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Archive for August of 2003

carta de londrina

August 29, 2003
A pomba de outro Pablo.
Tem uma pomba na minha nova crônica. Leia aqui.
PS: A QSL de ontem foi sarvage, para usar a expressão de uma celebridade presente, Groo. Eu não tenho mais idade. Fé em Deus!

RAZÕES PARA IR À QUINTA SEM-LEI

August 28, 2003
Copyright by Denise Somera - 2003
Eu vou, eu vou, pra quinta agora eu vou.
Vou para a Quinta Sem-Lei porque é no quinto dia da semana que a noite amadurece. Porque, como demonstrou Einstein, o raio de luz e o balcão fazem curva. Porque todo médico diz a mesma coisa: não beba, pratique exercícios, durma oito horas por noite. Porque a Inês vai me servir. Porque eu detesto leis.
Vou para a Quinta Sem-Lei porque minha namorada vai – e foi lá que eu a vi direito depois de 14 anos. Porque lá encontrarei o presidente das Organizações QSL, jornalista Marcelo Rocha. Porque lá tem de Janaína a Yuge, de Guilherme Mendes da Costa a Rogério Fischer. De Ivo Akio a Lúcio Flávio Moura. De Alessandro Camargo a Luiz Carlos Bruschi.
Vou para a Quinta Sem-Lei encontrar meu amigo Ricardo Nélson, o médico que bebe, é sedentário e só dorme três horas por manhã. Enquanto conversa com o próprio fígado – sim, os fígados também falam – ele vê todo mundo, o mínimo gesto, o mínimo detalhe, a mínima letra – e anota minuciosamente em seu misterioso caderninho. Hoje, Ricardo Nélson vai baixar na QSL.
Vamos, vamos para a Quinta Sem-Lei – para falar de amor e morte, para ficar em silêncio, para proferir verdades absolutas que esqueceremos no dia seguinte.
Vamos demorar 45 minutos para chegar ao banheiro.
Vamos cantar a música da Turma do Galão Mágico.
Vamos dizer que o Lú-cio Hor-ta é coisa noooossa!
Vamos passear no jardim etílico da infância.
Vamos sem medo, porque existem várias razões para não ir, mas nenhuma delas me convence.
Um minuto de silêncio para a Quinta Sem-Lei. Depois, algumas horas de barulho.
E que a sexta-feira nos seja leve!

(O logotipo acima é cortesia da amiga Denise Somera.)

pedido de desculpas ao planeta marte

August 27, 2003
Os seres perigosos estão na parte de baixo.
Planeta Vermelho, Planeta Vermelho:
Agora que estamos tão perto, saiba que pensamos mal de ti nos últimos milhares de anos. Em nossa delirante imaginação, achamos que haveria um vínculo entre tua cor rubra e um suposto gênio maligno. Tanto é que te demos o nome do deus da guerra. Esquecemos, porém, que vermelho também é nosso sangue.
Tivemos medo de ti, irmão solar. Achamos que haveria habitantes abomináveis, homens verdes e frios, em tuas planícies e montanhas. Seriam eles baixinhos sem sangue nas veias, de olhos inexpressivos, dedicados a conquistar o nosso mundo e a escravizar a humanidade sem nenhum contato diplomático prévio.
Eles, os habitantes de teu solo encarnado, chegariam de surpresa à noite, em pesados discos de metal, todos armados até os dentes – teriam dentes, os marcianos? – com espetaculares armas de raio laser.
Um louco chamado Orson Welles chegou a anunciar pelo rádio a presença dos invasores; muita gente acreditou e caiu em desespero.
Ah, Planeta Vermelho, se soubéssemos que tu és apenas areia, pedra e vento! Durante os últimos milhares de anos, nossa principal atividade foi lembrar de esquecer. Fosse a Terra feita só de areia, pedra e vento, a areia seria jogada nos olhos do inimigo, a pedra seria arremessada contra o vizinho e o vento seria o último sobrevivente.
E no entanto temos fogo, água, terra e ar. O fogo seria para aquecer; a água seria para beber; a terra seria para cultivar; o ar seria para respirar. E no entanto, como provaram e provam os seres de sangue vermelho, o fogo também queima, a água também afoga, a terra também enterra e o ar também rareia. Martirizamos os quatro elementos. Somos os verdadeiros marcianos de nós mesmos.
Pacífico Planeta Vermelho, lance hoje à noite o teu olhar de compaixão sobre teu Irmão Azul. Vamos aproveitar a chance para corrigir um erro de milênios. A partir de hoje, Marte será Terra e Terra será Marte.

pensamentos de segunda

August 25, 2003
Prazo é o nome contemporâneo da escravidão.

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Escrevo melhor do que falo; falo melhor do que penso. Imagine o que eu penso!

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Ainda bem que vidas humanas não dependem do meu trabalho. Se eu fosse médico, as crônicas e poemas jogados na lixeira corresponderiam a pacientes mortos? Cassem o meu CRM, antes mesmo que eu pense em prestar vestibular para Medicina.

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Karla Matida e Ranulfo Preto Pedreiro querem confeccionar camisetas com os seguintes dizeres: QUINTA SEM-LEI: EU VOU. E já faz uns dois meses que o Preto não vai, o miserável.

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Dorothy Parker dizia que preferia o Céu pelo clima e o Inferno pela companhia. Isso explica o sucesso da festa dos jornalistas de Londrina, no último sábado. Houve quem dormisse no gramado, servindo de pasto às formigas. Eu não fui tão longe, mas meu organismo assimilou a festa em forma de gripe. Dias virão, dias virão.

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“O amor é a vitória sobre o medo.” Frase do meu amigo Ricardo Nélson, que esteve na festa dos jornalistas. Detalhe: ele é médico.

quando eu me entregar finalmente à loucura

August 21, 2003
A noite estrelada de Van Gogh

Quando eu me entregar finalmente à loucura,
será uma quinta sem-lei
ou um sábado de festa
ou uma tarde de domingo.

Aí terei saudade de todas as crianças não-nascidas
e o único prazo será o já-passou.
Receberei salário de vozes,
pagarei contas com eufemismos,
atravessarei a rua olhando para metáforas
e só sentirei dor
se tomar uma pílula de vazio.

Me entregar,
como a boca se abandona ao primeiro gole de cerveja
no primeiro dia de verão.
Me entregar
na angústia que suprime todas as angústias,
na cor que o Sol não produz,
sob a legislação do pesadelo benigno.

Me entregar
num último pedido de desculpas,
ao amor vinculado ao restante de matéria e vácuo;
me entregar
à grande anedota da filosofia e da ciência,
só para sustentar
que conhecimento não há.

Será fácil saber
quando eu me entregar à insanidade.
Bastará perceber o silêncio,
a imobilidade, o equilíbrio,
a paz.
Bastará notar a fixidez dos olhos,
o descanso da boca,
a omissão dos braços,
o suave rugir da manhã sem dono.

Será um dia feliz e sombrio,
quando eu me entregar finalmente à loucura.

uma lágrima para sérgio

August 20, 2003
Passei boa parte da minha vida detestando a moderação e, paradoxalmente, sendo um moderado nas atitudes. Durante muitos anos eu fui um “radical diplomata”. Essa contradição entre meu temperamento e minhas idéias políticas causou-me bastante sofrimento, mas ao final revelou-se positiva: há algum tempo descobri que a razão estava com o temperamento, e não com as idéias políticas.
A diplomacia venceu o radicalismo. Hoje, sou um moderado assumido. Tenho uma nova contradição: considero-me um anarquista que não quer tomar o poder – pelo simples fato de que não gosta dele.
Mas moderados não deixam de sentir indignação. A morte do embaixador Sérgio Vieira de Mello é uma grande derrota para todos os moderados do mundo. A atitude covarde – expressão redundante quando se fala em terrorismo – de atacar a ONU em Bagdá, um alvo fácil e desprotegido, só vai facilitar as coisas para os radicais de ambos os lados. Quem parou para pensar sabe que a ONU, com todas as críticas que lhe podem ser feitas, sempre defendeu a negociação em vez da violência neste episódio do Iraque (outro grande defensor da paz, justiça seja feita, foi o papa).
Acompanho a carreira de Sérgio Vieira de Mello há algum tempo. Destaco, especialmente, o seu trabalho no Timor Leste – como ele mesmo disse, a primeira nação do século XXI. É uma pena que ele tenha morrido justamente na primeira guerra.
Moderados de todo o mundo, uni-vos. Hoje morreu mais um dos nossos.

resposta aos e-mails

August 18, 2003
1.
A todos vocês
que me enviaram mensagens
nos últimos dias,
venho por meio desta,
quebrada em versos quebrados,
pedir desculpas
pelo silêncio e a grosseria
de nada dizer
enquanto vocês disseram tanto.

2.
Tenho (aliás: tinha) só cinco minutos
Para responder a vocês todos
e temo que será impossível,
pois não possuo o dom nazareno
da multiplicação dos tempos.

3.
Vocês que se interessaram
vocês que elogiaram
vocês que foram gentis,
que foram sinceros,
que foram amigos,
que foram honestos,
que foram atenciosos,
que foram gente fina.
Você que informou,
você que orientou,
você que ponderou.
Você, Dado, amigo que eu não vejo há nove anos,
vocês que se comoveram com a morte do Carlos,
você que não acredita que o Haroldo de Campos
também morreu,
vocês que escreveram da Terra do Boi Gordo
para a Terra Vermelha,
você, Phoenix, sempre com palavras carinhosas,
você, garota que redigiu um belo ensaio,
você que mandou belas imagens,
você que enviou piadas meio infames,
você que encaminhou textos
para avaliar, revisar e compilar,
e mesmo você que me deixou
uma nota sem pé nem cabeça
ou um daqueles escritos
de porta de banheiro público,
mesmo você que não disse
nada com nada,
ou ainda os publicitários
e marqueteiros
que redigiram spams
– eu não sou digno de vocês.

4.
Meu Outlook Express,
que nada tem de expresso,
foi-se acumulando
de mensagens;
quando, vi tudo era um caos,
um caos irrespondível,
e tanto mais impossível
porque finito.

5.
Acabam-se os cinco minutos.
Preciso cair no mundo,
almoçar, trabalhar,
viver a vida útil
depois de três dias
de sonho.
Mas ao final de tudo,
mulher, ouvirei a sua voz,
e tudo será resposta,
me lançando de volta
para dentro de mim mesmo.

o império da meia-verdade

August 14, 2003
jornalistas têm compromisso
com a verdade
escritores têm compromisso
com a mentira
cronistas têm compromisso
com a meia-verdade

ser cronista
é como ouvir um sinal de ocupado
por nove horas seguidas
esperando que alguém fale

cronikós é um semideus risível
caído
dominado pela loucura
(o reino é árido)

crônicas são e-mails
que envio para mim mesmo
só para ter mensagens novas
no outlook express

não posso dizer
que sou cronista
para a moça das pernambucanas
quando ela pergunta: profissão?

crônicas são escritas
no tremular do ônibus urbano
e depois são dizimadas
por críticos literários sérios
(o haroldo de campos não gosta
de crônicas)

o cronista,
como o nome já diz,
é um refém do tempo

mas o seqüestrador sumiu
e ninguém sabe qual é o resgate

ouça bem: é o sinal de ocupado

A MORTE DE UM JORNALISTA

August 13, 2003
Na Carta de Londrina desta semana, uma homenagem ao jornalista Carlos Silva (1932-2003). Leia aqui.

EM NOME DA TARDE SERENA

August 10, 2003
Em nome da tarde serena,
eu penso nas árvores sob o lago da represa,
na dor das garotas que acordam de ressaca,
na alegria do pequeno cão que passeia com o dono,
no mutismo das gavetas trancadas para sempre.

Céu, lugar da tarde serena,
aonde vão os balões esquecidos por crianças,
e a fumaça dos incêndios e das festas da cidade,
e os urros abissais de prazer na cama cálida?

Tarde, circunstância compreendida entre o cedo e o mais tarde,
litígio eterno e franco entre o claro e o escuro,
tarde, companheira magistral de todo o tempo em todo o tempo,
tu és o nome gritado pelo recém-nascido
e o argumento das ondas em fúria na penumbra;
tu és a expansão dos soturnos segredos
e a impertinência audaz das matérias em fogo.

Tarde, serena tarde, irmã mais nova dos dias e das coisas,
habitante do espaço e atriz do momento,
quem somos nós para assim te definir, mãe tarde,
quando chegas ao teu fim?

Nada mais falarei sobre o teu movimento.
Nada mais pensarei sobre tal permanência.
Nada mais cantarei nesta tarde serena.

prêmio, eu?!

August 07, 2003
Vai sonhando, Paulo Briguet.

A crônica Manhã Inexistente obteve o primeiro XII Concurso Clarice Lispector, promovido pelo Satélite Esporte Clube, entidade vinculada aos funcionários do Banco do Brasil. A cerimônia de premiação está marcada para o dia 15 de agosto, na sede social do clube, em São Paulo. O prêmio é um microcomputador – o que poderá ajudar o autor a trabalhar mais e, quem sabe, escrever um pouco menos mal.
Agora, vou ler o Eclesiastes, que ando precisando (“Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades! Tudo é vento e vaidade.”).

*********

A Carta de Londrina deste semana é uma carta de amor. Leia aqui.

TRISTE É VIVER NA SOLIDÃO

August 05, 2003
Pablo Picasso -

O Mundo Paralelo é triste. Tem só eu, o Zé e o João. Mundo solitário e pequeno, desabitado como uma lua de Saturno. Eu mais Zé mais João.
A grama do vizinho sempre é mais verde. Os nomes já dizem tudo: este é Paralelo; o outro, Original. Este é simulacro, filial, clone. O outro é modelo, matriz, autêntico. O outro, sim, tem gente de todos os tipos. O outro, sim, ostenta uma galeria de personalidades. Tem de Ygor a Yuge; manda Bala e chama de Bastardo; tem Fábio Galão e Cavazotti; reúne Rodrigo Moraes, Grota e Manzano; concilia James e Tanga; cintila com Gabi, Paula, Loriane, Ísis, Beth, Ariadne – tem mulher no Mundo Original, meu Deus!
Aqui só eu mais Zé mais João.
Não temos ibope. Não temos foto. Não temos tipo. Fomos esquecidos por Deus. Não somos o mundo eleito. Não seremos conduzidos à Terra Prometida, onde há leite e mel. Seremos conduzidos apenas e tão-somente ao boteco da esquina, na melhor das hipóteses. Eta Mundo Paralelo véio, sem porteira! Eu mais Zé mais João.
Esse Mundo Paralelo lembra um parque de diversões abandonado. Comparáveis somos a uma obra faraônica deixada pela metade desde o governo Ney Braga. De consolo, apenas duas frases telegráficas: “Calma. Tamo quase lá”.
Eu mais Zé mais João. Trio de garçons olhando para as mesas vazias, enquanto o restaurante do vizinho está lotado. Três músicos tocando para as moscas. Três cactos no deserto.
Cadê todo mundo? Cadê o mundo? Tem alguém aí do outro lado?

(PS: Antes que eu me esqueça, amigos leitores e chefe Moraes, é tudo brincadeira. Não me levem a mal. Tem sido uma honra fazer parte deste Mundo Paralelo, e muito divertido. Ando feliz, como os leitores deste blog sabem. Mas não resisto a fazer drama sem motivo, só para não perder o mote. Na verdade, nada tenho a reclamar. Eu mais Zé mais João.)

VIDE VERSOS DE SEGUNDA

August 04, 2003
Piet Mondrian -

(Nunca pensei que faria um poema para dizer que não sou poeta. Mas aí está.)

**********

Vida, insônia da morte,
não me deixe dormir
que ainda não sou poeta.
Não me deixe dormir
indiferente, vida,
insônia da morte.

Não me deixe dormir
que não quero.
Que só serei poeta
ao acordar indiferente às horas.
Insônia da morte, vida,
indiferente às horas.

Não me deixe dormir
que agora estou vivendo.
Não me deixe dormir
na mesa da cantina,
na sala de trabalho,
na rua e na avenida, vida,
não me deixe dormir
que agora estou falando,
não me deixe falar
que o sono é engano.
Vida, pronúncia da morte.

E só serei poeta
ao subtrair a facilidade.
Ao ser usado pelo verbo
que tudo em nós precede.
Ao ousar conciliar
o câncer e o arquivo morto,
o fruto bom da natureza em guerra,
o gozo audaz e os mendigos paralíticos,
a escuridão da veia cava adentro
e o incesto permanente de viver no ar.

Ainda preciso ler tanto,
e ver tanto, e ignorar tanto,
vida, ainda preciso morrer tanto.

O que faço hoje, vida,
é apenas rabiscar a prosa em versos,
apenas dividir os tempos do tempo,
enquanto me consagro
nos quadrantes da paixão.

Preciso ler o poeta que nunca li,
pois sempre, ao relê-lo,
descubro um novo poeta inatingível.

E ainda não aprendi a língua que sei,
que dirá a que não sei,
vida, a que nunca saberei.

Cumpre hoje, vida,
amar esta mulher até o quinto quadrante
e imaginar as restantes mulheres do mundo,
brilhantes, vida, a consagrar apenas uma.
A celebrar o instante e o medo de outro instante.

Cumpre hoje, vida, acordar em tudo.
E não deixe que eu descanse,
vida, vida, coisa incompleta.
À insônia da morte, vida,
eu sei que não sou poeta.

Ontem fui seqüestrado

August 02, 2003
O quarto do meu tio.

O redemoinho é meu lar. A sala está em fúria. Há cavalos enlouquecidos no quarto de dormir. Há um tio esclerosado preso no guarda-roupa. O banheiro foi ocupado por vertigens – se a gente bate na porta, elas respondem: “Tem gente!” A cozinha consome-se em labaredas desde 1996. O corredor encontra-se tomado por geleiras. Olhos e bocas sobrevoam o céu da varanda. Não, não é sangue na geladeira, dr. delegado: é vinho. Há gritos de clímax percutindo a música do Radiohead que ouço agora.
Logo vou receber o telefonema de minha bela seqüestradora. É a Síndrome de Estocolmo.

**********

Se abro as torneiras, jorram frases erradas que eu mesmo disse. Se visto uma calça, ela sai andando comigo pelo jardim dos espantos, onde os caminhos se bifurcam, meu Deus, e se bifurcam, e se bifurcam, e se bifurcam. Se escolho uma camisa, ela parece ter sido cortada para mim pelo alfaiate do tempo. Se abro a porta de saída – Cristóvão Colombeta! –, cai uma tempestade de luzes, menos solicitadas que um spam destinado ao conserto de máquinas de escrever.
De quanto será o resgate de mim mesmo? Preciso estar bem vestido para o cativeiro.

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Eu tinha um tio esclerosado que passava os dias cantando. Me diga lá, quem não tinha um tio esclerosado que cantava? Nunca vi esse tio. Ele ficava no quarto, com a enfermeira. Crianças eram proibidas de vê-lo.
Quando íamos visitar meus primos, todo mundo fingia que não estava ouvindo. Mas ele cantava canções da velha Espanha, enquanto tomávamos suco de caju e comíamos bolachinhas de nata na sala de estar. Eram canções da época da Guerra Civil.
E até hoje meu tio esclerosado canta. Porque o redemoinho é meu lar. E você, pequena e forte mulher seqüestradora, é o outro lado do desespero.