Minha arte é pedir desculpas. Minha arte e meu ofício.
O que levo nos bolsos, o que tenho em mente, o que escondo nos armários, o que guardo nos baús, o que bebo nas garrafas, o que como nos pratos, o que cubro com roupas, o que lavo com água e sabão, o que confesso aos amigos, o que dou às namoradas, o que leio, o que escrevo, o que peço a Deus – tudo não passa de desculpa.
Quando nasci, não chorei. Os médicos ficaram intrigados; eu parecia querer falar alguma coisa. Era apenas um pedido de desculpas por ter rompido a bolsa de minha mãe. Depois, ainda na maternidade, fiquei amarelo. Acreditaram que era icterícia. Bobagem; era apenas a cor da culpa por ter vindo ao mundo. Então eu finalmente chorei. Para sempre.
Formado na Academia Judaico-Cristã, com mestrado em Pecado Original, cresci pedindo desculpas ao ar por lhe tomar mais alguns centímetros cúbicos. Sempre me considerei um ladrão de oxigênio – e meu nariz nem é tão grande como o do Marcelo Rocha.
Peço desculpas por acordar. Peço desculpas antes de acordar, por ainda estar dormindo. E, ao dormir, por dormir tão cedo ou tarde. Para mim, não há hora certa de fazer nada. Sempre estamos atrasados em relação a alguma coisa. E eu peço perdão.
Inúmeros são os instrumentos da desculpa: a voz, o olhar, o telefone, o e-mail, a carta, a prece, o bilhete, o silêncio, a mão, a buzina, o amigo intermediário – tudo aquilo que configure uma retratação. Até a ira, o ódio e a agressão podem ser desculpas disfarçadas. Mas eu sou adepto de métodos mais ortodoxos: tombo ligeiramente a cabeça, com as mãos para trás, e digo em voz baixa:
– Me desculpe, por favor.
Tornei-me um profissional do pedido de desculpas. Nunca tive uma intenção; nunca fiz por mal; não leve a mal; jamais quis ofender; não pretendi absolutamente causar constrangimentos; prometo melhorar da próxima vez.
Minhas escusas. Desculpinha. Perdão. I'm sorry. Forgive me. Pardon. Manquei. Foi mal. Desculpaê.
Desculpe por ser tão chato. Mas o que pode ser mais chato do que pedir tantas desculpas?
Desculpe por pisar no chão. Por não atender ao telefone. Por ter bebido tanto ontem à noite. Por fazer cantadas baratas. Por não caminhar todos os dias. Por comer nos mesmos restaurantes. Por não seguir a prescrição da médica. Por não saber dirigir (exceto bicicleta), nem cozinhar (exceto Miojo Lamen), nem passar roupa (exceto lenços). Por cochilar em lugares impróprios. Por mandar e-mails repetidos. Por não fazer planos. Por não guardar capital. Por esquecer de ligar. Por ligar em horários impróprios. Por não trabalhar o bastante. Por trabalhar demais. Por escrever mal. Por não dar atenção a quem merece. Por não ir a Curitiba. Por acreditar em coisas impalpáveis como a palavra, o absurdo e o amor.
Acima de tudo, desculpe por me apaixonar tanto assim. Afinal, eu sou o sr. Desculpa – que por acaso veio ao mundo. E ofereço a maior das minhas desculpas a você, mulher.
Publicado em 10 de junho de 2003 às 19:26 por briguet