Canto baixo para que não acordes.
Sei que habitas a curva do vento,
meio-irmão de um homem sem nome.
Dormes.
Tu dormes no quarto ao lado,
no corredor, no vão da escada,
no escuro da sala de estar.
Para que não te levantes,
digo as coisas em voz baixa.
Escrevo à caneta
para que não ouças o rumor do teclado
no escuro.
Tiro os sapatos
para não ouvires meus passos
quando chego à noite em casa.
Desligo o telefone,
vejo a TV sem volume,
leio o papel sem palavras,
ouço a música sem música.
Sei que vens de um país de língua estranha,
onde o mar e a água são opostos.
Uso símbolos secretos
para que tu não me entendas, poliglota;
para que me consideres
apenas um mínimo personagem do teu sonho.
Mesmo na sonata mais alegre de Bach,
tu estás aí.
No gosto do mais puro chocolate
ou no gole da cerveja mais gelada,
estás aí, e eu impeço a tua vinda.
Sei que estás aí, calado,
ou mesmo falando as incompreensíveis línguas do sono,
ressonando tuas fúrias,
espargindo teus abalos sublimados no castigo.
Não acordes.
Não te matarei a sede, nem me afogarás.
O mar da tua água e água do teu mar
permanecerão parados.
Vigio intensamente as segundas-feiras
para que não aflores do teu exílio,
para que não mergulhes ao contrário no ar,
para que sejas apenas um ponto, intenso mas inofensivo,
na voragem da lembrança.
Alguns de teus cavalos enlouquecidos
atravessam, contumazes, a minha quinta sem-lei,
mas ainda assim não ganhas o meu tempo.
Quando passo pelo centro da cidade,
vejo o espetáculo do teu sonambulismo.
De dia, os bares de noite
dormem como fazes agora.
Tu vais a eles, como um elefante
vai aos ossos dos antepassados.
De dia, dormem os bares da noite,
e dentro deles tu dormes.
De dia, as lojas vazias
dormem como estás agora.
Tu vais a eles, como um gerente
vai às notas fiscais do passado.
De dia, dormem as lojas falidas,
e dentro delas te consomes.
De dia, o homem na mesa
dorme diante da bebida.
Tu vais a ele, sentas à mesa
como um bêbado insuportável
faz com seus inimigos.
De dia, dormem os homens na mesa,
e dentro dele tu dormes.
Porém, de nada valem
os bares da noite no dia,
as lojas vazias do centro,
o homem na mesa perdido,
as fábricas estagnadas,
os galpões abandonados,
os pontos facultativos,
as férias coletivas,
os salários atrasados,
demissões sem justa causa.
Não permitirei que acordes.
Vigio intensamente
os cavalos enlouquecidos de mim mesmo,
para que não acordem,
para que não acordes.
Diante da tua água sem mar,
Diante do teu mar sem água,
vejo um ramo de flores amarelas.
Por que lembrar-me de ti,
elas me perguntam,
quando tudo vai tão bem?
Por que lembrar-me de ti
quando a vida flui, água corrente,
no mundo à luz do mundo?
Hoje tens a consistência
de uma pétala de pesadelo.
Mas é que cavalos adormecidos
moram no mais fundo recesso.
Canto baixo para que não acordem.
Canto baixo para que não acordes.
Canto este leve canto,
madrigal que vigia intensamente
o canteiro do teu mundo.
É tua cantiga do sono.
Que não decifres a grande mensagem,
meu meio-irmão de vento.
Eu te desafio, desespero:
por este amor não passarás.
Publicado em 15 de julho de 2003 às 12:10 por briguet
(depois de ter "quebrado" o clima que existe em poemas ter dito que "não entendi" - e pedir explicações)
Que ele não acorde nunca e que este tempo vc viva intensamente. Boa sorte.