O redemoinho é meu lar. A sala está em fúria. Há cavalos enlouquecidos no quarto de dormir. Há um tio esclerosado preso no guarda-roupa. O banheiro foi ocupado por vertigens – se a gente bate na porta, elas respondem: “Tem gente!” A cozinha consome-se em labaredas desde 1996. O corredor encontra-se tomado por geleiras. Olhos e bocas sobrevoam o céu da varanda. Não, não é sangue na geladeira, dr. delegado: é vinho. Há gritos de clímax percutindo a música do Radiohead que ouço agora.
Logo vou receber o telefonema de minha bela seqüestradora. É a Síndrome de Estocolmo.
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Se abro as torneiras, jorram frases erradas que eu mesmo disse. Se visto uma calça, ela sai andando comigo pelo jardim dos espantos, onde os caminhos se bifurcam, meu Deus, e se bifurcam, e se bifurcam, e se bifurcam. Se escolho uma camisa, ela parece ter sido cortada para mim pelo alfaiate do tempo. Se abro a porta de saída – Cristóvão Colombeta! –, cai uma tempestade de luzes, menos solicitadas que um spam destinado ao conserto de máquinas de escrever.
De quanto será o resgate de mim mesmo? Preciso estar bem vestido para o cativeiro.
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Eu tinha um tio esclerosado que passava os dias cantando. Me diga lá, quem não tinha um tio esclerosado que cantava? Nunca vi esse tio. Ele ficava no quarto, com a enfermeira. Crianças eram proibidas de vê-lo.
Quando íamos visitar meus primos, todo mundo fingia que não estava ouvindo. Mas ele cantava canções da velha Espanha, enquanto tomávamos suco de caju e comíamos bolachinhas de nata na sala de estar. Eram canções da época da Guerra Civil.
E até hoje meu tio esclerosado canta. Porque o redemoinho é meu lar. E você, pequena e forte mulher seqüestradora, é o outro lado do desespero.
Qual música do Radiohead? Isso pode alterar completamente minha percepção do texto.