Há muito tempo eu manjo o velho da cadeira de rodas, figura do Calçadão de Londrina.
Ele usa óculos e boné. Sempre que nota a aproximação de alguém, costuma fazer a encenação, com voz de sofrimento:
– Pelo amoooor de Deus. Uma esmolinha, por favor!
Quando passa moça bonita, ele muda rapidamente de atitude. Assobia, mexe, ri, provoca. Parece outra pessoa. Nunca vi alguém mudar tanto em questão de segundos.
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Mas hoje o velho da cadeira de rodas está diferente. Acabei de vê-lo na rua: calado, olhar imóvel, sem boné, sem óculos, barba por fazer, boca semi-aberta.
Agora, o velho não encena para pedir esmolas, nem mexe com a moça que passa.
Agora, ele sofre de verdade.