Archive for June of 2003
TÃO LONGE, TÃO PERTO
June 30, 2003
Espero que, nas alturas, você tenha pensado nos versos de Herberto Helder:
“E como estrelas
duplas
consangüíneas, luzimos de um para o outro nas
trevas.”
“E como estrelas
duplas
consangüíneas, luzimos de um para o outro nas
trevas.”
Bar Secreto
June 26, 2003
Em homenagem à Quinta Sem-Lei – para a qual todos(as) estão convocados(as) – a crônica desta semana vai para o Bar Secreto. Leia na Carta de Londrina.
POLÊMICAS
June 25, 2003
"Keep on moving on a fast train..."
(Van Morrison)
Não, polêmicas não faço.
Meu trabalho é comover, mover.
Descer a avenida em pleno dia,
alta noite – e comover, mover.
Não me chamem para as batalhas.
Não me escolham para as missões.
Minha tarefa é fazer
da alta noite um pleno dia,
e do dia alta noite
no transe da avenida.
Minha batalha é comover, descer.
Apenas um pedestre ser:
dobrar as esquinas,
não mudar opiniões.
E, ao comover, fazer nascer o dia,
depois só ver o dia morrer
em outra noite na avenida.
Sou feio, mas paro o trânsito.
(Sim: parar o movimento
para além de qualquer lógica.)
Mover, missão polêmica
de nada fazer, tudo escrever.
E assim vencer o tempo,
assim retroceder.
Polêmicas, não faço.
Meu trabalho é comover, viver.
******************************************
Meu amigo Luiz Carlos Bruschi lançou ontem o livro “Rede Autopoiética: A Vida da Vida”. Tive a honra de prefaciar o seu livro anterior, “A Origem da Vida e o Destino da Matéria”. Na semana passada, Bruschi escreveu um belíssimo texto sobre a sua aposentadoria da UEL. Quer conferir?
(Van Morrison)
Não, polêmicas não faço.
Meu trabalho é comover, mover.
Descer a avenida em pleno dia,
alta noite – e comover, mover.
Não me chamem para as batalhas.
Não me escolham para as missões.
Minha tarefa é fazer
da alta noite um pleno dia,
e do dia alta noite
no transe da avenida.
Minha batalha é comover, descer.
Apenas um pedestre ser:
dobrar as esquinas,
não mudar opiniões.
E, ao comover, fazer nascer o dia,
depois só ver o dia morrer
em outra noite na avenida.
Sou feio, mas paro o trânsito.
(Sim: parar o movimento
para além de qualquer lógica.)
Mover, missão polêmica
de nada fazer, tudo escrever.
E assim vencer o tempo,
assim retroceder.
Polêmicas, não faço.
Meu trabalho é comover, viver.
******************************************
Meu amigo Luiz Carlos Bruschi lançou ontem o livro “Rede Autopoiética: A Vida da Vida”. Tive a honra de prefaciar o seu livro anterior, “A Origem da Vida e o Destino da Matéria”. Na semana passada, Bruschi escreveu um belíssimo texto sobre a sua aposentadoria da UEL. Quer conferir?
VIDE VERSOS DE SEGUNDA
June 23, 2003
Espero que a sua segunda-feira não seja garfieldiana. Por isso, ofereço-lhe estes versos de segunda.
ONIPRESENÇA VERA
Um amor se muda só, calado.
Em revolutas vias se dissolve
E se refaz maciço em novo fado.
Amor-destino monolítico:
Desfeita a pedra em pó inominável,
Invade a litosfera corpo-espírito.
Pedir à alma que um amor esqueça
(E à própria carne, em nome do descanso)
É esquecer que toda pedra pensa.
Amor em todo seixo sobre a Terra,
Em cada grão, planície, campo, charco –
O nome chão de onipresença vera.
Não te afastes, pois, da ubiqüidade
Em carne e osso corporificada;
Da turbulência que o teu chão invade.
Nos conteúdos e nos continentes,
Desaba louca chuva amorável,
Este dilúvio fero e permanente
Em que se afoga um tal Noé monarca,
Do desespero e gozo imperador,
Que bebe vinho e nunca teve arca.
O ser é esse rei embriagado
Nas revolutas ondas do prazer;
É que o amor se muda por um fado,
Até que o mar lhe venha adormecer.
ONIPRESENÇA VERA
Um amor se muda só, calado.
Em revolutas vias se dissolve
E se refaz maciço em novo fado.
Amor-destino monolítico:
Desfeita a pedra em pó inominável,
Invade a litosfera corpo-espírito.
Pedir à alma que um amor esqueça
(E à própria carne, em nome do descanso)
É esquecer que toda pedra pensa.
Amor em todo seixo sobre a Terra,
Em cada grão, planície, campo, charco –
O nome chão de onipresença vera.
Não te afastes, pois, da ubiqüidade
Em carne e osso corporificada;
Da turbulência que o teu chão invade.
Nos conteúdos e nos continentes,
Desaba louca chuva amorável,
Este dilúvio fero e permanente
Em que se afoga um tal Noé monarca,
Do desespero e gozo imperador,
Que bebe vinho e nunca teve arca.
O ser é esse rei embriagado
Nas revolutas ondas do prazer;
É que o amor se muda por um fado,
Até que o mar lhe venha adormecer.
Livros e mulheres
June 20, 2003
E sempre haverá um livro para cada dia. Quando vim para Londrina, o livro era “Guerra e Paz”.
E sempre haverá um livro para cada mulher. Talvez o “ABC da Literatura” combinasse com Sara, porque ela foi minha professora, e tinha em casa um livro com poesias de Pound, que eu só vim a entender muitos anos depois – ao passo que jamais entenderei Sara.
Rute era “Grande Sertão: Veredas”. Indecifráveis e belas paisagens – melhor não procurar entender. Mas com 20 anos você procura entender tudo, e se acaba, sem chegar ao fim do livro ou da mulher, que de repente invadem seus pesadelos, exigindo mais uma noite ou mais um parágrafo.
E Rute era também “Os Sertões” por ser inóspita, uma eterna campanha no mundo hostil da paixão: loucura, bravura, grandeza e fanatismo, de quando não temos nada a perder. Rute era “Os Sertões” porque não acaba, é um livro que não morre, uma alegria delirante de santo jagunço, ou de cadáveres pendurados no ar, e a cada instante impõe um desafio de palavras que nunca mais saem da memória. A terra, o homem, a luta: Rute.
Raquel será “Trópico de Câncer”. E eu não sei de onde se tira tanto sonho, de onde se vê tanta beleza, de onde se exala tanta doçura, mesmo na palavra mais violenta.
Com Lia, serei “É Isto um Homem?”, ou mesmo “Um Belo Domingo”, livros que mostram os campos nazistas e a fumaça humana que invadia os ares e os pulmões dos prisioneiros
Lia: cenas que os sobreviventes não sabem dizer se foram sonho ou verdade, encontros na madrugada bêbada. Seu corpo no escuro da cama, e um SS a passear ao lado. Lia, beleza que banhei de pesadelo e roupas rasgadas. A mágoa contida de quem perdeu as contas do tempo.
Em cada lugar, só estarei em casa lá em Auschwitz, em Buchenwald, em Lia.
Com a filha de Lot serei “Servidão Humana”, idéia bastante apropriada, pois estava lendo o romance quando a encontrei. Sim, meus amigos, mancarei até o final dos tempos, pois ela me fez beber o vinho naquele mar de lingerie, olhos do Oriente, mentira e inveja, beleza e compaixão. Com a filha de Lot, caminharei até a morte o meu ciúme sem nome.
Com Dina – quê? – uma crônica de Rubem Braga, ou quem sabe alguma coisa de Drummond, pra simular leveza em dia claro, e ruminar à noite de tensão.
Com Dina serei o homem perfeito que nunca fui. Serei a farsa diurna e o falso profeta que um dia tentei encarnar. Serei político, sério, pétreo, ético, também serei um cara sem igual. Com Dina serei um monoglota perdido entre a felicidade de uma língua estrangeira de que jamais saberei palavra – uma só palavra, a vida inteira.
Que belas mulheres e livros.
Mas, diante delas e deles, quem fui eu?
Ninguém. Fui apenas um leitor.
Mas tudo foi minha culpa, minha máxima culpa. Pater peccatur! Eu mesmo escolhi os livros de minha vida; eu mesmo escolhi as noites e as linhas que escrevi; eu mesmo pequei de forma venial e mortal, do Gênesis ao Apocalipse, da folha de rosto ao capítulo final.
Nesse tempo, fiz tanto alarde, e não escutei o que me ensinastes. Não escutei as palavras do rei Salomão: “Vaidade das vaidades, tudo é vento e vaidade!”
Ainda sou vento e vaidade. Mas, em você, procuro a minha guerra, a minha paz.
E sempre haverá um livro para cada mulher. Talvez o “ABC da Literatura” combinasse com Sara, porque ela foi minha professora, e tinha em casa um livro com poesias de Pound, que eu só vim a entender muitos anos depois – ao passo que jamais entenderei Sara.
Rute era “Grande Sertão: Veredas”. Indecifráveis e belas paisagens – melhor não procurar entender. Mas com 20 anos você procura entender tudo, e se acaba, sem chegar ao fim do livro ou da mulher, que de repente invadem seus pesadelos, exigindo mais uma noite ou mais um parágrafo.
E Rute era também “Os Sertões” por ser inóspita, uma eterna campanha no mundo hostil da paixão: loucura, bravura, grandeza e fanatismo, de quando não temos nada a perder. Rute era “Os Sertões” porque não acaba, é um livro que não morre, uma alegria delirante de santo jagunço, ou de cadáveres pendurados no ar, e a cada instante impõe um desafio de palavras que nunca mais saem da memória. A terra, o homem, a luta: Rute.
Raquel será “Trópico de Câncer”. E eu não sei de onde se tira tanto sonho, de onde se vê tanta beleza, de onde se exala tanta doçura, mesmo na palavra mais violenta.
Com Lia, serei “É Isto um Homem?”, ou mesmo “Um Belo Domingo”, livros que mostram os campos nazistas e a fumaça humana que invadia os ares e os pulmões dos prisioneiros
Lia: cenas que os sobreviventes não sabem dizer se foram sonho ou verdade, encontros na madrugada bêbada. Seu corpo no escuro da cama, e um SS a passear ao lado. Lia, beleza que banhei de pesadelo e roupas rasgadas. A mágoa contida de quem perdeu as contas do tempo.
Em cada lugar, só estarei em casa lá em Auschwitz, em Buchenwald, em Lia.
Com a filha de Lot serei “Servidão Humana”, idéia bastante apropriada, pois estava lendo o romance quando a encontrei. Sim, meus amigos, mancarei até o final dos tempos, pois ela me fez beber o vinho naquele mar de lingerie, olhos do Oriente, mentira e inveja, beleza e compaixão. Com a filha de Lot, caminharei até a morte o meu ciúme sem nome.
Com Dina – quê? – uma crônica de Rubem Braga, ou quem sabe alguma coisa de Drummond, pra simular leveza em dia claro, e ruminar à noite de tensão.
Com Dina serei o homem perfeito que nunca fui. Serei a farsa diurna e o falso profeta que um dia tentei encarnar. Serei político, sério, pétreo, ético, também serei um cara sem igual. Com Dina serei um monoglota perdido entre a felicidade de uma língua estrangeira de que jamais saberei palavra – uma só palavra, a vida inteira.
Que belas mulheres e livros.
Mas, diante delas e deles, quem fui eu?
Ninguém. Fui apenas um leitor.
Mas tudo foi minha culpa, minha máxima culpa. Pater peccatur! Eu mesmo escolhi os livros de minha vida; eu mesmo escolhi as noites e as linhas que escrevi; eu mesmo pequei de forma venial e mortal, do Gênesis ao Apocalipse, da folha de rosto ao capítulo final.
Nesse tempo, fiz tanto alarde, e não escutei o que me ensinastes. Não escutei as palavras do rei Salomão: “Vaidade das vaidades, tudo é vento e vaidade!”
Ainda sou vento e vaidade. Mas, em você, procuro a minha guerra, a minha paz.
Crônica
June 18, 2003
Se você quiser saber o que fazem as pastilhas do dr. Richards, leia a minha nova Carta de Londrina.
TRILOGIA DE DOMINGO
June 15, 2003
11111111111111111111111111111111
MERGULHA EM MIM
Mergulha em mim,
fêmea de sonho,
até que o verbo mergulhar
desmaie de cansaço e gozo.
Até que a luz se curve
e o tempo pare,
vem, mergulha,
até que o mundo cale.
Mergulha em mim,
mulher de aquário.
Mergulha nesta água
o ígneo contrário.
Em quantos tempos
se conjuga um verbo?
De quantos modos
podes mergulhar?
Mergulha em mim,
como ao princípio o Verbo,
mergulha em mim,
como a luz sobre o mar.
22222222222222222222222222222222
“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças. Compareci ao trabalho na manhã seguinte, após uma ou duas horas de sonho, com um ar sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois do jantar adormeci no divã e acordei completamente vestido cerca de seis horas da manhã seguinte. (...) Estava me aproximando do trigésimo terceiro aniversário, a idade do Cristo crucificado.” (Henry Miller, parágrafo inicial de “Sexus”)
33333333333333333333333333333333
O ENIGMA DO EQUILÍBRIO
O que me surpreende é o equilíbrio das coisas.
Respondam, meus colegas de espécie humana:
Por que o mundo não degenera em caos?
Por que tudo não se entrega ao vórtice?
Por que os seres não se precipitam na dissolução?
Que cimento é este, meus irmãos de carne,
Que faz perseverar além de um átimo essa mesma carne,
que faz perenes os desejos, ubíquas as memórias,
teimosos os sentidos – que cimento é este?
Que cimento é este que nós constrói e vê
com inescapável solidez,
que situa alguma dor e algum prazer
dentro da natureza,
só para que um ser sombrio e passageiro
persevere ainda, construção oblíqua
no destempero, caldeirão da vida,
sim,
um ser sombrio e passageiro
a despertar nos dias, a prosseguir nas noites,
a arrolar seus próprios gozos desesperos,
e, mesmo assim, perdido,
prosseguir inteiro, refém do equilíbrio
que mantém o mundo?
Ao final, diremos: eu.
Enquanto durar o presente do indicativo,
vai continuar ardendo o mesmo eu,
refém da continuidade.
Que cimento é este?
Vejam também as palavras.
Como se equilibram em sujeito e predicado,
vogal e consoante,
fonema e sintagma,
frase e parágrafo,
no mar de rios e pontos
do errado papel?
E, se o verbo não for o bastante,
se não quisermos levantar da cama,
se desistirmos de enfrentar o dia,
ainda assim algo nos prende e incita:
ó equilíbrio, pai de todos tempos,
pois como posso eu estar deitado,
e sobre mim as cobertas,
e sobre as cobertas a laje,
e sobre a laje o pobre telhado,
e sobre o telhado as nuvens,
e sobre as nuvens o ensurdecedor avião dos ventos,
e sobre os ventos a cosmogonia em sua face de mil rugas,
em cada estrela um equilíbrio novo,
as faces múltiplas do mesmo tempo, total equilíbrio,
do qual a vida é o mais louco milagre,
sob as cobertas do eterno cimento.
MERGULHA EM MIM
Mergulha em mim,
fêmea de sonho,
até que o verbo mergulhar
desmaie de cansaço e gozo.
Até que a luz se curve
e o tempo pare,
vem, mergulha,
até que o mundo cale.
Mergulha em mim,
mulher de aquário.
Mergulha nesta água
o ígneo contrário.
Em quantos tempos
se conjuga um verbo?
De quantos modos
podes mergulhar?
Mergulha em mim,
como ao princípio o Verbo,
mergulha em mim,
como a luz sobre o mar.
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“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças. Compareci ao trabalho na manhã seguinte, após uma ou duas horas de sonho, com um ar sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois do jantar adormeci no divã e acordei completamente vestido cerca de seis horas da manhã seguinte. (...) Estava me aproximando do trigésimo terceiro aniversário, a idade do Cristo crucificado.” (Henry Miller, parágrafo inicial de “Sexus”)
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O ENIGMA DO EQUILÍBRIO
O que me surpreende é o equilíbrio das coisas.
Respondam, meus colegas de espécie humana:
Por que o mundo não degenera em caos?
Por que tudo não se entrega ao vórtice?
Por que os seres não se precipitam na dissolução?
Que cimento é este, meus irmãos de carne,
Que faz perseverar além de um átimo essa mesma carne,
que faz perenes os desejos, ubíquas as memórias,
teimosos os sentidos – que cimento é este?
Que cimento é este que nós constrói e vê
com inescapável solidez,
que situa alguma dor e algum prazer
dentro da natureza,
só para que um ser sombrio e passageiro
persevere ainda, construção oblíqua
no destempero, caldeirão da vida,
sim,
um ser sombrio e passageiro
a despertar nos dias, a prosseguir nas noites,
a arrolar seus próprios gozos desesperos,
e, mesmo assim, perdido,
prosseguir inteiro, refém do equilíbrio
que mantém o mundo?
Ao final, diremos: eu.
Enquanto durar o presente do indicativo,
vai continuar ardendo o mesmo eu,
refém da continuidade.
Que cimento é este?
Vejam também as palavras.
Como se equilibram em sujeito e predicado,
vogal e consoante,
fonema e sintagma,
frase e parágrafo,
no mar de rios e pontos
do errado papel?
E, se o verbo não for o bastante,
se não quisermos levantar da cama,
se desistirmos de enfrentar o dia,
ainda assim algo nos prende e incita:
ó equilíbrio, pai de todos tempos,
pois como posso eu estar deitado,
e sobre mim as cobertas,
e sobre as cobertas a laje,
e sobre a laje o pobre telhado,
e sobre o telhado as nuvens,
e sobre as nuvens o ensurdecedor avião dos ventos,
e sobre os ventos a cosmogonia em sua face de mil rugas,
em cada estrela um equilíbrio novo,
as faces múltiplas do mesmo tempo, total equilíbrio,
do qual a vida é o mais louco milagre,
sob as cobertas do eterno cimento.
Itamar, a explosão
June 13, 2003
O que faz a vida de um homem valer a pena?
Enquanto eu conversava sobre a origem da vida com meu amigo Bruschi, no balcão norte do Bar Brasil, Itamar Assumpção morria.
Itamar tinha que morrer assim – numa Quinta Sem-Lei. E assim ficamos nós numa eterna Sexta-Feira 13.
Londrina já estava no meu sangue e no meu destino muito antes que eu mudasse pra cá, em 1989.
Três anos antes da minha vinda para Londrina, a espaçonave Challenger explodiu aos olhos do mundo inteiro, matando sete astronautas.
Fiquei acordado até tarde, sem conseguir dormir, pensando que aqueles sete astronautas agora eram fantasmas na atmosfera da Terra.
Para enganar a insônia, liguei na TV Cultura. Um músico negro, acompanhado só por violões, cantava estranhos versos:
Boa noite, prezadíssimos ouvintes.
Pra chegar até aqui
eu tive que ficar na fila,
agüentar tranco na esquina
e por cima lotação!
Assisti ao show de Itamar até o fim. Depois fiquei sabendo que ele havia morado numa certa cidade do Norte do Paraná. Começava ali a minha ligação inexplicável e irracional com Londrina. A partir daquele dia, em 1986, as músicas de Itamar foram a trilha sonora de grandes momentos da minha vida.
Quando soube da morte de Itamar, lembrei-me de um conto de Cortázar, em que o narrador sente a presença de um amigo morto há muito tempo. O nome do conto é um primor do absurdo: “Aí, mas onde, como”.
Aí, mas onde, como – eu vejo e ouço Itamar Assumpção. Sua morte é a explosão de uma espaçonave.
O que faz a vida de um homem valer a pena? Tornar-se um fantasma para aqueles que o amam:
Nossos filhos, figas, vidas individuais, mortais,
nem menos, também nem mais do que seus pobres pais,
pintam, bordam, fazem,
quase tudo podem, porém
isso não vai ficar assim, meu bem,
isso não vai ficar assim.
(Itamar Assumpção, 1950-2003)
Enquanto eu conversava sobre a origem da vida com meu amigo Bruschi, no balcão norte do Bar Brasil, Itamar Assumpção morria.
Itamar tinha que morrer assim – numa Quinta Sem-Lei. E assim ficamos nós numa eterna Sexta-Feira 13.
Londrina já estava no meu sangue e no meu destino muito antes que eu mudasse pra cá, em 1989.
Três anos antes da minha vinda para Londrina, a espaçonave Challenger explodiu aos olhos do mundo inteiro, matando sete astronautas.
Fiquei acordado até tarde, sem conseguir dormir, pensando que aqueles sete astronautas agora eram fantasmas na atmosfera da Terra.
Para enganar a insônia, liguei na TV Cultura. Um músico negro, acompanhado só por violões, cantava estranhos versos:
Boa noite, prezadíssimos ouvintes.
Pra chegar até aqui
eu tive que ficar na fila,
agüentar tranco na esquina
e por cima lotação!
Assisti ao show de Itamar até o fim. Depois fiquei sabendo que ele havia morado numa certa cidade do Norte do Paraná. Começava ali a minha ligação inexplicável e irracional com Londrina. A partir daquele dia, em 1986, as músicas de Itamar foram a trilha sonora de grandes momentos da minha vida.
Quando soube da morte de Itamar, lembrei-me de um conto de Cortázar, em que o narrador sente a presença de um amigo morto há muito tempo. O nome do conto é um primor do absurdo: “Aí, mas onde, como”.
Aí, mas onde, como – eu vejo e ouço Itamar Assumpção. Sua morte é a explosão de uma espaçonave.
O que faz a vida de um homem valer a pena? Tornar-se um fantasma para aqueles que o amam:
Nossos filhos, figas, vidas individuais, mortais,
nem menos, também nem mais do que seus pobres pais,
pintam, bordam, fazem,
quase tudo podem, porém
isso não vai ficar assim, meu bem,
isso não vai ficar assim.
(Itamar Assumpção, 1950-2003)
QSL
June 12, 2003
Senhoras e senhores, rapazes e moças, jovens e velhos, amigos e conhecidos, mulheres de todas as partes, vagabundos, salafrários, sem-vergonha: vamos todos para a proverbial Quinta Sem-Lei!
Mas antes, se tiverem um tempinho, leiam a nova Carta de Londrina. Na crônica desta semana, eu apresento uma personagem que acabo de inventar.
A gente se vê no Bar Brasil, balcão norte. Em caso de emergência, gritem “Inês!”.
Só que hoje vou pegar leve. Tenho motivos.
Mas antes, se tiverem um tempinho, leiam a nova Carta de Londrina. Na crônica desta semana, eu apresento uma personagem que acabo de inventar.
A gente se vê no Bar Brasil, balcão norte. Em caso de emergência, gritem “Inês!”.
Só que hoje vou pegar leve. Tenho motivos.
Sr. Desculpa
June 10, 2003
Minha arte é pedir desculpas. Minha arte e meu ofício.
O que levo nos bolsos, o que tenho em mente, o que escondo nos armários, o que guardo nos baús, o que bebo nas garrafas, o que como nos pratos, o que cubro com roupas, o que lavo com água e sabão, o que confesso aos amigos, o que dou às namoradas, o que leio, o que escrevo, o que peço a Deus – tudo não passa de desculpa.
Quando nasci, não chorei. Os médicos ficaram intrigados; eu parecia querer falar alguma coisa. Era apenas um pedido de desculpas por ter rompido a bolsa de minha mãe. Depois, ainda na maternidade, fiquei amarelo. Acreditaram que era icterícia. Bobagem; era apenas a cor da culpa por ter vindo ao mundo. Então eu finalmente chorei. Para sempre.
Formado na Academia Judaico-Cristã, com mestrado em Pecado Original, cresci pedindo desculpas ao ar por lhe tomar mais alguns centímetros cúbicos. Sempre me considerei um ladrão de oxigênio – e meu nariz nem é tão grande como o do Marcelo Rocha.
Peço desculpas por acordar. Peço desculpas antes de acordar, por ainda estar dormindo. E, ao dormir, por dormir tão cedo ou tarde. Para mim, não há hora certa de fazer nada. Sempre estamos atrasados em relação a alguma coisa. E eu peço perdão.
Inúmeros são os instrumentos da desculpa: a voz, o olhar, o telefone, o e-mail, a carta, a prece, o bilhete, o silêncio, a mão, a buzina, o amigo intermediário – tudo aquilo que configure uma retratação. Até a ira, o ódio e a agressão podem ser desculpas disfarçadas. Mas eu sou adepto de métodos mais ortodoxos: tombo ligeiramente a cabeça, com as mãos para trás, e digo em voz baixa:
– Me desculpe, por favor.
Tornei-me um profissional do pedido de desculpas. Nunca tive uma intenção; nunca fiz por mal; não leve a mal; jamais quis ofender; não pretendi absolutamente causar constrangimentos; prometo melhorar da próxima vez.
Minhas escusas. Desculpinha. Perdão. I'm sorry. Forgive me. Pardon. Manquei. Foi mal. Desculpaê.
Desculpe por ser tão chato. Mas o que pode ser mais chato do que pedir tantas desculpas?
Desculpe por pisar no chão. Por não atender ao telefone. Por ter bebido tanto ontem à noite. Por fazer cantadas baratas. Por não caminhar todos os dias. Por comer nos mesmos restaurantes. Por não seguir a prescrição da médica. Por não saber dirigir (exceto bicicleta), nem cozinhar (exceto Miojo Lamen), nem passar roupa (exceto lenços). Por cochilar em lugares impróprios. Por mandar e-mails repetidos. Por não fazer planos. Por não guardar capital. Por esquecer de ligar. Por ligar em horários impróprios. Por não trabalhar o bastante. Por trabalhar demais. Por escrever mal. Por não dar atenção a quem merece. Por não ir a Curitiba. Por acreditar em coisas impalpáveis como a palavra, o absurdo e o amor.
Acima de tudo, desculpe por me apaixonar tanto assim. Afinal, eu sou o sr. Desculpa – que por acaso veio ao mundo. E ofereço a maior das minhas desculpas a você, mulher.
O que levo nos bolsos, o que tenho em mente, o que escondo nos armários, o que guardo nos baús, o que bebo nas garrafas, o que como nos pratos, o que cubro com roupas, o que lavo com água e sabão, o que confesso aos amigos, o que dou às namoradas, o que leio, o que escrevo, o que peço a Deus – tudo não passa de desculpa.
Quando nasci, não chorei. Os médicos ficaram intrigados; eu parecia querer falar alguma coisa. Era apenas um pedido de desculpas por ter rompido a bolsa de minha mãe. Depois, ainda na maternidade, fiquei amarelo. Acreditaram que era icterícia. Bobagem; era apenas a cor da culpa por ter vindo ao mundo. Então eu finalmente chorei. Para sempre.
Formado na Academia Judaico-Cristã, com mestrado em Pecado Original, cresci pedindo desculpas ao ar por lhe tomar mais alguns centímetros cúbicos. Sempre me considerei um ladrão de oxigênio – e meu nariz nem é tão grande como o do Marcelo Rocha.
Peço desculpas por acordar. Peço desculpas antes de acordar, por ainda estar dormindo. E, ao dormir, por dormir tão cedo ou tarde. Para mim, não há hora certa de fazer nada. Sempre estamos atrasados em relação a alguma coisa. E eu peço perdão.
Inúmeros são os instrumentos da desculpa: a voz, o olhar, o telefone, o e-mail, a carta, a prece, o bilhete, o silêncio, a mão, a buzina, o amigo intermediário – tudo aquilo que configure uma retratação. Até a ira, o ódio e a agressão podem ser desculpas disfarçadas. Mas eu sou adepto de métodos mais ortodoxos: tombo ligeiramente a cabeça, com as mãos para trás, e digo em voz baixa:
– Me desculpe, por favor.
Tornei-me um profissional do pedido de desculpas. Nunca tive uma intenção; nunca fiz por mal; não leve a mal; jamais quis ofender; não pretendi absolutamente causar constrangimentos; prometo melhorar da próxima vez.
Minhas escusas. Desculpinha. Perdão. I'm sorry. Forgive me. Pardon. Manquei. Foi mal. Desculpaê.
Desculpe por ser tão chato. Mas o que pode ser mais chato do que pedir tantas desculpas?
Desculpe por pisar no chão. Por não atender ao telefone. Por ter bebido tanto ontem à noite. Por fazer cantadas baratas. Por não caminhar todos os dias. Por comer nos mesmos restaurantes. Por não seguir a prescrição da médica. Por não saber dirigir (exceto bicicleta), nem cozinhar (exceto Miojo Lamen), nem passar roupa (exceto lenços). Por cochilar em lugares impróprios. Por mandar e-mails repetidos. Por não fazer planos. Por não guardar capital. Por esquecer de ligar. Por ligar em horários impróprios. Por não trabalhar o bastante. Por trabalhar demais. Por escrever mal. Por não dar atenção a quem merece. Por não ir a Curitiba. Por acreditar em coisas impalpáveis como a palavra, o absurdo e o amor.
Acima de tudo, desculpe por me apaixonar tanto assim. Afinal, eu sou o sr. Desculpa – que por acaso veio ao mundo. E ofereço a maior das minhas desculpas a você, mulher.
Irmão mais velho
June 09, 2003
A ordem atravessa o caos, o tempo atravessa o ser, a história atravessa os povos, o mundo atravessa o mundo – e eu espero você.
Sou o irmão mais velho do meu passado. Perdido no ponto obscuro entre hoje e nunca.
Espero, não há problema. Até porque já o fiz de nascença.
E pensar que você está tão perto. Pensar que o tempo, irmão implacável, e não o espaço, nos fez separados.
Mas esse rival, mesmo que fraterno, não vai me vencer.
Pois do meu tempo sou o irmão mais velho.
Sou o irmão mais velho do meu passado. Perdido no ponto obscuro entre hoje e nunca.
Espero, não há problema. Até porque já o fiz de nascença.
E pensar que você está tão perto. Pensar que o tempo, irmão implacável, e não o espaço, nos fez separados.
Mas esse rival, mesmo que fraterno, não vai me vencer.
Pois do meu tempo sou o irmão mais velho.
Maestro
June 09, 2003
O concerto de Sivuca e da Orquestra da UEL, ontem à noite, em Londrina, foi simplesmente histórico. Feliz de quem viu – e ouviu.
***
Cada vez mais, eu acredito que Bach é a voz de Deus.
***
Cada vez mais, eu acredito que Bach é a voz de Deus.
Vide versos
June 07, 2003OPINIÃO DE LIA
Não ria com o poema, Lia.
Não fale,
Mas também não fique fria.
Sobretudo não chore.
Não seja dura a ponto de ignorá-lo,
Contudo não se perca em elogios vagos.
Falsidade é tudo que eu não quero,
Embora franqueza extrema seja deplorável.
Seja construtiva nas críticas, Lia,
Mas não pose de edificante:
Um meio-termo até seria bom
Se não passasse do bastante.
(Se destruir, remonte.)
Não dance e – como é lógico
Intuir – não cante.
Não pergunte: ofende
Mais que a exclamação
(Conquanto ânimo exaltado
Costume redundar malsão).
Do poema não zombe,
Ao poema não volte.
Será uma hecatombe
(Ou pior: um açoite)
Saber que o poema
Lia não soube.
Entenda, Lia:
Será de mais valia
Fazer que o poema
Não seja de dia
Nem seja de noite.
Lia – o poema de hoje
É ontem.
****************************
ESTRELA DA REPETIÇÃO
Eu louvo a estrela da repetição,
que todos os dias visita a casa,
a estrela da repetição.
De tudo farei
pra encantar o vazio
e reter algo do nada.
Minha voz não tem idéias,
minhas mãos não têm verdade.
Louvo a estrela repetida
que não diz, nem persuade.
Estrela, abismo da razão
por argumento nulo;
a rima essencial
do silogismo falso;
meu metro, minha senda,
minha estrela repetida
que não brilha na verdade,
no caminho, nem na vida.
O elefante do circo
June 06, 2003
Ontem à noite eu vi o elefante do circo.
É triste, o elefante do circo.
O espetáculo já havia terminado. O animal estava lá, parado no escuro, talvez dormindo com o barulho da chuva.
Sonhará, o elefante do circo? Sonhará com a selva que nunca mais verá? Sonhará com uma fêmea? Terá pesadelos com ratinhos, caçadores, domadores?
Solitário, o elefante do circo. Parecia uma escultura de pele e carne, imóvel sobre a serragem.
O elefante do circo é o maior espetáculo da terra. Ninguém liga pra ele.
***
Hoje à tarde eu vi a moça da banca. Já a conhecia. Ela me pareceu entediada e triste, entre os jornais e revistas.
Sem nenhuma intenção de cantada ou ironia, me aproximei e disse:
– Tudo bem, moça? Acho que a gente já se viu antes, no Bar Brasil.
Era verdade. Uma amiga comum nos havia apresentado, numa dessas noites.
A moça me olhou sem compaixão e disse:
– Ah, é?
Ao lado, o jornal informava que o elefante do circo é o maior do Brasil.
Mas o elefante é triste. É triste, o elefante.
É triste, o elefante do circo.
O espetáculo já havia terminado. O animal estava lá, parado no escuro, talvez dormindo com o barulho da chuva.
Sonhará, o elefante do circo? Sonhará com a selva que nunca mais verá? Sonhará com uma fêmea? Terá pesadelos com ratinhos, caçadores, domadores?
Solitário, o elefante do circo. Parecia uma escultura de pele e carne, imóvel sobre a serragem.
O elefante do circo é o maior espetáculo da terra. Ninguém liga pra ele.
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Hoje à tarde eu vi a moça da banca. Já a conhecia. Ela me pareceu entediada e triste, entre os jornais e revistas.
Sem nenhuma intenção de cantada ou ironia, me aproximei e disse:
– Tudo bem, moça? Acho que a gente já se viu antes, no Bar Brasil.
Era verdade. Uma amiga comum nos havia apresentado, numa dessas noites.
A moça me olhou sem compaixão e disse:
– Ah, é?
Ao lado, o jornal informava que o elefante do circo é o maior do Brasil.
Mas o elefante é triste. É triste, o elefante.
Preciso de um blog porque
June 05, 2003
- os papéis estão em branco; a tela, vazia; o telefone, mudo; o som, desligado; os jornais, lidos; os livros, fechados; as contas, pagas (sabe-se lá até quando); os deveres, cumpridos; a chuva, amena;
- enquanto escrevo, a velhinha realiza (de guarda-chuva!)a sua caminhada diária e circular na garagem do prédio;
- não sei se devo fazer aquele telefonema agora ou daqui a cinco minutos;
- não gostei da minha crônica de hoje no Scalassara (leia e confira...);
- trabalhar em casa é difícil quando seu vizinho canta;
- o arranha-céu vizinho está quase pronto;
- o Grota mora num prédio construído exatamente onde Osmani e Luiz tinham a sua república, na Rua Canudos;
- não sei o que fazer com tantas anotações perdidas;
- alguém precisa dizer que o livro de Marcos Losnak é assustador de tão bom (exemplos: “Tornei-me especialista na genérica arte do caos” e “Todos os acordos entre minhas mãos fracassaram”);
- isto aqui não é romance, não é poesia, não é crônica, não é reportagem, não é coisa alguma;
- não há nada como um dia de neblina e frio;
- a falta de enxada produz bobagens, mas é meu ganha-pão;
- e você aí, precisa (ou não precisa) de um blog por quê?
***
Da minha parte, só digo o seguinte: silêncio e solidão podem fazer um homem feliz, quando ele acredita que algo muito importante está por acontecer.
- enquanto escrevo, a velhinha realiza (de guarda-chuva!)a sua caminhada diária e circular na garagem do prédio;
- não sei se devo fazer aquele telefonema agora ou daqui a cinco minutos;
- não gostei da minha crônica de hoje no Scalassara (leia e confira...);
- trabalhar em casa é difícil quando seu vizinho canta;
- o arranha-céu vizinho está quase pronto;
- o Grota mora num prédio construído exatamente onde Osmani e Luiz tinham a sua república, na Rua Canudos;
- não sei o que fazer com tantas anotações perdidas;
- alguém precisa dizer que o livro de Marcos Losnak é assustador de tão bom (exemplos: “Tornei-me especialista na genérica arte do caos” e “Todos os acordos entre minhas mãos fracassaram”);
- isto aqui não é romance, não é poesia, não é crônica, não é reportagem, não é coisa alguma;
- não há nada como um dia de neblina e frio;
- a falta de enxada produz bobagens, mas é meu ganha-pão;
- e você aí, precisa (ou não precisa) de um blog por quê?
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Da minha parte, só digo o seguinte: silêncio e solidão podem fazer um homem feliz, quando ele acredita que algo muito importante está por acontecer.
Máquinas, máquinas
June 05, 2003
Leia minha crônica na Carta de Londrina.
Alienação
June 04, 2003
Se dançamos ou dançaremos “Let it Be” no escuro, não interessa à humanidade.
Se ouvimos o “Quarteto das Dissonâncias”, o povo não está nem aí.
A comunidade jamais perguntará se tomamos o caminho de casa enumerando os apartamentos com luzes acesas às quatro da manhã.
A revolução social não coincide com a nossa libertação.
As massas tendem a ignorar a relação entre o saldo negativo de nossas contas correntes e o consumo industrial de vinhos chilenos na sala (ainda que as manchas do vinho, algum dia, se espalhem como atlântidas roxas no tapete).
Totalmente inútil para a coletividade é a informação de que procuramos fotos antigas nas gavetas.
Ler um poema de Rilke para você não influi nos rumos da história.
A quantidade de analgésicos e leite de soja ingeridos na manhã seguinte não passa de uma bobagem perante a civilização.
As classes sociais pouco se importam com a enxurrada de pensamentos confusos e enigmas onipresentes.
O proletariado e a burguesia (se é que existem) querem saber dos meios de produção; quanto a marcarmos encontros na livraria, na frente do palco ou na Quinta Sem-Lei, isso é irrelevante.
Let it be.
Se ouvimos o “Quarteto das Dissonâncias”, o povo não está nem aí.
A comunidade jamais perguntará se tomamos o caminho de casa enumerando os apartamentos com luzes acesas às quatro da manhã.
A revolução social não coincide com a nossa libertação.
As massas tendem a ignorar a relação entre o saldo negativo de nossas contas correntes e o consumo industrial de vinhos chilenos na sala (ainda que as manchas do vinho, algum dia, se espalhem como atlântidas roxas no tapete).
Totalmente inútil para a coletividade é a informação de que procuramos fotos antigas nas gavetas.
Ler um poema de Rilke para você não influi nos rumos da história.
A quantidade de analgésicos e leite de soja ingeridos na manhã seguinte não passa de uma bobagem perante a civilização.
As classes sociais pouco se importam com a enxurrada de pensamentos confusos e enigmas onipresentes.
O proletariado e a burguesia (se é que existem) querem saber dos meios de produção; quanto a marcarmos encontros na livraria, na frente do palco ou na Quinta Sem-Lei, isso é irrelevante.
Let it be.
Mulher
June 03, 2003
(Eu sei que vão me chamar de lírico, mas e daí? Um animador de TV, certa vez, me chamou de poeta, e eu retruquei: “Seu animador de TV!”)
***********
Te olhar, mulher,
do fundo da angústia
e aniquilar o pesadelo
como se fosse um grão de tempo.
Te olhar, mulher,
no agosto do meu trabalho
e na síncope alumiada
do meu secreto veio.
Mulher, paz do meu desalento,
obscura fonte dos anseios,
o pão de cada dia,
absurdo e rosa-dos-ventos.
Mulher, amor, inexistência das coisas,
sal em mim:
que nasça a vida em dia
para construir meu fim.
***********
Te olhar, mulher,
do fundo da angústia
e aniquilar o pesadelo
como se fosse um grão de tempo.
Te olhar, mulher,
no agosto do meu trabalho
e na síncope alumiada
do meu secreto veio.
Mulher, paz do meu desalento,
obscura fonte dos anseios,
o pão de cada dia,
absurdo e rosa-dos-ventos.
Mulher, amor, inexistência das coisas,
sal em mim:
que nasça a vida em dia
para construir meu fim.
Manias
June 02, 2003
Quer conhecer alguém? Comece pelas manias. Já que sou novo no pedaço, vou iniciar uma lista das minhas, sem pretensão de originalidade.
* Atravessar a Souza Naves pensando que é o Mar Vermelho. E se alguém perguntasse meu nome neste momento, eu responderia: “Moisés”.
* Deixar o arroz e o feijão para o final.
* Fazer caminhos mais longos só para passar por ruas agradáveis ou que me lembram alguma coisa boa.
* Rezar sem palavras.
* Sentir vontade de ser – ser – o Paulinho da Viola, ao menos durante um final de semana.
* Imaginar que Londrina tem mar.
* Amar Londrina, mesmo contra todos os motivos racionais.
* Ligar para uma ex-namorada na tarde de domingo.
* Começar a ler o jornal pelos quadrinhos. Jamais ler o caderno de Economia. Ler a Folha da Sexta inteirinha, começando pelo fim.
* Dormir no sofá, embalado pela voz da apresentadora do canal Shoptime.
* Conferir se a torneirinha do gás está fechada.
* Colecionar miniaturas.
* Tomar sorvete napolitano às quatro da manhã.
* Desconfiar que os cachorros da vizinhança estão conversando em código.
* Pedir desculpas.
* Considerar que aquilo que eu tomo por azul pode ser o amarelo para você, e o vermelho para um terceiro. Mesmo que os nomes das coisas coincidam, as cores são diferentes para cada olho humano. Achar que isso é a verdadeira ciência.
* Telefonar para um certo número, mesmo sabendo que nunca ninguém atenderá do outro lado.
* Conversar com bebês como se eles estivessem entendendo.
* Manter a certeza de que vai nascer uma flor no cacto.
* Ser incapaz de sentar-me enquanto houver uma mulher em pé.
* Pedir mais desculpas.
* Ao encontrar uma criança, dizer “Boa-noite!”, mesmo sabendo que é dia claro, ou “Bom-dia!”, quando já anoiteceu.
* Contar piadas infames (porque não há graça em fazer alguém rir com uma piada engraçada).
* Sentir uma inacreditável melancolia quando o Outlook Express informa: Nenhuma mensagem nova. Ou quando a secretária eletrônica diz: Todas as suas mensagens foram ouvidas. Sofrer com o terrível silêncio que vem depois. Às vezes, tudo que a gente quer é um spam.
* Acreditar que, se eu dormir mais 15 minutos, posso acordar com 15 anos.
* Procurar sósias em todos os lugares. Olha aí o Sarney. Meu Deus, o ministro Ricardo Berzoini virou porteiro. Eu não sabia que a Aracy Balabalian freqüentava este restaurante por quilo... Pode crer: eu namorei uma irmã da René Russo. Agora o Rogério Fischer é monge budista? O Tanga prestou concurso pra fiscal da CMTU? Mi nombre es Quico.
* Dizer ao Claudinho Yuge que eu adoro as mulheres.
* A propósito: desculpe.
* Atravessar a Souza Naves pensando que é o Mar Vermelho. E se alguém perguntasse meu nome neste momento, eu responderia: “Moisés”.
* Deixar o arroz e o feijão para o final.
* Fazer caminhos mais longos só para passar por ruas agradáveis ou que me lembram alguma coisa boa.
* Rezar sem palavras.
* Sentir vontade de ser – ser – o Paulinho da Viola, ao menos durante um final de semana.
* Imaginar que Londrina tem mar.
* Amar Londrina, mesmo contra todos os motivos racionais.
* Ligar para uma ex-namorada na tarde de domingo.
* Começar a ler o jornal pelos quadrinhos. Jamais ler o caderno de Economia. Ler a Folha da Sexta inteirinha, começando pelo fim.
* Dormir no sofá, embalado pela voz da apresentadora do canal Shoptime.
* Conferir se a torneirinha do gás está fechada.
* Colecionar miniaturas.
* Tomar sorvete napolitano às quatro da manhã.
* Desconfiar que os cachorros da vizinhança estão conversando em código.
* Pedir desculpas.
* Considerar que aquilo que eu tomo por azul pode ser o amarelo para você, e o vermelho para um terceiro. Mesmo que os nomes das coisas coincidam, as cores são diferentes para cada olho humano. Achar que isso é a verdadeira ciência.
* Telefonar para um certo número, mesmo sabendo que nunca ninguém atenderá do outro lado.
* Conversar com bebês como se eles estivessem entendendo.
* Manter a certeza de que vai nascer uma flor no cacto.
* Ser incapaz de sentar-me enquanto houver uma mulher em pé.
* Pedir mais desculpas.
* Ao encontrar uma criança, dizer “Boa-noite!”, mesmo sabendo que é dia claro, ou “Bom-dia!”, quando já anoiteceu.
* Contar piadas infames (porque não há graça em fazer alguém rir com uma piada engraçada).
* Sentir uma inacreditável melancolia quando o Outlook Express informa: Nenhuma mensagem nova. Ou quando a secretária eletrônica diz: Todas as suas mensagens foram ouvidas. Sofrer com o terrível silêncio que vem depois. Às vezes, tudo que a gente quer é um spam.
* Acreditar que, se eu dormir mais 15 minutos, posso acordar com 15 anos.
* Procurar sósias em todos os lugares. Olha aí o Sarney. Meu Deus, o ministro Ricardo Berzoini virou porteiro. Eu não sabia que a Aracy Balabalian freqüentava este restaurante por quilo... Pode crer: eu namorei uma irmã da René Russo. Agora o Rogério Fischer é monge budista? O Tanga prestou concurso pra fiscal da CMTU? Mi nombre es Quico.
* Dizer ao Claudinho Yuge que eu adoro as mulheres.
* A propósito: desculpe.