Quando eu me entregar finalmente à loucura,
será uma quinta sem-lei
ou um sábado de festa
ou uma tarde de domingo.
Aí terei saudade de todas as crianças não-nascidas
e o único prazo será o já-passou.
Receberei salário de vozes,
pagarei contas com eufemismos,
atravessarei a rua olhando para metáforas
e só sentirei dor
se tomar uma pílula de vazio.
Me entregar,
como a boca se abandona ao primeiro gole de cerveja
no primeiro dia de verão.
Me entregar
na angústia que suprime todas as angústias,
na cor que o Sol não produz,
sob a legislação do pesadelo benigno.
Me entregar
num último pedido de desculpas,
ao amor vinculado ao restante de matéria e vácuo;
me entregar
à grande anedota da filosofia e da ciência,
só para sustentar
que conhecimento não há.
Será fácil saber
quando eu me entregar à insanidade.
Bastará perceber o silêncio,
a imobilidade, o equilíbrio,
a paz.
Bastará notar a fixidez dos olhos,
o descanso da boca,
a omissão dos braços,
o suave rugir da manhã sem dono.
Será um dia feliz e sombrio,
quando eu me entregar finalmente à loucura.
Silvia Rocha