Repórter das Coisas

Itamar, a explosão

O que faz a vida de um homem valer a pena?

Enquanto eu conversava sobre a origem da vida com meu amigo Bruschi, no balcão norte do Bar Brasil, Itamar Assumpção morria.

Itamar tinha que morrer assim – numa Quinta Sem-Lei. E assim ficamos nós numa eterna Sexta-Feira 13.

Londrina já estava no meu sangue e no meu destino muito antes que eu mudasse pra cá, em 1989.

Três anos antes da minha vinda para Londrina, a espaçonave Challenger explodiu aos olhos do mundo inteiro, matando sete astronautas.

Fiquei acordado até tarde, sem conseguir dormir, pensando que aqueles sete astronautas agora eram fantasmas na atmosfera da Terra.

Para enganar a insônia, liguei na TV Cultura. Um músico negro, acompanhado só por violões, cantava estranhos versos:


Boa noite, prezadíssimos ouvintes.

Pra chegar até aqui

eu tive que ficar na fila,

agüentar tranco na esquina

e por cima lotação!



Assisti ao show de Itamar até o fim. Depois fiquei sabendo que ele havia morado numa certa cidade do Norte do Paraná. Começava ali a minha ligação inexplicável e irracional com Londrina. A partir daquele dia, em 1986, as músicas de Itamar foram a trilha sonora de grandes momentos da minha vida.

Quando soube da morte de Itamar, lembrei-me de um conto de Cortázar, em que o narrador sente a presença de um amigo morto há muito tempo. O nome do conto é um primor do absurdo: “Aí, mas onde, como”.

Aí, mas onde, como – eu vejo e ouço Itamar Assumpção. Sua morte é a explosão de uma espaçonave.

O que faz a vida de um homem valer a pena? Tornar-se um fantasma para aqueles que o amam:

Nossos filhos, figas, vidas individuais, mortais,

nem menos, também nem mais do que seus pobres pais,

pintam, bordam, fazem,

quase tudo podem, porém

isso não vai ficar assim, meu bem,

isso não vai ficar assim.



(Itamar Assumpção, 1950-2003)

Publicado em 13 de junho de 2003 às 18:30 por briguet

Comentários

    • Belo texto, parceiragem.

      Parece hoje aquela iluminação dirigida de velas que, ironicamente, transformava sombras em monstros.

      A morte de Itamar é também um rompimento com essas memórias, pelo menos da forma como foram alimentadas.

      Itamar não viu futuro e acelerou na hora da frenagem. Virou saudade antes da hora.

      Seremos nós reduzidos a trintões barrigudos? Necas de pitibiribas, não podemos esquecer as barcas das quais escapamos aos 47 do segundo tempo.

      Somos melhores no presente, esta é a nossa vitória.

      Até à QSL estarei menos pesaroso
    • por preto
    • 13.Jun.2003 às 21:58 - Permalink - Reportar
    preto
    • P.S.: Deve ser força do hábito: mesmo sóbrio, meu comentário saiu bêbado.
    • por preto
    • 13.Jun.2003 às 22:33 - Permalink - Reportar
    preto
    • "Sua morte é a explosão de uma espaçonave". Bela definição. :)
    • por zero
    • 14.Jun.2003 às 04:06 - Permalink - Reportar
    zero
    • Eu diria que sua morte é um incêndio de uma vasta biblioteca. Lamento que Londrina e o Brasil inteiro não tenham dado o devido valor ao Itamar em vida. A pecha de Maldito era imprópria. Bendito Itamar.
    • por vitor.ogawa
    • 16.Jun.2003 às 00:20 - Permalink - Reportar
    vitor.ogawa
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

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