Se dançamos ou dançaremos “Let it Be” no escuro, não interessa à humanidade.
Se ouvimos o “Quarteto das Dissonâncias”, o povo não está nem aí.
A comunidade jamais perguntará se tomamos o caminho de casa enumerando os apartamentos com luzes acesas às quatro da manhã.
A revolução social não coincide com a nossa libertação.
As massas tendem a ignorar a relação entre o saldo negativo de nossas contas correntes e o consumo industrial de vinhos chilenos na sala (ainda que as manchas do vinho, algum dia, se espalhem como atlântidas roxas no tapete).
Totalmente inútil para a coletividade é a informação de que procuramos fotos antigas nas gavetas.
Ler um poema de Rilke para você não influi nos rumos da história.
A quantidade de analgésicos e leite de soja ingeridos na manhã seguinte não passa de uma bobagem perante a civilização.
As classes sociais pouco se importam com a enxurrada de pensamentos confusos e enigmas onipresentes.
O proletariado e a burguesia (se é que existem) querem saber dos meios de produção; quanto a marcarmos encontros na livraria, na frente do palco ou na Quinta Sem-Lei, isso é irrelevante.
Let it be.
Publicado em 04 de junho de 2003 às 18:04 por briguet
Mesmo nas enxurradas se tem uma corrente que nos leva, e a maravilha das enxurradas eh , exatamente, aquelas pedras no meio do caminho que acabam formando um jorro d'agua para cima e interrompe, heroicamente, o fluxo das aguas.
Ainda bem!