Repórter das Coisas

domingo sem fim

(Uma crônica para você não chorar com a nova semana.)


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“Olhe bem, preste atenção...”, dizia a musiquinha do Fantástico. Tão triste: acabou o final de semana. Amanhã tem escola. Acabamos de comer o macarrão que sobrou do almoço; tomamos a Coca-Cola meio sem gás; só tem asa de frango.


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Um quarto de século depois (quer dizer: agora) olho para o relógio e percebo que faltam menos de duas horas para o domingo acabar.


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Já se foi o tempo em que eu detestava os domingos. Na verdade, o meu antigo ódio – como todo ódio – era apenas uma forma vazia: a impossibilidade de expressar o amor incondicional que eu tenho pelo primeiro dia da semana. O que me revoltava não era a existência do domingo, mas o fato de que ele termina. Meu sonho é viver um domingo sem fim.


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Hoje, procuro aceitar a finitude dos domingos com uma aliança de serenidade e desespero.


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O tempo passou, no pentâmetro iâmbico dos batimentos cardíacos, e eu descobri que amo os domingos. Amo as manhãs azuis e as ruas silenciosas; amo o almoço regado a cerveja e a melancolia das tardes vorazes; amo a enigmática noite budista; amo as luzes acesas e apagadas em todos os lugares do mundo; amo o bebê de 11 meses que carreguei no colo e sorriu para o cachorro branco no Zerão; amo dormir e sonhar que estou vivendo no cenário do filme “Paris, Texas”; amo o corpo da mulher na sombra amarela do poente.


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Agora eu sei que sou dominical: nasci e vou morrer no domingo. Logo virá a segunda-feira. Sinal de que tenho medo. Sinal de que amo e estou vivo. Olhe bem. Preste atenção.


Publicado em 28 de setembro de 2003 às 22:39 por briguet

Comentários

    • Gosto de domingos, é um dos poucos dias que almoçamos em família aqui em casa. MInha mãe sempre faz a mesma comida, há anos (macarrão com frango cozido, num tempero "tradicional" da família nordestina dela), meu pai sempre pede pudim de sobremesa (principalmente no dia em que nós não fazemos) e as crianças sempre fazem a maior meleca com macarrão na toalha.
      Mas é uma delicia.
      (e eu tb nasci num domingo. MInha mãe lembra sempre pq ela esta aassistindo "Silvio Santos"...heheheh)
    • por Deni
    • 28.Set.2003 às 23:17 - Permalink - Reportar
    Deni
    • "Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço, não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.Sei que canto e a canção é tudo."
      Cecília Meireles.
      Paulo, li e lembrei de suas crônicas. Realmente o final do domingo, às vezes, não é nada fácil...
      té!
    • por suzana flag
    • 29.Set.2003 às 13:15 - Permalink - Reportar
    suzana flag
    • Acredito que eu não tenho mais domingos.
      Os domingos da família...
      Minha família está longe e os almoços de domingo são raros.
      O domingo é triste.
      A solidão faz a tristeza do domingo.

      E o medo da segunda é a infelicidade que ela me traz, é a insatisfação naquilo que preciso fazer e realizar durante a semana.
      Enquanto não descobrir e não puder fazer algo que me satisfaça na segunda, na terça, na quarta..., temerei a sua chegada.
      No sábado e no domingo me satisfaço, mesmo que passageiramente, mesmo que a satisfação seja ilusória, seja apenas uma fuga da semana.
    • por vidita
    • 29.Set.2003 às 14:21 - Permalink - Reportar
    vidita
    • Compartilhamos - já falamos sobre isso - esses estranhos sentimentos sobre o tempo e o domingo. Só que no meu caso não acredito - ainda - que seja porque o domingo acaba. Ainda sinto que é porque ele existe. Será que isso muda?
    • por P.Galvez
    • 01.Out.2003 às 23:58 - Permalink - Reportar
    P.Galvez
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(Milton Friedman with lasers)

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