Espero que a sua segunda-feira não seja garfieldiana. Por isso, ofereço-lhe estes versos de segunda.
ONIPRESENÇA VERA
Um amor se muda só, calado.
Em revolutas vias se dissolve
E se refaz maciço em novo fado.
Amor-destino monolítico:
Desfeita a pedra em pó inominável,
Invade a litosfera corpo-espírito.
Pedir à alma que um amor esqueça
(E à própria carne, em nome do descanso)
É esquecer que toda pedra pensa.
Amor em todo seixo sobre a Terra,
Em cada grão, planície, campo, charco –
O nome chão de onipresença vera.
Não te afastes, pois, da ubiqüidade
Em carne e osso corporificada;
Da turbulência que o teu chão invade.
Nos conteúdos e nos continentes,
Desaba louca chuva amorável,
Este dilúvio fero e permanente
Em que se afoga um tal Noé monarca,
Do desespero e gozo imperador,
Que bebe vinho e nunca teve arca.
O ser é esse rei embriagado
Nas revolutas ondas do prazer;
É que o amor se muda por um fado,
Até que o mar lhe venha adormecer.
Publicado em 23 de junho de 2003 às 09:38 por briguet