OPINIÃO DE LIA
Não ria com o poema, Lia.
Não fale,
Mas também não fique fria.
Sobretudo não chore.
Não seja dura a ponto de ignorá-lo,
Contudo não se perca em elogios vagos.
Falsidade é tudo que eu não quero,
Embora franqueza extrema seja deplorável.
Seja construtiva nas críticas, Lia,
Mas não pose de edificante:
Um meio-termo até seria bom
Se não passasse do bastante.
(Se destruir, remonte.)
Não dance e – como é lógico
Intuir – não cante.
Não pergunte: ofende
Mais que a exclamação
(Conquanto ânimo exaltado
Costume redundar malsão).
Do poema não zombe,
Ao poema não volte.
Será uma hecatombe
(Ou pior: um açoite)
Saber que o poema
Lia não soube.
Entenda, Lia:
Será de mais valia
Fazer que o poema
Não seja de dia
Nem seja de noite.
Lia – o poema de hoje
É ontem.
****************************
ESTRELA DA REPETIÇÃO
Eu louvo a estrela da repetição,
que todos os dias visita a casa,
a estrela da repetição.
De tudo farei
pra encantar o vazio
e reter algo do nada.
Minha voz não tem idéias,
minhas mãos não têm verdade.
Louvo a estrela repetida
que não diz, nem persuade.
Estrela, abismo da razão
por argumento nulo;
a rima essencial
do silogismo falso;
meu metro, minha senda,
minha estrela repetida
que não brilha na verdade,
no caminho, nem na vida.
Publicado em 07 de junho de 2003 às 20:43 por briguet