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Archive for September of 2003

Pensamentos para a prima Vera

September 30, 2003
Nada pode acontecer de ruim, quando há flores amarelas. (García Márquez)

A primavera de dentro é mais importante que a primavera de fora.

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Minha namorada gosta do verão. Eu gosto do inverno. Nada melhor que a primavera para resolver a questão.

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Minha obsessão é o tempo. Tudo o que eu escrevo é uma tentativa de compreendê-lo. Datas e horas, porém, nada mais são do que mecanismos vulgares para aprisionar o tempo – e ele não se entrega. Por isso, nem sei em que dia começa a primavera. As estações começam e terminam quando o tempo decidir.

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As coisas merecem atenção: todas elas estão grávidas de tempo. Cada elemento da realidade encerra uma história e um mistério. Sua mão, leitor. Seu dedo mínimo esquerdo. A cadeira que você está usando. Esta página. Esta letra: y. Este número: 21.
Se você quiser chamar tudo isso de primavera, fique à vontade. A primavera é só mais uma forma de estar no mundo.

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Quando brotam as flores amarelas? Se eu vejo uma árvore carregada de flores, penso que amanhã o chão estará forrado por elas. Flores são espetáculos de vida e morte.

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Existe alguma coisa nos meus setembros. Alguma coisa que não explico. Alguma coisa enigmática e indevassável. Os dias de setembro se espalham pelos outros meses. Agora mesmo estou sentindo a presença de setembro. Mesmo depois que setembro termina, ainda é setembro. Posso garantir que ele tem cor, tem forma, tem consistência. Tem cheiro e música. Às vezes tenho a impressão de que só existe setembro. Todos outros meses são setembros disfarçados. É quando o ano “amadurece os lábios para a morte”, como diz o verso de Carlos Nejar. Somos seres setembrinos. Mas – meu Deus! setembro está chegando ao fim.

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A cor da primavera é transparente.

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Se as pessoas mudam? Elas não fazem outra coisa. Quando eu comecei a escrever esta frase eu era Paulo Briguet. Agora, eu sou Paulo Briguet. E eles são, é claro, duas pessoas diferentes.

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Quando eu era menino, achava que a Prima Vera era uma pessoa. Eu tinha a Prima Ângela, a Prima Flávia, a Prima Juliana; eu só não entendia por que ninguém me apresentava a Prima Vera. Eu imaginava a Prima Vera muito bonita, quase um anjo. Morena e carinhosa, cuidaria de mim. Até me levaria chocolate quente na cama. Ah, Prima Vera! Por que resolveram unificar seu nome?

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Agora eu vou terminar. Se a Prima Vera aparecer, digam que eu já volto. Mas então já serei outro.

canção de domingo

September 29, 2003
Em memória de Petrike Faria de Oliveira


Haverá um domingo, haverá um domingo
a não se vingar na segunda-feira.
Um domingo pra sempre, pra sempre,
um domingo a não ouvir a sirene das oito,
um domingo a não acordar com o rádio-relógio,
o domingo de um homem sem hora e sem fardo.

Algum dia, amigo,
haverá um domingo, haverá um domingo,
haverá um domingo feito de amor e sorte,
um domingo de rua em silêncio,
de cidade com portas abertas,
de janelas e luzes, de luz um domingo,
um domingo de mundo inteiro calado,
e de um rádio-relógio parado
à meia-noite e ao meio-dia do homem.

Haverá um domingo, haverá um domingo,
em que não morrerá nenhum jovem na estrada,
em que não ficará nenhum sangue no leito,
nenhum homem no catre, nenhum cão
na calada da tarde, domingo
de sol e domingo de sorte,
domingo de fé, haverá um domingo
em que nenhum amigo vai voltar da festa,
em que nenhum corpo vai ferir a terra,
domingo pra sempre, pra sempre um domingo,
sem segunda-feira, sem fim e sem morte.

domingo sem fim

September 28, 2003
(Uma crônica para você não chorar com a nova semana.)

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“Olhe bem, preste atenção...”, dizia a musiquinha do Fantástico. Tão triste: acabou o final de semana. Amanhã tem escola. Acabamos de comer o macarrão que sobrou do almoço; tomamos a Coca-Cola meio sem gás; só tem asa de frango.

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Um quarto de século depois (quer dizer: agora) olho para o relógio e percebo que faltam menos de duas horas para o domingo acabar.

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Já se foi o tempo em que eu detestava os domingos. Na verdade, o meu antigo ódio – como todo ódio – era apenas uma forma vazia: a impossibilidade de expressar o amor incondicional que eu tenho pelo primeiro dia da semana. O que me revoltava não era a existência do domingo, mas o fato de que ele termina. Meu sonho é viver um domingo sem fim.

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Hoje, procuro aceitar a finitude dos domingos com uma aliança de serenidade e desespero.

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O tempo passou, no pentâmetro iâmbico dos batimentos cardíacos, e eu descobri que amo os domingos. Amo as manhãs azuis e as ruas silenciosas; amo o almoço regado a cerveja e a melancolia das tardes vorazes; amo a enigmática noite budista; amo as luzes acesas e apagadas em todos os lugares do mundo; amo o bebê de 11 meses que carreguei no colo e sorriu para o cachorro branco no Zerão; amo dormir e sonhar que estou vivendo no cenário do filme “Paris, Texas”; amo o corpo da mulher na sombra amarela do poente.

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Agora eu sei que sou dominical: nasci e vou morrer no domingo. Logo virá a segunda-feira. Sinal de que tenho medo. Sinal de que amo e estou vivo. Olhe bem. Preste atenção.

September 26, 2003
Poeta de Londrina estréia
com livro e CD aos 84 anos


Não é todo dia que um homem de 84 anos lança o seu primeiro livro de poemas. E também o seu primeiro CD...
A Biblioteca Municipal de Londrina será o palco desse acontecimento tão raro quanto gratificante. Hoje (26 de setembro), a partir das 20 horas, Thomaz D´Amico fará o lançamento do livro Versos Neuróticos. A obra também estará disponível em formato de CD, com os 80 poemas na voz do autor.
Amante da vida e das palavras, Thomaz D´Amico é um leitor contumaz desde menino e um meticuloso observador do mundo. Seus versos resultam da harmonia entre a argúcia do olhar, a amplitude da imaginação e a paixão da linguagem.
Perfeccionista ao extremo, o autor faz poesia como um ourives, trabalhando a beleza e o sonoridade de cada estrofe, cada verso, cada palavra. Seu cuidado com a forma é tão grande que – brincam os amigos – por isso demorou tanto tempo para estrear na literatura. Dizem que estava revisando os poemas...
Aos 84 anos, funcionário aposentado do Banco do Brasil, Thomaz D´Amico é um personagem tão íntegro e interessante quanto um de seus sonetos. Na noite do lançamento, o público poderá conhecer melhor seu Thomaz, numa conversa informal entre o autor e o jornalista Paulo Briguet, que assina o prefácio da obra. Na entrevista, o poeta falará, entre outros assuntos, da importância da leitura, de grandes autores – como Camões e Descartes – e, claro, do seu intenso caso de amor com a poesia.
Livro que celebra a união entre vida e literatura, Versos Neuróticos conta ainda com as ilustrações de um ícone da arte paranaense e brasileira: Paulo Menten.
Venha conhecer Thomaz D´Amico. E celebrar a poesia com ele.

Lançamento do livro Versos Neuróticos, de Thomaz D´Amico.
Data: 26 de setembro (sexta-feira)
Horário: a partir das 20 horas
Local: Biblioteca Municipal de Londrina (Av. Rio de Janeiro, 413)
Preço do livro: R$ 15
Preço do CD: R$ 10

um poema do meu amigo ricardo nélson

September 25, 2003
Amar e escrever.
Dois verbos, desde o princípio.
Com o tempo, fora do tempo,
serão um só.
E por que escrever?
Por que amar?
Por que amar e escrever,
e escrever o amor,
e amar a escrita,
até o final dos tempos?

Porque existe a morte.
Amo porque vou morrer.
Escrevo porque vou morrer.
Amo e escrevo olhando pra ela.

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(Ricardo Nélson me ligou e disse que vai aparecer hoje na Quinta Sem-Lei. PB)

um cronista no desfile

September 24, 2003
Eu não saí na foto.

O primeiro desfile a gente nunca esquece. Leia a minha crônica da semana.

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FRASES DO DIA

"Todo mundo tem que morrer um dia, mas eu sempre acreditei que fosse feita uma exceção no meu caso. E agora?"
(Últimas palavras do escritor norte-americano William Saroyan)

"Nunca mandes perguntar por quem o sino dobra: ele dobra por ti."
(John Donne, poeta inglês)

ai, ai, ai

September 23, 2003
Garoto EnxaquecaGaroto EnxaquecaGaroto Enxaqueca

É próprio da condição humana amar e odiar a dor.
Bulas dizem que todo medicamento deve ser mantido longe das crianças. Eu digo que todo remédio deve ser mantido ao alcance de quem sente dor. Antes de me chamar de hipocondríaco, leitor, ponha a mão na consciência – e lembre-se daquela última dor de cabeça.
O homem não merece a dor, embora não possa viver sem ela. Meu ideal é sentir a mínima dor possível, mas sem ela eu não conseguiria sobreviver (pois a dor me alerta sobre os males do corpo) nem trabalhar (pois a dor é uma das matérias-primas essenciais ao ofício de escrever).
Dor. Três letras. Tantas formas. Em seu livro “Enxaqueca”, Oliver Sacks explica que esse mal universal nem sempre vem acompanhado de dor de cabeça.
Eis a sutileza da dor. Tortuosos podem ser os caminhos dolorosos no corpo e na alma dos seres. Ter uma enxaqueca sem dor de cabeça seria algo como pedir um sanduíche sem pão, abrir um caderno sem páginas ou assistir a uma TV sem imagens. E, no entanto, Oliver Sacks está falando sério. Além de médico, ele é um excelente escritor. Distorções visuais, problemas digestivos, medo da luz e um alheamento inexplicável são outros sintomas da enxaqueca.
A dor pode ser, por vezes, uma faca da qual se tirou o cabo e a lâmina. De um modo inexplicável, essa faca continua sendo faca. E corta.
Um dia, eu parei e escrevi esta poesia, que acabou sendo incluída na peça “O Velho Malandro”:

Eu era outro, mas veio a dor.
Dor de todos os tipos.
Dor de dente, dor de braço,
dor de baço, dor nas tripas.

A dor foi o meu regaço,
A dor foi o meu destino.
A dor me deixou bagaço,
me prendeu o intestino.

Dor assim e dor assado,
dor de rosa, dor de espinho.
Dor de fígado travado,
dor de pinga, dor de vinho.

Foi a dor que me fez tudo
Foi da dor a malandragem.
Foi a dor de um surdo-mudo
que gritou minha mensagem.

A dor sem nenhuma calma,
a dor sem nenhum escrúpulo,
a cãibra louca da alma
e a vil perdição do músculo.

Eu era outro, mas veio a dor.

A dor em todos sentidos.
Da visão, dor é cegueira.
Da audição, dor é surdez.
Do olfato, ter mau cheiro;
paladar, insipidez.
E de tato é não ter mão
pra apagar o que se fez.

Eu era outro, mais veio a dor.

Cavalo que não se monta,
conta que não se pendura,
uma faca de mil pontas,
ferida sem atadura.

É dor sem anestesia,
dor de gozo e de doença,
dor de noite, dor de dia
– dor até na consciência.

E agora eu sinto dor,
a dor é minha sentença
É por isso que eu estou
na fila da Previdência.

E de todas essas dores
que souberam açoitar,
ó, senhoras e senhores,
saibam que maior não há
que a dor de alguma coisa
que se adora suportar.

É a dor de um golpe potente
que não tem cabeça nem pé.
É a dor que, por algo ausente,
é mais dor porque assim é.
É a dor que, de repente,
tem o nome de mulher.

águas de segunda

September 22, 2003
Detalhe de

Agora – nesta segunda-feira de agenda impiedosa,
pressionado, aqui, pelo atraso de todos os trabalhos,
ali, pela exaustão da minha conta corrente –,
não sei por que agora, amigo Bonfim,
lembrei do dia em que você resolveu lavar os cabelos com sangue.

E senti sua falta, rapaz,
porque não nos cabe separar as águas das águas,
nem escapar assim do grande caos,
mas quem, quem sou eu para julgar sem ser julgado?
Meu corpo também jorra sangue sob o vão da pele,
e só encontra paz na luz que ao lado dele brota.

Nesta segunda ordinária e tão entregue a si mesma,
eu falo ao espírito que reina sobre as águas,
sereno e silencioso, porém vasto como a compaixão de tudo,
e rezo por você, amigo,
que um dia houve por bem molhar de sangue o batismo,
e mergulhar lá onde as águas lavam sempre as águas.

relatório do dia seguinte

September 19, 2003
Desculpem a propaganda.

Há algum tempo descobri que não tenho mais 20 anos de idade.

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O sujeito que inventou a Neosaldina merece o Nobel de Medicina.

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Quinta Sem-Lei, sexta com dor.

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Não há nada melhor do que deixar de sentir dor. É por isso que João Cabral de Melo Neto fez aquele poema para a Aspirina, “o mais prático dos sóis”. Naquele tempo não havia um comprimido de Mucato de Isometepteno, Dipirona Sódica e Cafeína Anidra.

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Como não tenho patrão, finjo para mim mesmo que estou trabalhando.

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As sextas-feiras estão ficando impossíveis.

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Há os que atravessam o Canal da Mancha. Há os que abrem o Mar Vermelho. E há os que caminham do Bar Brasil para o Bar Secreto.

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A noite é uma guerra. Mas meu corpo é desertor.

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Sempre que eu começar a recitar Herberto Helder, ponham-me no táxi e me mandem para a Rua Cacilda Becker, número 65, apartamento 21, Edifício Marta.

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Por favor, eu quero minha namorada.

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O mais irônico é que estou editando o Jornal das Farmácias. Farei uma crônica: “Diário de um usuário de Neosaldina”.

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E ainda sobraram três fichas de Antarctica!

September 18, 2003
(Amigos, vocês precisam me agüentar. Hoje é QSL e estou com a corda toda. Li uma boa frase de Fábio Galão e engatei um post. Como se eu não tivesse um milhão de outras coisas para fazer, todas atrasadas. Enquanto isso, meus empregadores acham que eu estou trabalhando. Mas empregadores não lêem blog, não é mesmo, Grota?)

FÁCIL DE AGRADAR

Na verdade, eu sou fácil de agradar.
Os que me acham complicado e exigente se enganam.
Sou mais fácil de agradar
que um cachorro a quem se dá um osso de plástico.
Se você me chamar para passear com ele, o cachorro,
eu também fico feliz, e jogo o osso,
e dou risadas junto com você, mulher,
enquanto o cachorro persegue os patos do lago artificial,
deixando a falsa tíbia de gato, agora apenas um pedaço de plástico,
a dormir branca na relva.

Sou mais fácil de agradar
que um paciente terminal quando recebe a visita de um repórter curioso,
pois finalmente alguém percebeu que ele está vivo.
Sou mais fácil de agradar
que um especialista em literatura russa
quando recebe um manuscrito inédito de Turguêniev,
ou que um mineiro quando recebe um queijo.

Me agradar é fácil, mulher, você sabe;
não requer prática, tampouco habilidade.
Basta descobrir que dois Rodrigos (o Grota e o Bastardo)
fazem vinte e poucos anos no mesmo dia.
Aceito qualquer ideologia, qualquer posição,
qualquer cultura, qualquer religião,
desde que não se mate e não se morra.
Catolicismo e movimento punk me agradam
sem nenhuma incompatibilidade.
Um rabino e um sheik dividem a mesma sala do meu espírito;
minha faixa de Gaza está em paz;
minha Grande Guerra não se viu.

Sou mais fácil de agradar
que um amigo que encontra um velho amigo,
que um funcionário que acabou de receber o salário
– e é sexta-feira, seis da tarde –
que um político que recebe um elogio público ou uma verba para campanha,
que um amante que acabou de ter seu gozo,
que o malandro que acaba de sair da cadeia
e caminha ao encontro de sua mulher,
que Rubem Braga diante de uma laranja para descascar,
que uma tartaruga doida para comer ração,
que um foguete que acabou de explodir no céu, e nada mais é.

Agradar-me é tão fácil,
Seria melhor não fazer nada.
Nem uma palavra. Nem uma canção.
Só ficar em silêncio
E ser alguém assim mesmo no sonho, na distância, na loucura.
Agradar-me é fácil: basta ser você.

September 18, 2003
Há quem passe no bosque e só veja lenha para a fogueira. (Lev Tolstói)

A inocência é uma forma de insanidade.
(Graham Greene)

Só os profetas enxergam o óbvio.
(Nelson Rodrigues)

Amanhã morrerei.
(Herberto Helder)

Gastei metade do meu dinheiro com mulher e cerveja. O resto, desperdicei.
(Anônimo - mas desconfio que é meu amigo Ricardo Nélson)

barrigudo, casadíssimo, meia-idade...

September 18, 2003
Leia uma crônica sobre a minha barriga.

metafísica domiciliar

September 16, 2003
Imagem da verdade.

A verdade consiste na colher.
A beleza, no espelho (do banheiro).
A idéia, achei no lustre (de aço);
o tempo, na cadeira (de balanço).

Tempo? Alguém disse tempo?
O cronológico mora no quintal,
o psicológico vive de cama,
e o astronômico foi esticado no varal,
ao vento.

O instante guardei na estante.
Pus as roupas no corolário
e as dúvidas no armário;
as mônadas, no guarda-roupas;
e os livros, no inventário.

Incognoscível lar
este que vim habitar:
o ser entrou pelo cano
e o ente saiu do ar!

Conversei com o devir.
Chamei o eletricista e o demiurgo
pra libertar o arbítrio
e recomeçar o mundo.

Vidraceiro já chegou
pra fixar o Órganon
e, com grande paciência,
finalmente definir
o ato e a potência.

A morte na varanda,
no lavabo e na garagem
e até mesmo no vaso,
desejando boa viagem.

A morte vive rindo
nos livros empoeirados,
nos poemas esquecidos
e, enfim, por todos lados.

O rio da minha Brastemp
é mais dinâmico que Heráclito.
E a lagartixa da parede,
mais parada que Parmênides.

Um movimento interno do espírito
encontrei lá no vestíbulo.
Mas as ilusões da mente
empurrei-as ao destino
pra debaixo do tapete.

Arrumei bem os lençóis.
Estiquei a pobre alma.
E vestindo guarda-pó
escondi todo meu karma.

Deus gravou recado na secretária
e os teólogos bateram às portas da percepção.
(Campainha está quebrada;
esperanças todas mortas;
interfone fala não.)

Mas fui ouvir o recado de Deus,
e como não sei hebraico, latim ou aramaico,
fiquei no mesmo inferno português,
no martírio de ser laico.

Onignorante,
oniausente,
onimpotente,
me especializo no papel de otário,
e de angústias fiz um dicionário.

Estou ser-aí pro que der e vier,
e o medo ainda é meu chão.
A vida está na colher:
prolegômenos de feijão
servi com paradoxos
e, sempre ortodoxo,
morri de inanição.

não me convidem para...

September 15, 2003
...debates sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. É o assunto mais chato do Brasil. E eu não sou jornalista – só nas fichas de hotéis e das Casas Pernambucanas.

...um show do Skank, do Cidade Negra, da Ivete Sangalo, do Milton Nascimento. Ou melhor: não me convidem para nenhum show. Só vou pensar no caso se for o Paulinho da Viola.

...qualquer coisa que tenha as palavras conferência, congresso ou fórum. Principalmente se houver alguém que diga as seguintes frases: “Tudo é política” ou “O pior analfabeto é o analfabeto político”.

...assistir a filmes como “Assassinato em Gosford Park”. Eu sei, eu sei. O roteiro é excelente, gosto do Robert Altman, mas não suporto filmes bons que não provoquem emoção. Arte, para mim, não pode ser um mero exercício cerebral. É preciso lembrar que só tenho três neurônios.

...participar da eterna polêmica Londrina versus Curitiba. Amar uma cidade é amar uma mulher. Geralmente, os critérios racionais são os que menos contam.

...festas em que só há cerveja Kaiser, Schincariol ou similares. Cerveja ruim deveria ser enquadrada como tortura pelo Código Penal.

...reuniões. Ah, por favor, não me convidem para reuniões. Aliás, para reunião não se convida. Convoca-se.

cuidado! os juros atacam!

September 11, 2003
O presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda cuidam dos juros.

Na Carta de Londrina desta semana, uma crônica inspirada pela minha conta corrente. Leia aqui.

September 10, 2003
Outro dia recebi outro o e-mail bilíngüe de um consultor de recursos humanos. A mensagem dizia o seguinte:

Por favor, Briguet,
Estou atualizando meu catálogo de endereços. Se possível, envie-me os dados atuais de seus contatos. Grato.

I'm updating my address book. Please take a moment to update me with your latest contact info. Thank you very much.


OK, acho que podemos incluir o trouxa do Briguet em nosso mailing!

Ingênuo, atendi ao pedido. E aproveitei a gentileza do homem para lhe mandar o e-mail de aviso das minhas crônicas.
Imediatamente, ele me respondeu com um e-mail curto e grosso, que continha só uma palavra na linha de assunto, sem tradução em inglês:

REMOVER

Conclusão: uma consultoria de recursos humanos vale muito mais do que as minhas crônicas.

E nunca mais me mande e-mails de crônica, Briguet!!!


um livro no banco do bosque

September 09, 2003
Henry  Miller Recebi um e-mail com um pedido interessante: no dia 11 de setembro, deixar um livro que tenha marcado a minha vida em algum local público, com uma dedicatória.
Decidir atender ao pedido. Vou deixar, em algum banco do Bosque de Londrina, “Trópico de Capricórnio”, de Henry Miller. Para quem quiser pegar.
O livro é inteiro bom, mas as 20 primeiras páginas, que li há 16 anos e meio (portanto, metade da minha vida atrás) foram um dos maiores impactos que já sofri ao entrar em contato com uma obra de arte. Quando fechei o livro, eu era um outro homem. E, de alguma forma, continuo sendo esse homem até hoje. Impacto semelhante, só mesmo ao ler Tolstói, o “Eclesiastes” e o “Hino ao Amor”, de Paulo. Aquele outro Paulo, o são.

*********

Quero simplificar minha vida.
Meu sonho é ser uno.
Quero apenas um amor (já tenho).
Quero um só trabalho (escrever um livro).
Uma só chave. Um só cartão. Uma só cerveja.
Quero uma semana só de Quintas Sem-Lei.
Quero um ano só de setembros.
E só uma vida, só um medo, só um livro.
Morte, nenhuma.

**********

Ah, também teve aquele conto de Hemingway, “Um Lugar Limpo e Bem Iluminado”. E “Angústia”, de Tchekhov. E “Os Sertões”. Assim eu não paro nunca!

Idioma de bar

September 07, 2003
Mais uma.

Pode cuidar, tio.
Quem é vivo sempre aparece.
Oba, tudo legal?
Beleza?
Vocês estão usando essa cadeira?
Quantos copos?
Mais duas e o cardápio.
Tá descendo que nem água.
Eu já volto.
Enche essas, garçom.
Amizade, vê uma porção de fritas.
Eu não gosto de beber com estômago vazio.
Só faltava um mar aqui na frente.
Saúde!
Todo mundo que tem som potente também tem mau gosto musical.
Uma estupidamente, companheiro.
Congelou.
Garçom!
Amigo!
Campeão!
Freitas!
A gasolina vai subir. Só o meu salário é que não sobe.
E os juízes, hein?
E o Corinthians, hein?
E o Palmeiras, hein?
E o Lula, hein?
Ah, como eu sou desastrado. Freitas, um paninho.
Amanhã a gente podia combinar um churrasco.
Arriba, muchachos!
Acabou a bateria do meu celular.
Você vai no banheiro comigo, Márcia?
Rapaz, olha só aquela morena no balcão.
Eu vou indo que a patroa tá esperando.
Passa lá em casa.
Vocês vão pagar com cheque ou dinheiro?
A saideira e a conta.
Ninguém pediu porção de calabresa.
Senta aí, deixa de bobagem. Mais uminha não vai matar ninguém.
Essa é da casa, Freitas?
Olha só quem chegou: o Pafu!
Você ligou para o Ricardo Nélson. No momento não posso atender. Deixe o seu recado após o sinal.
Arriba, muchachos!

SEXTINA DO SILÊNCIO

September 06, 2003
Para Rosângela Vale


Já entendo o teu silêncio,
ele é a língua materna.
Desde o primeiro grito,
ele morava no meu corpo,
e habitava minha boca
quando eu era um embrião.

Só o vento pode falar do vento.
Mesmo se as águas explodem
as tíbias dos elementos.
Mesmo que os homens do Norte
me considerem um fraco
por nunca dizer um não.

Meu grito e teu silêncio
sós no abismo dos fatos
como falcões de tormento,
se perderam e se acharam,
amantes de carne ferida,
desnorteados no tempo.

Meu poder é teu silêncio.
Nenhuma palavra foi dita.
Quero ouvir recitar o vento
na circunstância da vida
que brota de escuridões
em constante movimento.

Amo teu silêncio
mais do que a verdade.
Amo teu silêncio
mais do que o ar.
O meu nome é teu silêncio – e acredita:
teu silêncio até me faz silenciar.

CARTA DE LONDRINA, QUEM DIRIA

September 04, 2003
Quem diria este computador que não funciona. Este telefone que não toca. Esta mão que não trabalha. Esta cabeça que não pensa. Este coração e esta conta que não batem. Este planeta que não gira, este dia que não anda, essa semana que não acaba. Quem diria este tempo que não passa!
Quem diria que chegou a Quinta Sem-Lei. Quem diria que tem uma nova crônica para você ler aqui.

E QUE A SEXTA NOS SEJA LEVE!

onde está pafu?

September 03, 2003
Jean Aldrin do Carmo Ribeiro, o Pafu

Ele é pequeno – pequeno mesmo - desses que são jogados no ventilador pelos colegas da 5a. série ginasial.
A pergunta é: CADÊ PAFU? Suas reduzidas dimensões físicas tornam a busca ainda mais difícil. Para piorar, ele adota o codinome JEAN quando dá aulas de matemática.
Alguém diria que então é fácil encontrá-lo! Engano. Quando o procuramos na aula de trigonometria, dizem que ele está na aula de geometria analítica; quando o procuramos na aula de álgebra, dizem que ele está na aula de reforço; quando o procuramos na aula de história medieval, dizem que ele está na aula de lambada; quando o procuramos na aula do Tanga, dizem que ele está no bar. Ei, alguém aí viu o Pafu?
Seus alunos e alunas dizem: “Ele é tão feinho que chega a ser bonitinho”. A despeito da estética nada convencional, Pafu namora uma linda garota, Adriana, natural da cidade de Uraí. Na última vez em que se viu Pafu, ele cantarolava o samba de Zé Kéti: “Se alguém perguntar por mim / Diz que fui pra Uraí / Levando um violão debaixo do braço”. Detalhe: o violão é meu!
Apesar dos crimes que lhe são imputados – calvície; impontualidade; tirar a camisa nas festas; conversa fiada; arrumar briga com a Torcida Independente do São Paulo; planos mirabolantes de vender pastel na feira; admiração por George Michael e Ivete Sangalo –, sou amigo do pilantra. Amigo, irmão, padrinho de seu sobrinho e tio por afinidade. Mas fiador, não! Fiador, jamais!
Ele é um crânio – o que pode ser facilmente visto, dada a ausência de cabelos. Já estudou administração na GV, e se tivesse concluído o curso hoje estaria no governo. Graças a Deus, isso não aconteceu! Se o país ficasse na mesma situação que a casa do Pafu após as festas que ele promove, estaríamos mal, muito mal!
Seu sonho é unir matemática e história numa só ciência. Sei lá o que vai dar, mas sei que ele vai conseguir. E eu não quero estar por perto quando acontecer. Talvez o mundo venha a ser algo como um de seus churrascos, acontecimentos caóticos que se repetiam mensalmente na casa do indivíduo, antes que ele sumisse do mapa. Para cada churrasco do Pafu, só há uma definição: “É ruim, mas é bom!” No penúltimo, quase teve briga de mulher.
Conheço Pafu há tanto tempo que ele era cabeludo. Sei que ele tem alguns hábitos, que podem facilitar a identificação:

1. Pafu adora geopolítica. Se alguém começar a falar simultaneamente de Likud, IRA, Golfo Pérsico, Vietnã, ONU, Unesco, OMS, Médicos Sem Fronteiras, facções do Partido Socialista Francês, petróleo de Baku e refugiados da Mauritânia – esse alguém só pode ser o Pafu.
2. Pafu conhece tudo sobre o Antigo Egito. Desconfio que o vigarista não leu o “Crime e Castigo” que lhe dei de aniversário – mas faraó é com ele mesmo. Se alguém recitar as dinastias egípcias de madrugada, não tenha dúvida: É O PAFU.
3. Pafu costuma se apresentar como jornalista. Diz que foi editor de Política de jornais contra a ditadura militar, embora tivesse menos de dez anos de idade na época. Dizem que ele conseguiu registro profissional, ninguém sabe como. E já foi convidado para ser correspondente do Última Hora em Londrina. Que o UH não exista é apenas um detalhe. Pafu tudo pode – mas nem tudo lhe convém.
4. Pafu é demorado. Com ele, as coisas não costumam ser, digamos assim, batata. Queria que eu desse uma aula de Revolução Russa para turmas de colegial. Demorou tanto que eu nem sou mais comunista.


Por essas e outras razões, eu peço: se alguém encontrar o Pafu, entre em contato com este blog. Estamos preocupados. Com Pafu solto no mundo, ninguém sabe o que pode acontecer. Ao mundo!

somos todos mitocondrianos

September 03, 2003
Eu, tu, eles: todos temos.

Segundo o dicionário Houaiss, que eu acabo de instalar em novo computador, mitocôndria é “uma organela citoplasmática membranosa, cuja principal função é a geração de energia através da síntese do trifosfato de adenosina (ATP)”.
Lembrei-me dessa palavra não sei por quê – um vago souvenir da aulas de Biologia Celular.
E tive um pensamento estranho: Carlos Nejar, a Juliette Binoche, a Carolina Ferraz, a Margaret Thatcher, o Kenzaburo Oe, eu e você, leitor(a), possuímos mitocôndrias. E alma.
Mal foi instalado, o novo computador já deu problema.

das violências

September 02, 2003
A guerra entre o mundo e a linguagem, por Picasso.

Há uma violência do mundo – e uma violência da linguagem. São irmãs; travam uma guerra sem fim.

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Quase todos os grandes livros, histórias ou poemas são violentos. Hino ao Amor. Hamlet. A Divina Comédia. Guerra e Paz. Crime e Castigo. As Neves do Kilimanjaro. O Velho Testamento. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os Sertões. O Sermão da Montanha. Malone Morre. A Construção. Casa de Bonecas. A Máquina do Mundo. Todas essas obras provocam violentas reações na alma do leitor.

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Quando a violência da linguagem se submete à violência do mundo, copiando-a ou louvando-a, o resultado é grotesco. Assim nasce grande parte da linguagem panfletária, publicitária ou ideológica de nosso tempo.

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Eu não quero a violência do mundo. Por isso, escrevo. No mundo da literatura, a delicadeza pode ser uma forma suprema de violência. Um poema de Herberto Helder, para a placidez do leitor, é mais letal que uma carnificina.

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Talvez não exista frase mais importante que a do Filho do Homem: “Meu reino não é deste mundo”. A partir daí, a humanidade recontou o tempo. Tal linguagem consistia – consiste – numa guerra feroz contra a violência do mundo.

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Uma frase mal colocada, quando eu bisbilhotava os jornais do dia, me fez hoje ver o impacto deste Armagedon permanente: a estupidez é o primeiro estágio da morte. Mas quem sou eu para julgar?

RATOS COM ASAS?!

September 01, 2003
Estou com um problema.
Há poucos dias publiquei uma crônica sobre a pomba que resolveu fazer ninho na minha janela.
Achei ótimo ser anfitrião da ave.
Muita gente aprovou meu gesto. Duas amigas, no entanto, me alertaram: a proximidade da pomba pode causar diversas complicações – de saúde.
A primeira amiga, Sílvia, disse que a pomba transmite terríveis piolhos.
A segunda amiga, Deni, chamou as pombas de “ratos com asas” – bela imagem poética! – e disse que elas transmitem oito tipo de doenças. Se fossem dez tipos, não seria tão assustador; mas oito tipos de doença causam medo em qualquer um.
Um terceiro interlocutor, o tipológico Bala, adaptou um velho ditado espanhol, e escreveu: “Cria pombas, e elas te devoram”. Isso também me bota medo.
Por falar em botar, os dois ovinhos da pomba continuam ali. Brancos e, aparentemente, inofensivos no pobre ninho natalino.
Como diria um jovem nos anos 70: POMBAS!
Sou moralmente incapaz de desfazer o ninho – principalmente depois de ter feito uma crônica sobre a pomba! Pensei, então, numa solução intermediária: usando luvas protetoras, transferir o ninho, intacto, para outro local, numa caixa de papelão.
Consultei minha assessora especial para Assuntos de Limpeza & Questões Relacionadas a Animais e Plantas, dona Santina, e ela imediatamente demoliu a minha idéia supostamente brilhante. Segundo minha fiel secretária, as pombas são bichos esquisitos, e jamais cuidam do ninho se ele for transferido de local.
Mas, apesar de maníaco por higiene, serei estóico: deixarei a pomba chocando seus ovos. Afinal, seja ela um rato com asas ou não, foi escolhida como símbolo da paz e personificou o Espírito Santo no batismo de Jesus (não é mesmo, caro Bala?).
Que a pomba fique em paz, enquanto rezo pela minha saúde.
Se eu pegar piolho, por favor não me abandonem, amigos. Foi por uma boa causa. Que a vida – inclusive ratos e pombas – siga seu rumo.