
Tom agora vive em outro lugar – lá no céu dos gatos.
O que faz um gato? Mia, toma leite, lambe os pêlos, ronrona, come, dorme, arranha, brilha os olhos no escuro, caça ratos, brinca aos pés dos humanos.
O que me espanta não é a morte. Mais incrível, para mim, é a indiferença total das coisas. O absurdo está em saber que o mundo não tem mais a presença de Tom e continua rodando como se nada tivesse acontecido. Não conheci Tom pessoalmente – se é que os gatos são pessoas –, mas senti a sua morte. Por que o mundo não sente?
Carros passam com o som no último volume; atendentes de farmácias vendem condicionadores e cremes para acne; meninos sem educação põem o dedo no nariz quando ninguém está olhando; pedreiros insistem em prosseguir na construção de um prédio que nunca termina. E ontem, vejam só, eu mesmo tomei cerveja no Bar Brasil, como se o gato permanecesse vivo da silva.
De certa forma, ele está. O ar em que Tom miava continua sendo respirado; os pêlos de Tom ainda se misturam à poeira dos móveis; o som do ronronar de Tom ainda é nítido para os ouvidos que lhe eram próximos; o prato de comida está em seu lugar; a cama de trapos aguarda Tom; vívida é a memória do dia em que ele arranhou uma visita; os ratos estão em paz nas adjacências; os pés mensuram a geometria diária; e o escuro tornou-se mais escuro do que antes.
Tudo se move. Menos Tom. Ele vive no céu dos gatos. E nós, na terra dos humanos.
ele esteve. ele está? o tom que também morreu. porque se não morresse o que era? o que me assusta é o presente que também ganharemos cedo ou tarde. e vamos querer, porque nem há escolha. ou há. ou há briguet?