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Archive for July of 2003
July 31, 2003
– Uma crônica só de perguntas?
– Sim.
– Onde?
– Na coluna do
Briguet.
– Quem é esse cara da foto aí embaixo?
– Olha o respeito, rapaz. É o poeta Herberto Helder.
– Hoje tem Quinta Sem-Lei?
– Essa pergunta não faz sentido. Hoje É Quinta Sem-Lei.
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July 30, 2003
A amiga Janaína telefona e diz que sonhou comigo. O cenário do sonho era uma colônia de férias. De repente, eu inventava uma expressão, da qual ela não se lembra bem. Era algo assim como AVALANCHE DE...
O fato – quero dizer, o sonho – é que todos riam às gargalhadas quando eu dizia a tal expressão. AVALANCHE DE... provocava uma avalanche de risadas. Pelo menos, no sonho da Janaína.
O final do sonho foi apoteótico. Um grupo de dançarinos improvisou um espetáculo cênico-musical. O texto-base – claro – era AVALANCHE DE...
Conta Janaína que a platéia veio abaixo. Ninguém conseguia parar de rir.
Isso me lembrou de um episódio ocorrido numa colônia de férias há exatos 25 anos. Um quarto de século atrás, eu participei do meu primeiro e último concurso de dança. (Observação: o ritmo de 1978 era a discoteca. E John Travolta não tinha barriga.)
Lamentavelmente, fiquei em segundo lugar no tal concurso. O campeão foi um garoto de 3 anos que não dançava nada. Eu lembro de ter chorado muito pela injustiça da escolha – e nunca mais dancei (sóbrio).
AVALANCHE DE... é a revanche da minha curta carreira de dançarino.
Amanhã, na Quinta Sem-Lei, me aguardem. Janaína dará mais detalhes sobre a AVALANCHE DE...
Estou contente. Ao menos em sonho, eu fiz alguém dar risada.
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July 28, 2003
Se a crônica fosse um dia, seria a segunda-feira. Na verdade, segunda-feira é apenas um dos nomes sob os quais o tempo se esconde. Naquele dia, Deus criou os céus e a terra. Desde então, todas as coisas estão grávidas de tempo.
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Abro o jornal, o magro jornal de segunda-feira, e procuro o tempo entre as notícias. Leio que 15 mil pessoas prestaram concurso para coveiro aqui na minha cidade. Uma candidata disse ao repórter: "Semprei gostei de lidar com a terra. E, para mim, os mortos são como árvores que secam".
Belas palavras da moça! Elas comprovam há sempre um crônica escondida em qualquer notícia. Crônica é cronikós: o jornal de segunda-feira também está grávido de tempo – como uma árvore que seca.
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Já definiram o jornalismo como a arte e o ofício de ocupar os espaços entre os anúncios. Eu diria que a crônica é o ofício de ocupar um espaço ainda menor: o vácuo entre as notícias e os anúncios.
Uma crônica faz o anúncio de nada; é a própria não-tícia. A tarefa do cronista não é dar alguma informação ou vender algum produto; ele deve apenas encontrar o tempo escondido em cada coisa. A crônica é um inutensílio. O cronista, um inútil. No bom sentido, se é que você me entende.
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A crônica é o avesso da primeira página. Ela faz o importante virar supérfluo e o banal, decisivo. O jornalista, como sabem os estudantes da área, responde a seis perguntas básicas: Quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? O cronista só pretende responder à 7ª pergunta do lide, imortalizada por Carlos Lacerda: E daí?
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Prestei vestibular para Letras e Jornalismo. Fiquei em dúvida entre os dois cursos. Optei por Jornalismo, mas logo vi que jamais seria um repórter ou editor de verdade. Ao me tornar cronista, voltei à antiga dúvida.
A crônica vive na corda-bamba entre a verdade e mentira, fato e imaginação, pessoa e personagem, jornalismo e literatura.
Entre os jornalistas, sou chamado de escritor. Entre os escritores, sou chamado de jornalista.
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Tirar leite de pedra. Taí uma expressão que me agrada; ela define bem o ofício do cronista. Uma boa crônica extrai signos vitais (leite) do que parece inanimado (pedra). Nós cronistas vivemos das coisas sem nenhuma importância visível – aquelas que através da palavra se transformam em questões de vida ou morte. Somos coveiros ao contrário: fazemos ressurgir o tempo do que se pensava morto; atribuímos significado ao insignificante; atuamos na contramão da vida. Um verso do poeta português Herberto Helder poderia explicar esse trabalho insano: “Procuro dizer como tudo é outra coisa”.
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Sim, tudo é outra coisa. Neste momento, escrevo numa biblioteca pública. Atrás da mesa que ocupo, há um mural com classificados de empregos. Em pé, a alguns metros de onde estou, dezenas de desempregados observam o painel em busca de um trabalho. Eles querem ser vendedores, polidores, seguranças, auxiliares mecânicos, açougueiros, passadeiras, supervisores de cantina, marceneiros, balconistas – qualquer coisa que lhes preencha o tempo e o orçamento doméstico. Nenhum deles, certamente, pensa em exercer o estranho ofício que eu exerço agora. Ninguém quer ser cronista. Um açougueiro ou um supervisor de cantina não precisa explicar por que existe. O cronista só faz isso – a vida inteira, o tempo todo.
Se a crônica fosse uma profissão, ela seria o desemprego.
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July 27, 2003
E no princípio era o medo,
e sempre foi o medo,
e o medo estava em mim,
e eu era o medo,
ele que tudo prende
e tudo alimenta,
motor da vida, anterior à vida.
E tudo é uma corrida em direção ao
onde?,
o pálido e insubstancial
onde?,
incerteza que preferimos chamar de tempo,
absurdo que preferimos chamar de noção,
algaravia que preferimos chamar de sentido.
Pálido e insubstancial medo,
gosto no fundo da minha garganta,
raiz dos meus cabelos,
osso preso em si mesmo,
suor dentro do suor,
buraco do olho,
interior das unhas,
sono imperfeito,
gênio enganador,
manhã de pasmo,
criança que não nasceu.
O medo estava lá muito antes do verbo,
da risada sarcástica do inimigo.
O medo ficou à espreita
do mínimo gesto do carbono.
Deu origem natural às caricaturas,
entre elas a vida.
Impossível destruí-lo:
ele não tem um só átomo,
embora seja o deus dos átomos.
A velha casa está sendo demolida
e o medo é o verdadeiro nome das coisas.
Repetidas vezes, ao longo do tempo,
eu o havia esquecido,
mas ele determinou todos os meus passos.
Os homens vão demolir a casa,
depois o mundo,
mas o medo continuará.
Pálido e insubstancial medo,
verdadeiro nome das coisas.
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July 25, 2003
Estamos sempre a um passo da eternidade. À beira do colapso. A um copo da embriaguez. A uma gota de ir por água abaixo. Ao lado do absurdo. Frente a frente. Por um triz. O gato morreu e a loucura chegou.
Sempre a uma quadra de distância. A um milímetro do impossível. A um dedo da explosão. A uma palavra da salvação. Por um golpe de destino. Quase. O gato morreu e a loucura chegou.
A caminho do fim. A despeito de tudo. A uma cabeça. A um segundo. A um milésimo. A uma página. A um gesto. A um número. A uma letra. A um nada. Por acaso, por pouco.
Morreu a loucura e a noite chegou.
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July 25, 2003

Tom agora vive em outro lugar – lá no céu dos gatos.
O que faz um gato? Mia, toma leite, lambe os pêlos, ronrona, come, dorme, arranha, brilha os olhos no escuro, caça ratos, brinca aos pés dos humanos.
O que me espanta não é a morte. Mais incrível, para mim, é a indiferença total das coisas. O absurdo está em saber que o mundo não tem mais a presença de Tom e continua rodando como se nada tivesse acontecido. Não conheci Tom pessoalmente – se é que os gatos são pessoas –, mas senti a sua morte. Por que o mundo não sente?
Carros passam com o som no último volume; atendentes de farmácias vendem condicionadores e cremes para acne; meninos sem educação põem o dedo no nariz quando ninguém está olhando; pedreiros insistem em prosseguir na construção de um prédio que nunca termina. E ontem, vejam só, eu mesmo tomei cerveja no Bar Brasil, como se o gato permanecesse vivo da silva.
De certa forma, ele está. O ar em que Tom miava continua sendo respirado; os pêlos de Tom ainda se misturam à poeira dos móveis; o som do ronronar de Tom ainda é nítido para os ouvidos que lhe eram próximos; o prato de comida está em seu lugar; a cama de trapos aguarda Tom; vívida é a memória do dia em que ele arranhou uma visita; os ratos estão em paz nas adjacências; os pés mensuram a geometria diária; e o escuro tornou-se mais escuro do que antes.
Tudo se move. Menos Tom. Ele vive no céu dos gatos. E nós, na terra dos humanos.
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July 24, 2003
Há o Rio Tibagi, o Rio Paraná, o Rio Iguaçu, o Rio Tietê, o Rio São Francisco, o Rio Tejo, o Rio Amazonas, o Rio Nilo, o Rio Mississipi, o Rio Danúbio... Mas todos nós vivemos à margem do mais perigoso: o
Rio Sem Dúvida. Leia mais sobre ele na minha
crônica da semana.
PS: Vamos à Quinta Sem-Lei?
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July 20, 2003
Que neste domingo ninguém mate ninguém.
Que nenhum carro perca o controle ou bata em outro carro.
Que nenhum ser humano seja atropelado. E nem mesmo um cão.
Que não se brigue, não se adoeça, não se enlouqueça.
E principalmente que não se morra.
Que neste domingo haja calma nas cidades, campos e estradas.
Que haja vento nas paragens e calmaria no lago,
e correnteza nos córregos e dispersão nos rancores.
Que neste domingo haja sangue nos corações
e descanso nas mentes, descanso nos braços.
Que neste domingo falte a manchete terrível
para a primeira página de amanhã.
Que, nas redações e ruas,
se comemore a incrível bonança.
E que este domingo, além das notícias do mundo,
seja um domingo de paz.
Mas se ainda assim irmão assassinar irmão;
se os carros colidirem na curva imprecisa;
se passarem por cima dos corpos as máquinas horríveis;
se estourarem as guerras, as moléstias, os atentados e as sombras;
Se neste domingo se morrer
como em outros domingos,
e se houver fúria e medo e tragédia em diversas partes;
se houver tornados na distância e dilúvios na esquina,
e venenos nas bacias e difusão nas perfídias;
se neste domingo escorrer sangue no asfalto,
com sentenças malditas nas mentes e braços,
provocando silêncio nas casas e estresse nas redações;
se neste domingo nascer a manchete perfeita
para a primeira página de segunda
– mesmo assim, além de tudo e além do mundo,
eu vos informo, caros leitores,
será um domingo de amor.
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July 17, 2003
Hoje é
Quinta Sem-Lei... Mais detalhes no balcão norte do Bar Brasil, a partir das 22 horas.
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July 17, 2003
Mais detalhes? Leia a
Carta de Londrina.
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July 15, 2003
Canto baixo para que não acordes.
Sei que habitas a curva do vento,
meio-irmão de um homem sem nome.
Dormes.
Tu dormes no quarto ao lado,
no corredor, no vão da escada,
no escuro da sala de estar.
Para que não te levantes,
digo as coisas em voz baixa.
Escrevo à caneta
para que não ouças o rumor do teclado
no escuro.
Tiro os sapatos
para não ouvires meus passos
quando chego à noite em casa.
Desligo o telefone,
vejo a TV sem volume,
leio o papel sem palavras,
ouço a música sem música.
Sei que vens de um país de língua estranha,
onde o mar e a água são opostos.
Uso símbolos secretos
para que tu não me entendas, poliglota;
para que me consideres
apenas um mínimo personagem do teu sonho.
Mesmo na sonata mais alegre de Bach,
tu estás aí.
No gosto do mais puro chocolate
ou no gole da cerveja mais gelada,
estás aí, e eu impeço a tua vinda.
Sei que estás aí, calado,
ou mesmo falando as incompreensíveis línguas do sono,
ressonando tuas fúrias,
espargindo teus abalos sublimados no castigo.
Não acordes.
Não te matarei a sede, nem me afogarás.
O mar da tua água e água do teu mar
permanecerão parados.
Vigio intensamente as segundas-feiras
para que não aflores do teu exílio,
para que não mergulhes ao contrário no ar,
para que sejas apenas um ponto, intenso mas inofensivo,
na voragem da lembrança.
Alguns de teus cavalos enlouquecidos
atravessam, contumazes, a minha quinta sem-lei,
mas ainda assim não ganhas o meu tempo.
Quando passo pelo centro da cidade,
vejo o espetáculo do teu sonambulismo.
De dia, os bares de noite
dormem como fazes agora.
Tu vais a eles, como um elefante
vai aos ossos dos antepassados.
De dia, dormem os bares da noite,
e dentro deles tu dormes.
De dia, as lojas vazias
dormem como estás agora.
Tu vais a eles, como um gerente
vai às notas fiscais do passado.
De dia, dormem as lojas falidas,
e dentro delas te consomes.
De dia, o homem na mesa
dorme diante da bebida.
Tu vais a ele, sentas à mesa
como um bêbado insuportável
faz com seus inimigos.
De dia, dormem os homens na mesa,
e dentro dele tu dormes.
Porém, de nada valem
os bares da noite no dia,
as lojas vazias do centro,
o homem na mesa perdido,
as fábricas estagnadas,
os galpões abandonados,
os pontos facultativos,
as férias coletivas,
os salários atrasados,
demissões sem justa causa.
Não permitirei que acordes.
Vigio intensamente
os cavalos enlouquecidos de mim mesmo,
para que não acordem,
para que não acordes.
Diante da tua água sem mar,
Diante do teu mar sem água,
vejo um ramo de flores amarelas.
Por que lembrar-me de ti,
elas me perguntam,
quando tudo vai tão bem?
Por que lembrar-me de ti
quando a vida flui, água corrente,
no mundo à luz do mundo?
Hoje tens a consistência
de uma pétala de pesadelo.
Mas é que cavalos adormecidos
moram no mais fundo recesso.
Canto baixo para que não acordem.
Canto baixo para que não acordes.
Canto este leve canto,
madrigal que vigia intensamente
o canteiro do teu mundo.
É tua cantiga do sono.
Que não decifres a grande mensagem,
meu meio-irmão de vento.
Eu te desafio, desespero:
por este amor não passarás.
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July 10, 2003
Hoje faço 33 anos. A Idade da Paixão. A Idade de Cristo. Graças a Deus, caiu numa
QUINTA SEM-LEI!
A você, gostaria de fazer dois convites:
1. Leia a minha crônica na coluna
Carta de Londrina.
2. Vá ao
Bar Brasil, a partir das 21h30.
Um abraço.
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July 09, 2003
Li a pergunta no jornal. E decidi arriscar algumas respostas:
· As mulheres vão ao banheiro juntas para trocar detalhes: a cor de alguma roupa, a voz de algum amigo, a embriaguez de algum convidado, a agitação da alguma anfitriã, o adorno de algum ambiente, o sabor de algum prato, o ridículo de alguma rival, o tédio de alguma festa, o constrangimento de algum encontro, o sorriso de algum maître, a quietude de alguma boca, o desamparo de alguma face. Pois o mundo é feito de água, terra, ar, fogo e detalhe.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para preservar o mistério. Ninguém sabe por que o meu amigo Pafu chora quando alguém pronuncia a palavra “cabrocha”; ninguém sabe definir o amor; ninguém sabe provar a existência de Deus; ninguém sabe o que é morrer. Ninguém sabe, todo mundo sabe, ninguém precisa saber. Pois todas as coisas importantes são enigmas.
· As mulheres vão ao banheiro juntas quando são belas balzaquianas. Fazem isso para olhar no espelho e provar que certas coisas melhoram com o tempo.
· As mulheres vão ao banheiro juntas quando estão na faixa dos 20. Fazem isso para olhar no espelho e descobrir a terrível bem-aventurança da paixão.
· As mulheres vão ao banheiro juntas, quando são mãe e filha, só para provar ao mundo a continuidade das maravilhas.
· As mulheres vão ao banheiro juntas, quando são irmãs, só para provar que a rivalidade e a união jamais foram excludentes.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para provar à humanidade que a intimidade supera a publicidade; que o subjetivo vence o objetivo; que a intuição vence a razão; que o coração é a maior das armas na infinita guerra do tempo.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para – acredite! – ficar em silêncio. E do silêncio extrair o mais profundo significado.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para conspirar contra o universo – esse brutal e paranóico universo-homem.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para falar num idioma que os homens não conhecem.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para exercitar o imprescindível pecado da vaidade.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para que a gente sinta falta delas.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para ser. Pois o verbo ser é o único que existe, e deu origem a todos os outros.
· As mulheres vão ao banheiro juntas para que os homens perguntem, até o final dos tempos: “Por que as mulheres vão ao banheiro juntas?”
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July 07, 2003
Encontrei você em São Paulo. Por isso, estive longe deste blog.
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Chegar a São Paulo numa tranqüila manhã de sábado é ouvir os acordes nordestinos dos porteiros de prédios conversando entre si.
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Vi mais gente dormindo na rua do que na última visita à cidade.
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Os cartazes da rua, do metrô e das lojas, como sempre, têm erros de português. Isso me lembra uma passagem.
Estava eu num bar, há uns dez anos, quando vi algo muito raro: um cartaz, escrito a pincel atômico, sem erros de português. Fiquei observando o cartaz, admirado, quando o cara que estava sentado perto dele ameaçou partir para cima de mim, dizendo:
– Que cê tá olhando pra mim, rapaz? Tá pensando que eu sou gay?
Desnecessário explicar que, se eu fosse gay, teria o bom gosto de não escolher aquele cara.
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São Paulo. Diretamente da minha infância, senhoras judias levam seus cachorrinhos para passear nas ruas de Higienópolis. E a Casa Pia São Vicente de Paulo, onde estudei, completa 109 anos.
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Começo a ler uma biografia de Heidegger, filósofo de quem jamais entendi uma linha – uma só linha!
Heidegger abriu uma palestra sobre Aristóteles com a seguinte frase: “Ele nasceu, trabalhou e morreu”.
Eu não quero isso pra mim.
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São Paulo. Três viaturas policiais diante da padaria que acaba de ser assaltada.
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Jota Oliveira, um dos grandes mestres do jornalismo londrinense. Autor de crônicas memoráveis sobre o campo. O primeiro jornalista que chegava à redação. Um homem que venceu a morte com um transplante de fígado.
No dia 2 de julho, Jota completou 37 anos de Folha de Londrina. E sabe qual foi o presente que ele recebeu? A carta de demissão.
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Estava de volta a Londrina às seis da manhã.
Eu e Alessandro fomos almoçar no shopping. Não levamos nossos guardas-chuvas – e começou a chover muito forte. Ficamos os dois na porta do shopping, com cara de bobos, olhando o aguaceiro, sem poder voltar para o trabalho.
De repente, a boa surpresa: uma garota que trabalha conosco veio trazer um guarda-chuva.
O gesto da garota me fez lembrar dos meus amigos Zé e Carla, que levaram este não-motorista de um lado para o outro na metrópole. Da minha irmã, Fernanda, que fez a mala pra mim. Do Preto, esse doutor honoris causa em simpatia. E de você – de você.
Aquele guarda-chuva me fez lembrar que o mundo pode ser um lugar de gentileza e respeito.
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Ainda São Paulo. A luz do Sol bate sobre o Elevado Costa e Silva. As árvores tísicas da praça Marechal Deodoro tornam-se uma pintura impressionista. Do outro lado da calçada, no Hospital Santa Cecília, um rapaz está internado em estado gravíssimo, com pneumonia dupla.
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Mais um grande poeta me cai em mãos: Jorge Wanderley. Depois falo mais sobre ele.
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Encontrei você em São Paulo. E você modificou a cidade.
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Não, eu não quero seguir o exemplo de Aristóteles. Melhor seria: “Nasceu, amou e morreu”.
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July 04, 2003
Há muito tempo eu manjo o velho da cadeira de rodas, figura do Calçadão de Londrina.
Ele usa óculos e boné. Sempre que nota a aproximação de alguém, costuma fazer a encenação, com voz de sofrimento:
– Pelo amoooor de Deus. Uma esmolinha, por favor!
Quando passa moça bonita, ele muda rapidamente de atitude. Assobia, mexe, ri, provoca. Parece outra pessoa. Nunca vi alguém mudar tanto em questão de segundos.
***
Mas hoje o velho da cadeira de rodas está diferente. Acabei de vê-lo na rua: calado, olhar imóvel, sem boné, sem óculos, barba por fazer, boca semi-aberta.
Agora, o velho não encena para pedir esmolas, nem mexe com a moça que passa.
Agora, ele sofre de verdade.
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July 03, 2003
Hoje fiz uma crônica para quem espera o sábado. Leia na minha coluna
Carta de Londrina.
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July 03, 2003
Depois da matéria da
Karla Matida na Folha de Londrina, surgiram fortes rumores de que
Naomi Campbell vai aparecer na
Quinta Sem-Lei, hoje à noite. Os vagabundos e salafrários podem ir ensaiando:
Naomi Campbell
é coisa nossa!
Naomi Campbell
é coisa nossa!
Mas que vai, vai (uuui),
Mas que vai, vem!
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July 01, 2003
Gosto de imitar as pessoas.
Minhas especialidades, porém, são poucas: professor Eduardo, Sílvio Santos (um clichê), Casagrande, Guilherme Arantes, Belchior, Roberto Carlos (outro clichê),
Rodrigo Grota (work in progress).
Nos últimos tempos, tenho me dedicado à difícil arte de imitar a mim mesmo.
Como é isso?
Dedos que pontuam a conversa (como se fossem vírgulas traçadas na ar); lencinho na testa; falsa timidez; desculpas no atacado; sorrisos diplomáticos de olhos fechados; galanteios em profusão (só para você, é claro, e você sabe quem é “você”); um jeito de colocar o Henry Miller na conversa; “Uma cerveja, Inês, por favor”; momento piada infame; “Não se deve beijar a mão de moças ao ar livre”.
E um eterno, eterno desperdício de palavras – como as que você acabou de ler.
A boa imitação sempre é mais original do que o próprio original. Um dia eu chego lá. Ou melhor: cá.
Assinado, o imitador de Paulo Briguet.
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