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MERGULHA EM MIM
Mergulha em mim,
fêmea de sonho,
até que o verbo mergulhar
desmaie de cansaço e gozo.
Até que a luz se curve
e o tempo pare,
vem, mergulha,
até que o mundo cale.
Mergulha em mim,
mulher de aquário.
Mergulha nesta água
o ígneo contrário.
Em quantos tempos
se conjuga um verbo?
De quantos modos
podes mergulhar?
Mergulha em mim,
como ao princípio o Verbo,
mergulha em mim,
como a luz sobre o mar.
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“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças. Compareci ao trabalho na manhã seguinte, após uma ou duas horas de sonho, com um ar sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois do jantar adormeci no divã e acordei completamente vestido cerca de seis horas da manhã seguinte. (...) Estava me aproximando do trigésimo terceiro aniversário, a idade do Cristo crucificado.” (Henry Miller, parágrafo inicial de “Sexus”)
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O ENIGMA DO EQUILÍBRIO
O que me surpreende é o equilíbrio das coisas.
Respondam, meus colegas de espécie humana:
Por que o mundo não degenera em caos?
Por que tudo não se entrega ao vórtice?
Por que os seres não se precipitam na dissolução?
Que cimento é este, meus irmãos de carne,
Que faz perseverar além de um átimo essa mesma carne,
que faz perenes os desejos, ubíquas as memórias,
teimosos os sentidos – que cimento é este?
Que cimento é este que nós constrói e vê
com inescapável solidez,
que situa alguma dor e algum prazer
dentro da natureza,
só para que um ser sombrio e passageiro
persevere ainda, construção oblíqua
no destempero, caldeirão da vida,
sim,
um ser sombrio e passageiro
a despertar nos dias, a prosseguir nas noites,
a arrolar seus próprios gozos desesperos,
e, mesmo assim, perdido,
prosseguir inteiro, refém do equilíbrio
que mantém o mundo?
Ao final, diremos: eu.
Enquanto durar o presente do indicativo,
vai continuar ardendo o mesmo eu,
refém da continuidade.
Que cimento é este?
Vejam também as palavras.
Como se equilibram em sujeito e predicado,
vogal e consoante,
fonema e sintagma,
frase e parágrafo,
no mar de rios e pontos
do errado papel?
E, se o verbo não for o bastante,
se não quisermos levantar da cama,
se desistirmos de enfrentar o dia,
ainda assim algo nos prende e incita:
ó equilíbrio, pai de todos tempos,
pois como posso eu estar deitado,
e sobre mim as cobertas,
e sobre as cobertas a laje,
e sobre a laje o pobre telhado,
e sobre o telhado as nuvens,
e sobre as nuvens o ensurdecedor avião dos ventos,
e sobre os ventos a cosmogonia em sua face de mil rugas,
em cada estrela um equilíbrio novo,
as faces múltiplas do mesmo tempo, total equilíbrio,
do qual a vida é o mais louco milagre,
sob as cobertas do eterno cimento.
Publicado em 15 de junho de 2003 às 12:00 por briguet
-para onde?
-para onde a vida.
-a vida funda?
-a vida aparecida nas ruas.
-na Goiás?
-na rua Elvis Presley.
-na Pará?
-na rua Pistóia.
-na Santos?
-na Cacilda Becker.
-agora?
-agora mesmo.