Repórter das Coisas

DIÁRIO DE SÃO PAULO

Encontrei você em São Paulo. Por isso, estive longe deste blog.


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Chegar a São Paulo numa tranqüila manhã de sábado é ouvir os acordes nordestinos dos porteiros de prédios conversando entre si.


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Vi mais gente dormindo na rua do que na última visita à cidade.


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Os cartazes da rua, do metrô e das lojas, como sempre, têm erros de português. Isso me lembra uma passagem.

Estava eu num bar, há uns dez anos, quando vi algo muito raro: um cartaz, escrito a pincel atômico, sem erros de português. Fiquei observando o cartaz, admirado, quando o cara que estava sentado perto dele ameaçou partir para cima de mim, dizendo:

– Que cê tá olhando pra mim, rapaz? Tá pensando que eu sou gay?

Desnecessário explicar que, se eu fosse gay, teria o bom gosto de não escolher aquele cara.


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São Paulo. Diretamente da minha infância, senhoras judias levam seus cachorrinhos para passear nas ruas de Higienópolis. E a Casa Pia São Vicente de Paulo, onde estudei, completa 109 anos.


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Começo a ler uma biografia de Heidegger, filósofo de quem jamais entendi uma linha – uma só linha!

Heidegger abriu uma palestra sobre Aristóteles com a seguinte frase: “Ele nasceu, trabalhou e morreu”.

Eu não quero isso pra mim.


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São Paulo. Três viaturas policiais diante da padaria que acaba de ser assaltada.


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Jota Oliveira, um dos grandes mestres do jornalismo londrinense. Autor de crônicas memoráveis sobre o campo. O primeiro jornalista que chegava à redação. Um homem que venceu a morte com um transplante de fígado.

No dia 2 de julho, Jota completou 37 anos de Folha de Londrina. E sabe qual foi o presente que ele recebeu? A carta de demissão.


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Estava de volta a Londrina às seis da manhã.

Eu e Alessandro fomos almoçar no shopping. Não levamos nossos guardas-chuvas – e começou a chover muito forte. Ficamos os dois na porta do shopping, com cara de bobos, olhando o aguaceiro, sem poder voltar para o trabalho.

De repente, a boa surpresa: uma garota que trabalha conosco veio trazer um guarda-chuva.

O gesto da garota me fez lembrar dos meus amigos Zé e Carla, que levaram este não-motorista de um lado para o outro na metrópole. Da minha irmã, Fernanda, que fez a mala pra mim. Do Preto, esse doutor honoris causa em simpatia. E de você – de você.

Aquele guarda-chuva me fez lembrar que o mundo pode ser um lugar de gentileza e respeito.


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Ainda São Paulo. A luz do Sol bate sobre o Elevado Costa e Silva. As árvores tísicas da praça Marechal Deodoro tornam-se uma pintura impressionista. Do outro lado da calçada, no Hospital Santa Cecília, um rapaz está internado em estado gravíssimo, com pneumonia dupla.


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Mais um grande poeta me cai em mãos: Jorge Wanderley. Depois falo mais sobre ele.


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Encontrei você em São Paulo. E você modificou a cidade.


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Não, eu não quero seguir o exemplo de Aristóteles. Melhor seria: “Nasceu, amou e morreu”.

Publicado em 07 de julho de 2003 às 21:25 por briguet

Comentários

    • Demitir-contratar é uma prerrogativa de qualquer empresa, mas a Folha do Zé do Chapéu demonstra, com a demissão de Jota Oliveira, um ingrediente extra na relação empregado-empregador: crueldade. Arma branca, pelas costas.
    • por Fischer
    • 08.Jul.2003 às 10:29 - Permalink - Reportar
    Fischer
    • Também não vou seguir o exemplo de Aristóteles. Afinal "Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho" ou ainda "vale mais viver de dor que num paraíso sem amor".
    • por Deise.
    • 08.Jul.2003 às 14:38 - Permalink - Reportar
    Deise.
    • nunca esquecerei as manhãs em que o jota oliveira se dirigia lentamente na minha direção e me pedia, com voz calma:
      "rodrigo, você me ajuda com os acentos?".
      "sim, lógico, jota".
      e eu paulatinamente lhe ensinava onde estavam os agudos e graves. todos os dias. ele sempre esquecia e se lembrava de me perguntar. e havia um olhar intenso, daqueles que estas palavras não seriam capaz de descrever.
    • por grota
    • 09.Jul.2003 às 04:09 - Permalink - Reportar
    grota
    • Adorei o seu texto. Me fez lembrar o tempo em que morei em Sampa. Apesar de tudo que passei, tenho saudades. Tem saudades de um bar que íeu frequentava chamado "Casa dos Artístas" em Santa Cecília. Não sei se existe ainda. Mas tive muitos momentos bons.

      Como é bom recordar os tempos passados que não voltam mais. Tive esse
      prazer hoje lendo a sua coluna.

      abraços
    • por Angel
    • 09.Jul.2003 às 12:43 - Permalink - Reportar
    Angel
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