar Brasil,
só me restou a sua,
que foi embora tão cedo.
E esse bilhete a mim mesmo,
refém de uma idéia tola
na noite que já morreu.
A noite tarde da noite,
neste dia que não nasceu,
neste sangue que não é sóbrio,
neste tempo que não tem lei.
Vou de táxi
October 23, 2003desconcerto em dó menor
October 22, 2003Romário é um gênio do futebol. A genialidade não abandona um homem, mas é eclipsada pela decadência. Romário comete a insensatez de exibir sua decadência aos olhos da multidão.
Quando vi Romário agredindo um torcedor durante o treino do Fluminense, fiquei triste. Meu Deus, esse cara que está brigando é o Mozart da grande área!
Mozart morreu aos 36 anos. Romário tem 37, e viverá muito mais. Poderia encerrar a carreira sem este desconcerto melancólico.
**********
Minha colega Mariana, da ACIL, quer que eu explique o final da crônica Minha barriga. Mas eu não explico. Sabe por quê? As coisas são melhores quando continuam enigmáticas.
Três notas de terça
October 21, 2003
1111111111
Há algum tempo, eu disse ao amigo Rodrigo Souza Grota:
Politicamente correto é o sujeito incapaz de entender uma ironia.
Hoje, quero acrescentar:
Politicamente correto é o cara que toma um poema ou crônica ao pé da letra.
Acho que você já sentiu isso na pele, não é, Grota?
2222222222
Ando colecionando adjetivos. Com eles, eu poderia construir um edifício chamado Rancor. Mas não vou.
3333333333
O ano era 1988. Eu fazia curso de Filosofia. Não entendia uma linha sequer daqueles livros. Meu apartamento ficava no 22º andar, no edifício Diderot, bairro do Bexiga. Debruçado no abismo, eu olhava para a cidade de São Paulo administrada por Jânio da Silva Quadros. Naquela noite, vi “A Doce Vida”, de Fellini. E nunca mais parei.
Há algum tempo, eu disse ao amigo Rodrigo Souza Grota:
Politicamente correto é o sujeito incapaz de entender uma ironia.
Hoje, quero acrescentar:
Politicamente correto é o cara que toma um poema ou crônica ao pé da letra.
Acho que você já sentiu isso na pele, não é, Grota?
2222222222
Ando colecionando adjetivos. Com eles, eu poderia construir um edifício chamado Rancor. Mas não vou.
3333333333
O ano era 1988. Eu fazia curso de Filosofia. Não entendia uma linha sequer daqueles livros. Meu apartamento ficava no 22º andar, no edifício Diderot, bairro do Bexiga. Debruçado no abismo, eu olhava para a cidade de São Paulo administrada por Jânio da Silva Quadros. Naquela noite, vi “A Doce Vida”, de Fellini. E nunca mais parei.
horário brasileiro de verão
October 20, 2003
(Um daqueles escritos de segunda-feira.)
Devolvam os 60 minutos
que me foram roubados
do sábado e da vida.
Quero de volta o sono,
quero o mesmo compasso
dos batimentos cardíacos.
Quero de volta a crônica
que eu pretendia escrever
naquela meia-noite.
Quero sístole e diástole
na harmonia dos ponteiros.
Não quero tempo adiante.
A meia-noite é minha,
não é uma hora apenas.
Não quero o dia útil
com douta arrogância
chegando assim tão cedo.
O Sol, pedante e forte,
invadindo meu escuro
com seu calor de morte.
A meia-noite é minha.
O meio-dia, não sei.
Não perceberam?
O Homem mandou chuva e vento
só para condenar
esta forma ultrajante
de deturpar o tempo.
Dez horas não são onze.
Oito não são sete.
Duas não são três.
Não fiquem fazendo hora
com o metabolismo alheio,
não gerem economia
com sangue e suor inocente.
Sou da noite, não do dia.
Não posso esperar tanto tempo
pra ter minha hora de volta.
Que façam parar o relógio
agora, meu Deus, agora.
Devolvam os 60 minutos.
Para o Sol eles são nada,
para mim eles são muito.
Devolvam os 60 minutos
que me foram roubados
do sábado e da vida.
Quero de volta o sono,
quero o mesmo compasso
dos batimentos cardíacos.
Quero de volta a crônica
que eu pretendia escrever
naquela meia-noite.
Quero sístole e diástole
na harmonia dos ponteiros.
Não quero tempo adiante.
A meia-noite é minha,
não é uma hora apenas.
Não quero o dia útil
com douta arrogância
chegando assim tão cedo.
O Sol, pedante e forte,
invadindo meu escuro
com seu calor de morte.
A meia-noite é minha.
O meio-dia, não sei.
Não perceberam?
O Homem mandou chuva e vento
só para condenar
esta forma ultrajante
de deturpar o tempo.
Dez horas não são onze.
Oito não são sete.
Duas não são três.
Não fiquem fazendo hora
com o metabolismo alheio,
não gerem economia
com sangue e suor inocente.
Sou da noite, não do dia.
Não posso esperar tanto tempo
pra ter minha hora de volta.
Que façam parar o relógio
agora, meu Deus, agora.
Devolvam os 60 minutos.
Para o Sol eles são nada,
para mim eles são muito.
October 17, 2003
ORAÇÃO DA QUINTA SEM-LEI
Expedito e Neosaldina,
padroeiros da Quinta Sem-Lei.
Neosaldina e Expedito,
jamais vos esquecerei.
Ó santos da malandragem,
protegei esse povo sarvage.
Guardai-nos na Quinta Sem-Lei
e que a sexta nos seja leve, amém.
**********
SEGURO DE MORTE
Vou fazer um poema às avessas
pra explodir o fantasma danado
e alegrar o cachorro triste.
Comprei um seguro de vida,
pra alegria do corretor,
e um bilhete de loteria
de um velho nos estertores.
Mas se o cão, danado, só rosna,
e o fantasma também ficou triste,
vou fazer um seguro de morte,
escrever um bilhete em prosa
e esquecer que o poema existe.
Expedito e Neosaldina,
padroeiros da Quinta Sem-Lei.
Neosaldina e Expedito,
jamais vos esquecerei.
Ó santos da malandragem,
protegei esse povo sarvage.
Guardai-nos na Quinta Sem-Lei
e que a sexta nos seja leve, amém.
**********
SEGURO DE MORTE
Vou fazer um poema às avessas
pra explodir o fantasma danado
e alegrar o cachorro triste.
Comprei um seguro de vida,
pra alegria do corretor,
e um bilhete de loteria
de um velho nos estertores.
Mas se o cão, danado, só rosna,
e o fantasma também ficou triste,
vou fazer um seguro de morte,
escrever um bilhete em prosa
e esquecer que o poema existe.
WC
October 15, 2003
Minha crônica da semana fala sobre banheiros.
Rebeldes e tiranos
October 14, 2003
Há uma espécie de rebelde que não precisa esperar o triunfo da revolução para se tornar tirano: ele já nasce dando ordens.
**********
Quando percebi que não tinha tempo para polêmicas vazias, passei a viver plenamente.
**********
Já fui de polêmica e paixão. Hoje, da crônica e compaixão.
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Minha ignorância não se atreve.
**********
Só aceito a revolução de um homem só.
**********
Quando os fantasmas interiores usam disfarces exteriores, estamos a um passo da tragicomédia.
**********
Luta de classes? Guerra santa? Pureza racial? Doutrina “politicamente correta”? Linchamentos públicos? Xenofobia?
Formas vazias, disfarces da ira, fantasias da estupidez.
**********
Centralismo democrático: muita centralização, nenhuma democracia.
**********
Ditadura do proletariado: sente-se mais a primeira do que o segundo.
*********
O melhor manual de ética ainda é a vergonha na cara.
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Bukharin aos camponeses: “Enriqueçam!” (Stálin matou Bukharin e os camponeses.)
**********
Nelson Rodrigues aos jovens: “Envelheçam!”
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Um mundo onde todo operário fosse um Goethe ou um Aristóteles seria terrivelmente chato.
**********
Com ternura – e sem fuzilamentos.
**********
“É impossível que alguém aprenda aquilo que presume já saber.” (Epitecto)
**********
“O homem mais forte é o mais só.” (Dr. Stockmann, personagem de Ibsen)
caiu a ficha
October 13, 2003

Sou da última geração que viu uma ficha cair. Embora os orelhões hoje funcionem com cartões magnéticos, todo mundo continua dizendo que caiu a ficha.
**********
A expressão deverá sobreviver por alguns anos; talvez, muitos anos. Até hoje, por exemplo, tem gente que continua perdendo o bonde da história, embora a história já tenha banido os bondes.
O pessoal embarca em ônibus, aviões e outros meios de transporte, quase nunca em barcos. Mas, em barcas furadas, ainda tem vária gente embarcando – com o perdão da redundância.
**********
Eu me Lembro de um orelhão da Avenida Higienópolis que funcionava sem ficha. Até a Sercomtel descobrir o defeito, houve longas filas de estudantes por ali. Na verdade, não era um defeito; era uma suprema qualidade daquele orelhão. Nele, as fichas não precisavam cair. Principalmente as fichas de interurbano, aquelas malditas, que caíam muito rápido.
**********
Por via das dúvidas, coleciono fichas velhas. Do reino da telefonia, elas passaram ao reino da arte antiga, ou da arqueologia. Agora, a única utilidade das fichas telefônicas é fazer lembrar.
Uma ficha, para minha ignorância. Outra, para a pequenez. Uma terceira, para a alienação. E vaidade, angústia, dor, exaltação, fúria, sono, fome, sede, banalidade, alegria, prazer, paixão, poder, ânsia, estupidez, delicadeza, tormento, gozo, humor, esquecimento, sorte – até a última ficha cair.
**********
É por isso que o Tempo diz ao Velho Malandro:
Tu vives fora do tempo!
Tu vives fora da história!
Tu dormes ao relento
E ainda queres glória.
Tu és
máquina de escrever!
Tu és
estêncil e
mimeógrafo!
Tu és
fita Scotch e LP
Tu és
ficha telefônica
Tu és
fã de Lifebuoy
Tu és
fã de fita-em-série
Tu és
bonde pra tomar
Tu és
Bandido da Luz Vermelha
Tu és
Madame Satã
Tu és
Politburo
e Cortina de Ferro
Tu és
Rum Creosotado
Tu és
velho até pro Tempo
Tu és
fora de contexto
Tu és
da população
cronicamente inativa.
Tu és
quem ganha pensão
de 200 reais pra pinga.
Tu és
um pobre ancião – o que te falta é um patrão!
October 10, 2003
O HOMEM QUE ABALOU O IDIOMA
Procurando alguma coisa boa neste blog? Seus problemas acabaram! Hoje, para felicidade geral dos leitores, vou reproduzir aqui o trecho de um poema de Herberto Helder. Nascido na Ilha da Madeira em 1930, avesso a homenagens e entrevistas, Helder é um grande mestre da língua portuguesa. O abalo provocado por sua poesia, como já se disse, “é um dos maiores já sofridos pelo idioma em todos os tempos”. Ele é o Camões de um oceano de sangue, criador de uma furiosa gramática da eternidade. Os versos a seguir foram escritos em 1959 – quem sabe numa das perambulações do autor pela Europa – e pertencem a um poema extenso denominado “Elegia Múltipla”.
Abale-se com Herberto Helder:
Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Aqui mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.
Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isso, um ponto móvel
de eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Procurando alguma coisa boa neste blog? Seus problemas acabaram! Hoje, para felicidade geral dos leitores, vou reproduzir aqui o trecho de um poema de Herberto Helder. Nascido na Ilha da Madeira em 1930, avesso a homenagens e entrevistas, Helder é um grande mestre da língua portuguesa. O abalo provocado por sua poesia, como já se disse, “é um dos maiores já sofridos pelo idioma em todos os tempos”. Ele é o Camões de um oceano de sangue, criador de uma furiosa gramática da eternidade. Os versos a seguir foram escritos em 1959 – quem sabe numa das perambulações do autor pela Europa – e pertencem a um poema extenso denominado “Elegia Múltipla”.
Abale-se com Herberto Helder:
Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Aqui mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.
Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isso, um ponto móvel
de eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Canção triste do Lago Igapó
October 09, 2003
Tem piadas que para mim nunca perdem a graça. De vez em quando, estou caminhando de volta para casa, e lembro de uma piada antiga. Dou risada sozinho. Anedotas velhas e infames são uma das coisas que me fazem sentir o gosto da vida. Nunca me canso delas. E não me canso de olhar para esta cidade... leia a minha crônica da semana.
Depois de ler aquilo
October 08, 2003
Rebeldes que viram tiranos: aí está a tragédia de todas as revoluções.
**********
Tanga e Manzano, Manzano e Tanga! Onde estão vocês, oh tipos desaparecidos, que se negam a acrescentar alguma lucidez na minha insanidade?
**********
Tanga e Manzano, Manzano e Tanga! Onde estão vocês, oh tipos desaparecidos, que se negam a acrescentar alguma lucidez na minha insanidade?
Um peixe morde a isca na chuva
October 07, 2003
Enquanto escrevo, chove.
Mordi a isca. Que espécie de peixe sou? Um peixe virtual.
Dentro do aquário, cego.
Dentro da cegueira, alienado.
Dentro da alienação, ignorante.
Dentro da ignorância, frívolo.
Dentro da frivolidade, passado.
Dentro do tempo, vento.
Dentro do vento, vaidade.
Dentro da vaidade, pó.
Mas como pode um peixe vivo viver fora da água fria?
eu não tenho mais idade para...
October 06, 2003
Ouvir rock (por mais de dez minutos).
Ir a shows.
Duas noites de festa seguidas.
Experimentar cerveja nova.
Encarar o pique da Karla Matida ou da Janaína Ávila.
Emendar programas vespertinos e noturnos.
Tequila.
Macacão.
Cabelo comprido.
Broche com mensagem.
Sindicalismo.
Costeleta.
Pôster da Janis Joplin.
Trabalhar de ressaca.
Fingir que sei o que não sei.
Passar um dia sem Bach.
Dizer que gostei do que não gostei só para me sentir mais à vontade.
Molho branco.
Pizza de catupiry.
X-bacon.
Feijoada.
Salvador Dalí.
Poesia concreta.
Debater questões de grande interesse para a sociedade.
Discutir política.
Interpretar sonhos.
Explicar por que admiro o Paulo Francis.
Entrar em polêmicas no Tipos.
Garçons lentos ou surdos.
Acreditar na revolução.
Administrar vaidades.
Falar mal de alguém.
Os filmes do Godard.
Comentar futebol (por mais de dez minutos).
Ler o caderno “Mais!” da Folha de S. Paulo.
Aprender a dirigir.
Aprender a assobiar.
Falar inglês.
Levantar bem disposto sem ler um trecho da Bíblia.
Odiar os Estados Unidos.
Dizer que o papa não é um grande homem.
Responder a comentários desabonadores.
(Esse post foi inspirado por minhas jovens amigas Karla Matida e Patrícia Moreli.)
LOGO EXISTO
October 05, 2003Eu sinto esse sol por você.
Sinto essa noite.
Sinto essa sombra, sinto esse rumo,
sinto esse mar que não tem.
Eu sinto esse dom por você.
Por você, sinto que acordo,
Sinto que vivo, sinto que o dia
esteve e passou e voltou.
Sinto essa dor por você.
Eu sinto esse ar por você.
Sinto essa água, setenta por cento,
sinto esse sal, esse caos, esse vento,
eu sinto esse sangue em você.
Esse vão e essa fúria,
Esse mal, que é tão puro,
e o calor absurdo.
Eu sinto essa luz por você.
Eu sinto a visão por você.
Eu sinto esse fruto,
de ramo obscuro,
sinto esse som, esse tato e perfume,
eu sinto esse mundo em você.
Em você ainda sinto
– e tanto, eu juro –
o mel das entranhas,
a moral dos meses,
o pó das semanas
e, diversas vezes,
o ocaso de tudo.
E a morte, que eu sinto,
de tão envolvente,
não passa daquilo
que eu jamais sentia
antes de vivente.
Eu sinto o que sou por você.
Diário de um usuário de Neosaldina
October 03, 2003
Nós, usuários de Neosaldina, enfrentamos algumas dificuldades. A primeira dela consiste em acertar o idioma no dia seguinte à Quinta Sem-Lei, dia esse que costuma ser uma sexta-feira. Quanto ao idioma, no meu caso, é o português, eu sei, eu sei, mas tenho uma curiosa tendência de começar o dia expressando-me em romeno. Setea de lumină arde-n urne stranii, ridicându-mi pleoapa peste umbre vagi, şi-n miros de smirnă amintind litanii, fum de lumânare urcă-n cercuri largi.
**********
Ainda serei condenado por tráfico de Neosaldina. Hoje tomei duas. Quem sabe a terceira.
**********
O homem que inventou a Neosaldina – o grande injustiçado pela Academia Sueca criada por Alfred Nobel – certamente padecia de ressaca melancólica.
(Ora, Dr. Pleonasmo: acaso existiria uma ressaca não melancólica, homem de Deus?)
**********
Não há como não lembrar o caso ocorrido com Marcelo Rocha, outro grande usuário da substância. Uma noite, após farto consumo de lêvedo, ele chegou em casa e constatou, alarmado, que o estoque de Neosaldina acabara. Rocha não teve dúvidas: invadiu a caixa de remédios da própria mãe, e tomou o primeiro remédio que lhe pareceu minimamente analgésico. Era um medicamento para reposição hormonal, que transformou Marcelo Rocha em mulher. Ele até marcou mão e pé para o mesmo dia.
**********
Não ouvimos alguns sons que os cachorros ouvem. A Neosaldina, de maneira análoga, provoca um tipo de dor que não é registrado pelo sistema nervoso humano.
**********
Os táxis desta cidade deveriam manter o seu estoque de Neosaldina na caixinha de primeiros socorros.
**********
Ontem a Lei apareceu na Quinta Sem-Lei, na forma de duas viaturas da Rone. Desconfia-se que a briga no bar teve início com a discussão de um casal a respeito de analgésicos. Dois traficantes de dor de cabeça foram para o xilindró.
**********
Uma escola a mais, uma prisão a menos – diziam os entusiastas da educação.
Uma neosaldina a mais, uma reunião a menos – digo eu. Acabei de desmarcar uma.
**********
Neosaldina, boa menina.
**********
Wir, Benutzer von Neosaldina, stellen einige Schwierigkeiten gegenüber. Das erste von ihm besteht aus dem Bilden recht der Sprache am folgenden Tag zu 5. Sem-Lei, Tag dieses dieses costuma, um ein Freitag zu sein. Wieviel zur Sprache, in meinen, falls der, er der Portugiese ist, ich ich weiß, weiß ich, aber ich habe eine neugierige Tendenz, zu beginnen der Tag, der mich auf Rumänen ausdrückt.
ressurgirá
October 02, 2003
Nesta semana dedico minha crônica a alguém que morreu muito cedo. Leia a nova Carta de Londrina.
As outras coisas em que pensamos
October 01, 2003
- Em que você está pensando?
- Em outra coisa.
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Se o convite do coquetel não chegou ao diretor de operações – o problema todo é a morte.
Vou a uma padaria para tomar um chá mate com limão – o enigma todo é a morte.
A entrevista foi interrompida pela metade, por causa de compromissos inadiáveis – a voragem toda é a morte.
O cartaz foi impresso, mas a gráfica ainda não enviou o orçamento – a vertigem toda é a morte.
As construtoras investem em condomínios de luxo – a miragem toda é a morte.
O eletricista aciona uma furadeira ensurdecedora sob o sol da manhã – a dor toda é a morte.
Não conseguimos responder educadamente à caixa de entrada de e-mails – a mensagem toda é a morte.
Há uma incompatibilidade de idiomas e objetivos entre a redação e o departamento comercial – a conclusão toda é a morte.
Quem sabe comprarei um sabonete para lavar o rosto – a face toda é a morte.
A unidade de atendimento automático gerou reclamações entre os clientes – a crítica toda é a morte.
Facilitar o troco no McDonald´s (“Gostoso como a vida deve ser”), no Bar Brasil (“Mara, me vê uma Skol”) e nos Supermercados Viscardi (“Amigos que a gente tem / E bons vizinhos também”) – a moeda toda é a morte.
O cidadão de gravata vinho pede a Folha de S. Paulo de ontem – a notícia toda é a morte.
Ricardo Nélson, onde está você, Ricardo Nélson? – o chamado todo é a morte.
**********
Então, dez anos depois, passando pela frente da antiga clínica de abortos, Ricardo Nélson viu que não existia mais porta de entrada no prédio. O acesso fora barrado por uma grossa parede de tijolos. Mas as plantas cresciam com dificuldade entre as nervuras do cimento.
**********
Engano pensar que a morte aniquila o sentido da vida. Aliás, atribui.
**********
“E o último inimigo a ser vencido será a morte.” (Paulo, o são)