E sempre haverá um livro para cada dia. Quando vim para Londrina, o livro era “Guerra e Paz”.
E sempre haverá um livro para cada mulher. Talvez o “ABC da Literatura” combinasse com Sara, porque ela foi minha professora, e tinha em casa um livro com poesias de Pound, que eu só vim a entender muitos anos depois – ao passo que jamais entenderei Sara.
Rute era “Grande Sertão: Veredas”. Indecifráveis e belas paisagens – melhor não procurar entender. Mas com 20 anos você procura entender tudo, e se acaba, sem chegar ao fim do livro ou da mulher, que de repente invadem seus pesadelos, exigindo mais uma noite ou mais um parágrafo.
E Rute era também “Os Sertões” por ser inóspita, uma eterna campanha no mundo hostil da paixão: loucura, bravura, grandeza e fanatismo, de quando não temos nada a perder. Rute era “Os Sertões” porque não acaba, é um livro que não morre, uma alegria delirante de santo jagunço, ou de cadáveres pendurados no ar, e a cada instante impõe um desafio de palavras que nunca mais saem da memória. A terra, o homem, a luta: Rute.
Raquel será “Trópico de Câncer”. E eu não sei de onde se tira tanto sonho, de onde se vê tanta beleza, de onde se exala tanta doçura, mesmo na palavra mais violenta.
Com Lia, serei “É Isto um Homem?”, ou mesmo “Um Belo Domingo”, livros que mostram os campos nazistas e a fumaça humana que invadia os ares e os pulmões dos prisioneiros
Lia: cenas que os sobreviventes não sabem dizer se foram sonho ou verdade, encontros na madrugada bêbada. Seu corpo no escuro da cama, e um SS a passear ao lado. Lia, beleza que banhei de pesadelo e roupas rasgadas. A mágoa contida de quem perdeu as contas do tempo.
Em cada lugar, só estarei em casa lá em Auschwitz, em Buchenwald, em Lia.
Com a filha de Lot serei “Servidão Humana”, idéia bastante apropriada, pois estava lendo o romance quando a encontrei. Sim, meus amigos, mancarei até o final dos tempos, pois ela me fez beber o vinho naquele mar de lingerie, olhos do Oriente, mentira e inveja, beleza e compaixão. Com a filha de Lot, caminharei até a morte o meu ciúme sem nome.
Com Dina – quê? – uma crônica de Rubem Braga, ou quem sabe alguma coisa de Drummond, pra simular leveza em dia claro, e ruminar à noite de tensão.
Com Dina serei o homem perfeito que nunca fui. Serei a farsa diurna e o falso profeta que um dia tentei encarnar. Serei político, sério, pétreo, ético, também serei um cara sem igual. Com Dina serei um monoglota perdido entre a felicidade de uma língua estrangeira de que jamais saberei palavra – uma só palavra, a vida inteira.
Que belas mulheres e livros.
Mas, diante delas e deles, quem fui eu?
Ninguém. Fui apenas um leitor.
Mas tudo foi minha culpa, minha máxima culpa. Pater peccatur! Eu mesmo escolhi os livros de minha vida; eu mesmo escolhi as noites e as linhas que escrevi; eu mesmo pequei de forma venial e mortal, do Gênesis ao Apocalipse, da folha de rosto ao capítulo final.
Nesse tempo, fiz tanto alarde, e não escutei o que me ensinastes. Não escutei as palavras do rei Salomão: “Vaidade das vaidades, tudo é vento e vaidade!”
Ainda sou vento e vaidade. Mas, em você, procuro a minha guerra, a minha paz.
Publicado em 20 de junho de 2003 às 10:03 por briguet