SAUDADES DA SAUDADE
Por Luiz Carlos Bruschi
Descobri que estou com saudades de ter alguma saudade.Há 34 anos e alguns meses estou nas entranhas da UEL. Quatro como aluno e o restante como professor. Mas, enfim, terei saudades. Em setembro peço minha aposentadoria e estou muito feliz por ter tomado a decisão.
Não quero mais horários, planilhas, projetos, reuniões de Conselhos, comissões de sindicância, greves, passeatas, orientação de alunos, associação de docentes, sindicato, política....
Eu terei saudades, mas farei tudo que até hoje não fiz. Não vou mais levar criança para a escola, não vou esquecer a data da vacina; não vou me preocupar com a entrega, no dia exato, do registro de freqüência dos alunos (embora nunca fiz chamada!). Não farei mais relatórios anuais de produtividade docente, para provar que trabalhei. Não vou mais comprar material para o laboratório com o meu dinheiro, porque a UEL não tem. Nunca mais vou, deliberadamente, sacrificar qualquer animal, embora há tempos já não o faça. Vou ter saudades, mas poderei dormir de dia e trabalhar à noite.
Poderei ir a uma quinta sem-lei depois das onze da noite e sem horário de volta. Vou comprar uma sanfona e um sax. Nem que for para aprender a fazer barulho. Quero "plantar e colher, com as mãos, a pimenta e o sal." Quero ouvir todos os discos que tenho em casa, em uma altura compatível com a minha surdez. Quero reler muitos livros e ler outros tantos que me esperam há tempos nas prateleiras.
Não quero nenhum trabalho formal. Não quero nem mais ganhar dinheiro. A minha aposentadoria me basta. Quero ter muitos motivos para ter saudade da UEL.
De repente, romper é nascer.
Publicado em 25 de junho de 2003 às 14:49 por briguet